As fraudes na área da saúde: como se proteger do charlatanismo disfarçado de medicina alternativa

Última parte. Os 12 sinais de alerta, como se proteger da nova onda atual de charlatanismo médico, preservar sua saúde e seu dinheiro

Apresento aqui os 12 sinais de alerta da presença de charlatanismo, dão conta que você está comprando placebo. E pagando caro, talvez ao custo de sua própria saúde ou de sua vida. Valem para o Brasil e para todos os países, é fácil encontrar exemplos na Internet e conversando com pessoas padecendo de doenças crônicas.

Lembre-se: apenas uma das frases sendo verdadeira já basta para você se antenar e reagir. Ou então faça votos que o placebo funcione bem em seu caso, sem efeitos colaterais sérios e que o dinheiro não lhe faça falta.

  1. Uso de palavras e expressões como “espantoso”, “milagroso”, “melhora imediata”, “remédio natural”, “vigor físico”, “corpo perfeito”. Afirmativas vagas como “purificar o corpo”, “detoxificar o organismo”, “aumentar o nível de energia” ou “incrementar seu sistema imune”. Estas frases não têm qualquer significado real, seu corpo mantém um balanço delicado chamado homeostasia que não deve ser modificado sem outras repercussões para sua saúde
  2. Testemunho de pessoa que endossa as afirmações, muitas vezes uma modelo, artista, desportista ou outro médico famoso (um guru, astro da TV por exemplo). Os dizeres de uma dessas pessoas não deve substituir a evidência de anos de pesquisa científica séria, ou você será o cobaia. E por que um médico não especialista teria a última palavra sobre doenças que desconhece? Você chamaria o encanador mais caro da cidade para consertar seu carro?
  3. O chamado à “teoria da conspiração”: outros profissionais, instituições ou empresas não querem que você saiba de “curas” ou acerca do tratamento proposto porque perderiam dinheiro (médicos, indústria farmacêutica, o governo, sociedades de especialistas não querem deixar você saber dos segredos da cura). Dispensado dizer, não há qualquer evidência no mundo inteiro que algo ou alguém queira manter você doente
  4. Venda de publicação ou livro próprio que propagandeia os tratamentos oferecidos, em substituição à literatura científica com evidências em dados de pesquisas sérias. Carl Sagan disse: “- Afirmativas extraordinárias requerem evidências extraordinárias”. Um livro em oferta no site do seu salvador não é com certeza uma evidência extraordinária de um gênio incompreendido. E você se deixar conduzir por uma leitura viciada de um mau profissional não é um bom programa, é uma perda de tempo e dinheiro. Um caso isolado de uma celebridade não substitui a rigorosa observação científica em vários centros acadêmicos internacionais e contando com milhares de pessoas que apresentam a mesma doença sua.
  5. Dietas originais e caros Spas que aliviam ou curam seus sintomas ou doença, com excesso de exames de laboratório e de imagem, e tratamentos inflacionados por suplementos de toda ordem.
  6. Afirmações de cura ou de possibilidade de ficar sem qualquer tratamento para reumatismos, doenças autoimunes ou câncer, doenças crônicas para as quais a ciência ainda não tem compreensão exata de suas causas ou tratamento curativo em bases científicas.
  7. Anúncio de produto único que irá resolver uma grande variedade de doenças – estes em geral não tratam nenhuma delas de forma eficaz. Em geral há necessidade de pagar antecipado, pode-se comprar e levar um bônus ou outro produto grátis, ou então o produto tem estoque limitado. Você não deve decidir no momento, aconselhe-se com especialista, um produto ético e tão bom assim não desaparecerá logo ali adiante.
  8. Consultas extensas e minuciosas, com porções generosas de carinho e falsas expectativas para o tratamento, culminando com exames caros e receitas extensas de suplementos – compare com outros pacientes se puder e verá que invariavelmente é a mesma receita, independente das queixas. Vou ganhar esta aposta 9 vezes em 10, porque já fiz eu mesmo esta observação com pacientes que foram aos charlatães e me mostraram as prescrições. Você pode se sentir único na consulta, mas sua receita é monotonamente igual ao cidadão que lhe antecedeu. Os cursos e congressos de Medicina alternativa abundam no Brasil e no exterior, onde estas fórmulas e técnicas de consulta são ensinadas
  9. Uso de suplementos ou de fórmulas secretas que devem ser ingeridos indefinidamente, com custo elevado e preparo “que só pode ser feito” em local indicado, caso contrário “não funciona”. “Esta receita é tão exclusiva que precisa ser manipulada de acordo com minhas necessidades biológicas”. Será? (vide sites com referências de citações ao final).
  10. Cuidado, sinal vermelho quando há o anúncio “garantia de retorno de seu dinheiro”, algo inexistente na profissão médica e considerado infração grave do Código de Ética da profissão.
  11. Ostentação e glamourização, com atendimento em clínicas e Spas luxuosos frequentadas por famosos, passando imagem de alto sucesso nas midias sociais, TV e jornais. A estratégia é clássica, praticada por marcas de alto luxo, agregando valor e estimulando o desejo de consumo.
  12. Ênfase na polarização entre “Medicina tradicional e retrógrada” e a “Medicina nova, moderna e inovadora”. A psicopatia dos promotores da Medicina alternativa em suas várias formas traz ao paciente/vítima o discurso do bem contra o mal, do eu com meu sucesso (que tal fotos do antes e do depois no site promocional, com o próprio profissional servindo de modelo?) versus todos os outros médicos que não sabem das inovações.

Acha que está sendo vítima?

  • Converse com seu médico de confiança, não se envergonhe de já ter consultado e gasto dinheiro no esquema. Melhor sair o mais breve possível. Se você está tendo dificuldades de comunicação com o médico acerca de diagnóstico, melhores abordagens terapêuticas e outros quesitos, faça uma lista de perguntas incluindo assuntos como a eficiência dos tratamentos ofertados, plano exato para sua doença, prognóstico do que pode ser esperado e peça explicação científica. Pergunte também sobre o que está lhe atraindo a atenção, sendo ofertado como especial ou quase milagroso.
  • Estude, pesquise na Internet,  veja os dois lados, seja proativo em relação ao seu diagnóstico, hoje é fácil encontrar o site da clínica onde o tratamento alternativo está sendo proposto, mas também sobre “críticas sobre a clínica ou médico X”. Nunca mergulhe de cabeça e mente fechada nestas abordagens do tipo “detox” para curar uma doença autoimune, ozonioterapia ou de extração de dente com canal tratado para fazer cessar dores crônicas. Isto além de ser um engodo, por se basear em pseudociência, é também cruel por usar sua fragilidade de doente como alavanca para ganhos inidôneos, sem garantias reais e muitas vezes colocando sua vida em risco. Ou você vai entrar nessa do enema com café e da extração de dentes sadios para retirar “focos e cavitações”? Se for para espiar suas culpas, Freud explica… procure um psiquiatra.
  • Denuncie o ocorrido nas midias sociais em que você participa, peça auxílio a quem já passou por circunstâncias semelhantes. Quem consultou na clínica X ou tem experiência com as promessas do médico Y? Qual foi o custo, que tipo de tratamento recebeu, quais os exames solicitados? Faça o tema de casa e avalie os cantos de sereia com um mínimo de racionalidade, converse com familiares e com seus melhores amigos
  • Vá ao Conselho Regional de Medicina de sua região e faça uma denúncia. Leve cópia de receitas, anotações de tratamento mesmo que não assinadas, pedidos de exames e resultados.
  • Compareça ao Ministério Público com os documentos acima.

Você estará ajudando a si próprio e a vários outros incautos. E impedindo que seu dinheiro esteja indo para o próximo congresso de medicina alternativa em uma das belas praias do Caribe.

Sites sobre medicina alternativa e charlatanismo

As fraudes na área da saúde: como se proteger do charlatanismo disfarçado de medicina alternativa

3a. Parte. Vários exemplos de charlatanismo médico comprovados­ ao longo da história.

Esta é uma lista parcial tomada da Wikipedia e outras fontes com casos famosos de charlatanismo pelo mundo. Muitos foram presos, pagaram indenizações milionárias a suas vítimas e perderam sua licença médica. Outros eram apenas negociantes ou aventureiros, com certeza grandes artistas. Note a persistência de temas como energias curativas estranhas à ciência, megadoses de suplementos  e a onipresença de dietas secretas que curam. Veja também a incrível coincidência com as propostas naturebas de hoje em dia.

  • Thomas Allinson (1858 – 1918, Escócia) – criador da “Naturopatia”, com forte oposição ao uso de vacinas; houve retorno recente desta tese tendo vacinas como causa de autismo – o autor teve que se retratar após processo legal, havia falsificado dados de pesquisa
  • Johanna Brandt (1876 – 1964, África do Sul) – “Cura das uvas” para o câncer
  • John Brinkley (1885 – 1942, EUA) – inventou o transplante de testículos de cabra em homens para cura da impotência, demência, flatulência, pressão alta, doenças mentais e várias outras condições; comprou uma estação de rádio e seu negócio explodiu: chegou a fazer 16.000 cirurgias até sua clínica ser fechada por charlatanismo
  • Hulda Clark (1928 – 2009, EUA) – naturopata, uma das criadoras da chamada medicina alternativa
  • Max Gerson (1881 – 1959, Alemanha e EUA) – “A Dieta de Gerson” para cura de câncer e da maioria das doenças crônico-degenerativas
  • Samuel Hahnemann (1755 – 1843, Alemanha) – fundador da homeopatia, todas as doenças são causadas por “miasmas” definidos como irregularidades na “força vital” do paciente; todas as pesquisas científicas feitas com rigor mostram que a homeopatia tem forte efeito placebo
  • Lawrence Hamlin (1916, EUA) – “Óleo Milagroso” para cura do câncer
  • William J. A. Bailey (EUA) – fundou a Radium Company, cujo carro-chefe de vendas era o “Radithor”, substância radioativa que poderia “invigorar” seus pacientes; o produto era o rádio, descoberto por Marie Curie na França, diluido em água; outros produtos eram o peso de papel e uma fivela para cintos com rádio, para “energia portátil”; não sabemos quantos pacientes morreram de câncer pela radioatividade cumulativa
  • L. Ron Hubbard (1911 – 1986, EUA) – criador da igreja da cientologia e da “dianética”, ideias e práticas metafísicas relacionadas ao corpo e alma e praticadas pela cientologia, Nação do Islã e grupos independentes dianeticistas
  • William Donald Kelley (1925 – 2005, EUA) – criador da “Terapia Metabólica Inespecífica”, dizia que “alimentos incorretos causam crescimento de células malignas, enquanto que alimentos corretos permitem que as defesas naturais do corpo possam atuar”
  • John Harvey Kellog (1852 – 1943, EUA) –considerado o pai do movimento atual para dietas naturais e medicina holística; internava pacientes num Spa carésimo onde os pacientes recebiam dieta vegetariana, exercícios regulares com especial atenção à respiração, sem álcool ou tabaco, preparados com enzimas pancreáticas, 50 vitaminas e suplementos diários (incluindo laetrile ou amigdalina, substância do caroço de algumas frutas que seria a chave para a cura do câncer); era fã dos enemas de limpeza, utilizando uma máquina que injetava litros de água e yogurte no intestino em tratamentos seriados; acreditava que todas as doenças vinham do intestino e pregava abstinência sexual com aplicação de ácido carbólico no clitóris para reduzir o prazer sexual; vegetariano convicto, inventou os flocos de cereais e fundou com seu irmão a fábrica Kellog’s
  • Franz Anton Mesmer (1734 – 1815, Alemanha. Áustria e França) – cura pelo “magnetismo animal” para corrigir imbalanços no fluido universal do corpo; os crédulos eram colocados numa arena com show envolvendo cantos, música, efeitos de luz e cenografia até o clímax do enredo, quando as pessoas tinham uma “crise magnética” e sairiam curadas; esta a origem da palavra “mesmerizado”
  • Theodor Morell (1886 – 1948, Alemanha) – médico pessoal de Hitler, administrava ao ditador 74 substâncias em 28 misturas distintas, incluindo heroina, cocaina, pílulas anti-gás, brometo de potássio, papaverina, testosterona, vitaminas e enzimas animais; Hitler o recomendou a outros líderes nazistas como Himmler e Goebbels, que o descartaram como charlatão
  • Daniel David Palmer (1845 – 1913, EUA) – inventor da quiropraxia, baseada no princípio de que todas as doenças podem ser curadas por correção do desalinhamento da coluna vertebral; a teoria é que o corpo possui um fluido com “inteligência inata” que pode ser liberado a partir da manipulação da coluna e que iria até o órgão doente para curá-lo; também curava por técnica de “mãos magnéticas”; pessoalmente vi pacientes com fratura da coluna após as intempestivas manipulações, uma médica cardiologista inclusive sendo levada de ambulância para descompressão da medula dorsal. Uma vértebra quebrou com o movimento brusco da manipulação e de imediato ficou paralisada da cintura para baixo. Como médica deu-se conta imediata da gravidade da situação, chamou ambulância e avisou o hospital, conseguindo se salvar com neurocirurgia de emergênica – iria ficar em cadeira de rodas o resto de sua vida
  • Linus Pauling (1901 – 1994, EUA) – criador da medicina ortomolecular, com megadoses de vitamina C para cura do câncer e da gripe; faleceu de câncer, embora tomasse até 8 g de vitamina C diariamente; ganhou prêmio Nobel de Medicina por suas contribuições químicas (não pela arte médica)
  • John Henry Pickard (1866 – 1934, EUA) – extrato de herva Sanguinaria, para “cura de pneumonia, tosse, pulmões fracos, asma, problemas de estômago, rins, fígado, bexiga e tônico altamente eficaz para o sangue e nervos”
  • Wilhelm Reich (1897 – 1957, Áustria e EUA) – cura pela “energia cósmica primordial”, que ele chamava “Orgone”, inventor do “Acumulador de Orgônio” para cura do câncer, manipulação do clima e combate a alienígenas do espaço
  • Stanislaw Burzynski (ainda vivo, EUA) – inventor de “antineoplastons” para cura do câncer no Texas; responde a vários processos e é alvo do FDA
  • Ann Louise Gittleman (ainda viva, EUA) – perda de peso por “dietas da moda” de rápido efeito, aliada a “detoxificação” e “radiação eletromagnética”; formada na “Faculdade Clayton de Saúde Natural”, fechada por distribuir diplomas de fachada a pessoas que depois exerciam várias formas de charlatanismo
  • Kevin Trudeau (ainda vivo) – dietas da moda para perda de peso e cura de várias doenças; publicou vários livros com vendas milionárias após propagandas na TV; preso atualmente no estado do Alabama por não pagar sentenças a pacientes que o acionaram na justiça em valores perto de US$ 8 milhões
  • Tullio Simoncini (ainda vivo, Itália) – proclama que o câncer é causado por Candida albicans (gera o popular sapinho na boca de nenês e corrimento vaginal em mulheres adultas), que cresceria dentro dos tumores; promove a “cura através de injeções de bicarbonato de sódio”; condenado em 2006 por morte de paciente devido às injeções
  • Belle Gibson (ainda viva, Austrália) – escreveu sobre a cura de seu câncer no cérebro atavés de terapias alternativas e dietas especiais; condenada por tribunais australianos após se descobrir que nunca esteve doente e que fraudava contribuições a instituições de caridade
  • Bernard Jensen (EUA) – criador da “iridologia”, onde as cores escuras da íris da pessoa (parte colorida do olho) representariam órgãos doentes; em verdade a pessoa nasce e morre sem qualquer alteração na cor de seus olhos ou desenho da íris, razão pela qual é a parte do corpo utilizada hoje nos mais sofisticados sistemas de identificação pessoal; prescrevia dietas da moda e suplementos até hoje vendidos com seu nome; seguidores da família promovem enemas de limpeza e vários outros produtos alternativos em site próprio da Internet
  • Genésio Pacheco da Veiga (Espírito Santo, Brasil) – não poderia faltar um tupiniquim famoso em nossa lista; criador da vacina da brucelose para cura de diversas formas de reumatismo, como artrite reumatoide, lúpus, artrose, esclerodermia, artrite psoriásica, gota e até lesões por esforços repetitivos; sua teoria dava conta que todos os reumatismos são produzidos pela doença bovina brucelose, que raramente infecta seres humanos; as injeções em doses crescentes ainda são vendidas, após propaganda nos classificados de jornais de maior circulação no país, ultimamente pela Internet e em forma de comprimidos. Após criança com artrite juvenil me procurar com deformidades severas, sem poder caminhar, e 2 anos de tratamento com o método alternativo, conseguimos fechar uma clínica de representação das vacinas no sul do país, em ação conjunta com o Conselho Regional de Medicina
  • Jessé Teixeira (Rio de Janeiro, Brasil) – criador e propagador da “autohemoterapia” na década de 1930, para cura de várias doenças; técnica proibida no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina, com riscos e sem qualquer comprovação científica; desde que me formei já presenciei três ondas de ressurgimetno da autohemoterapia, a última há poucos anos e com maior intensidade devido à Internet; excelente terapia para estudo do efeito placebo
  • Pierre Delbet (1862 – 1957, França) e Padre Beno José Schorr (falecido em 2005, Brasil)– o francês é inventor da “Magnesioterapia” para cura do câncer, com propriedades disseminadas pelo padre desde a década de 80 no nosso país; tratamento e cura dos reumatismos e várias outras doenças; método barato e de fácil obtenção sem receita médica, boa parte de meus pacientes utilizam o magnésio “porque mal não faz”, mas continuam tendo que consultar; minha observação aqui é que, se magnésio funcionasse para reumatismos, os consultórios de reumatologistas estariam vazios – infelizmente a verdade é o oposto.

As fraudes na área da saúde: como se proteger do charlatanismo disfarçado de medicina alternativa

2a. Parte.  Usando o efeito placebo como prova dos tratamentos

Vejo um grande número de médicos e outros profissionais anunciando nas mídias sociais uma Medicina adjetivada, que passa longe dos princípios mais nobres da profissão. Medicina ortomolecular, Medicina integrativa, Medicina funcional, Medicina holística, Medicina complementar, “Anti-aging” (anti-envelhecimento) e tantos outros termos passam a se integrar a novas promessas de melhora e cura de males crônicos dentro da Odontologia funcional, Nutrição funcional… e adjetive a área do conhecimento que você quiser.

Por trás de uma pseudociência e palavrório difícil, consultas minuciosas com horas de duração, com listas enormes de testes laboratoriais complicados e produtos terapêuticos de nomes mais ainda – e, claro, que só podem ser comprados onde indicado (a maioria das vezes na própria clínica ou pela Internet), esconde-se o interesse pecuniário maior e a confiança de que o efeito placebo existe e funciona.

De fato, nas pesquisas científicas mais sérias comprova-se que em mais de 30% das pessoas há melhora ou desaparecimento de sintomas no grupo que recebeu pílulas de farinha (placebo inerte, sem qualquer função biológica). Por exemplo, quando foram testadas as pílulas de nitrato para angina, mais de 1/3 das pessoas no grupo com placebo tiveram redução da forte dor no peito. Justamente por isso é sempre necessário comparar-se o remédio novo em um grupo que apresenta a doença contra outro grupo com a mesma doença recebendo placebo. E note que os métodos revolucionários propalados pelo charlatanismo nunca sofreram o rigor de tais estudos, não estão publicados. A Medicina tradicional não os entende porque são muito novos e originais, ou a indústria farmacêutica e os médicos tradicionais os escondem porque perderiam seus ganhos – a tradicional e bem difundida teoria da conspiração, que visaria deixar você como sofredor crônico.

“A ciência é a base da medicina e a comprovação científica a base das práticas terapêuticas que devem ser utilizadas. A chamada medicina alternativa foge da ciência, não busca a comprovação experimental e coloca em risco a saúde dos que a utilizam”, Dr. Sergio Ibiapina, presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM). O CFM aprovou as resoluções 1.499 e 1.500 proibindo médicos de praticar a chamada medicina alternativa e ortomolecular, trazendo novos adjetivos ao mercado como nomes substitutos (Medicina funcional, Medicina integrativa, medicina holística e outras), burlando assim as resoluções.”

Assim, se você tem um frasco com água colorida vendido com toda a sua arte de persuasão como solução para o problema de várias doenças, estatisticamente você estará auxiliando 30% das pessoas que compram seu produto. Estes por sua vez irão lhe auxiliar a espalhar a boa nova de “cura milagrosa” e trazer uma clientela crescente. No dia em que os outros 70% se derem conta do seu esquema (a fraude), você já estará milionário em outras paragens, já terá inventado um novo placebo, ou já estará no céu.

No caso de doenças autoimunes com dores reumáticas os esquemas fraudulentos até parecem funcionar porque os sintomas costumam ir e vir aleatoriamente, muitas vezes ao sabor das emoções e convicções. Você acha que o novo tratamento está funcionando, quando em verdade é apenas o ir e vir natural dos sintomas da artrite. Na maioria de meus pacientes os sintomas melhoram de forma marcada quando em férias nos melhores hotéis, estações termais e navios de cruzeiro, longe das preocupações do dia-a-dia.

Veja este exemplo de depoimento recebido por Email há poucos dias, dando conta de terapia alternativa da moda no Brasil e típica de efeito placebo, a autohemoterapia, com meus comentários mais adiante.

“Minha história com a Esclerodermia começou em 2004 quando metade do meu corpo tornou-se uma espécie de lixa. Braços, tórax e pernas foram tomados. Manchas esbranquiçadas apareceram principalmente nos braços. Dores articulares nos dedos e punhos. A pedido do Dermatologista fiz biopsia de amostra da pele de um local mais afetado. O resultado foi Esclerodermia ainda localizada.  O médico me informou que não tinha cura e que teríamos que tratar com corticóides. O médico me pediu uns dias para pesquisar a melhor droga a ser utilizada. Neste ínterim recebi de presente um DVD de uma amiga: Conversa com Dr. Luiz Moura sobre Autohemoterapia. Neste DVD ele afirmava que curava pessoas que estavam com a doença somente com este tratamento. Para quem não sabe é a retirada de 10 ml de sangue da veia e a imediata aplicação no músculo uma vez por semana.  De imediato acreditei no assunto e no mesmo dia iniciei as aplicações. Após um mês, ou seja 4 aplicações, a diferença já era visível. A pela melhorou muito e as dores desapareceram. Voltei ao médico, que mesmo vendo o resultado do tratamento, disse que era um risco muito grande já que não havia nenhuma comprovação científica a respeito. Assumi inteira responsabilidade, continuei as aplicações e após mais 4 semanas a pele voltou ao normal. Ou seja, no meu caso, a Autohemoterapia curou a doença em 2 meses. Suspendi as aplicações por 3 meses e não voltou mais. Hoje, após 15 anos, continuo tomando regularmente porque percebi que muitos desconfortos desapareceram. É difícil gripar ou resfriar e quando acontece os sintomas desaparecem rapidamente. Minha pele melhorou, tanto que hoje, 2019, tenho 63 anos e todos afirmam que pareço estar com 50 anos. Claro que não posso afirmar que todos que resolverem se tratar com Autohemoterapia vão se curar, porque depende de outros fatores que não vem ao caso, mas afirmo: vale a pena tentar.”

E meus comentários ao cidadão:

“Prezado Sr., grato pela mensagem e por seu depoimento. Fico feliz que seu problema tenha sido resolvido logo no início. Há 4 dados que necessito lhe passar, importantes para estarmos sempre em benefício da verdade:

substitua “autohemoterapia” na sua mensagem por “garra do diabo”, “terapia detox”, “enemas de purificação” e o resultado positivo seria o mesmo – temos vários depoimentos exatamente como o seu, com cura descrita por esses outros métodos ditos alternativos

o efeito placebo ocorre em até 1/3 das pessoas que utilizam qualquer terapia, tradicional ou alternativa, um número bastante elevado; isto torna indispensável que para cada método de terapêutica se façam estudos científicos com vários pacientes diagnosticados exatamente com a mesma doença, um grupo recebendo a nova droga, remédio ou nova técnica, contra um grupo recebendo placebo

várias doenças autoimunes aparecem e desaparecem naturalmente, ou seja, seguem um curso autolimitado, independente do que a pessoa fizer de tratamento

– por último, e algo de grande importância para seu depoimento, há vários diagnósticos diferenciais de esclerodermia da pele, quando outros órgãos internos não são afetados. Ou seja, a biópsia de pele diagnostica “esclerodermia”, e o trabalho do médico deve ser ato contínuo descobrir qual o tipo exato, através de outros exames subsidiários. Além da forma autoimune, que seu médico diagnosticou e inclusive lhe prescreveu corticóide, há as seguintes formas de esclerodermia, todas podendo ser autolimitadas (ou seja, desaparecem espontaneamente em vários casos): escleredema, escleredema de Buschke, escleromixedema, mucinose papilar, gamopatia monoclonal benigna, amiloidose de cadeias leves, fasciite eosinofílica, mixedema por hipotireoidismo (doença de Hashimoto autolimitada), fibrose sistêmica nefrogênica (após exame de ressonância magnética com contraste), esclerodermia por drogas.

Acredito que seu médico se baseou apenas no exame de anátomo-patologia, a julgar pelo seu depoimento, e não foi adiante na investigação, preferindo lhe passar o curso mais fácil de tratamento – corticóides. Duas linhas de raciocínio no nosso ver equivocadas: diagnóstico incompleto e tratamento apressado.

A autohemoterapia foi inventada na década de 30 do século passado no Rio de Janeiro pelo Dr. Jessé Teixeira, e desde então aparece e desaparece ciclicamente do noticiário. O método é bem simples, como descreves, barato, e funciona em várias pessoas (de acordo com as premissas que escrevi acima). Assim, se de fato resolvesse os diversos casos de doenças crônicas para os quais é proposta, incluindo as doenças autoimunes, teríamos um sem número de pessoas curadas e os consultórios médicos quase vazios. Por exemplo os de reumatologistas. 

Posso lhe assegurar que não é o caso, a maioria dos pacientes que fazem autohemoterapia tiveram que continuar seu tratamento tradicional para esclerose sistêmica, lúpus, artrite reumatoide e tantas outras. Por não ser mais eficaz que o placebo, e por apresentar alguns riscos, o Conselho Federal de Medicina proibiu a técnica no Brasil.

Portanto, em benefício da verdade e de várias outras pessoas desesperadas por cura, no futuro quando der seu corajoso depoimento público, espero que contemple e descreva em sua mensagem os aspectos esclarecedores que tive o cuidado de lhe enumerar. Com cordiais saudações, pedindo excusas por ter lhe tirado de sua zona de conforto”.

As coisas são quase sempre mais complicadas do que o público leigo acredita. Se o primeiro médico não lhe traz confiança, logo lhe prescreve um corticóide sem explicar exatamente seu problema, ou incorre em práticas não ortodoxas como as explicadas aqui, procure de imediato outro profissional.

As fraudes na área da saúde: como se proteger do charlatanismo disfarçado de medicina alternativa.

1a. parte. A farsa que aproveita a vulnerabilidade do paciente

O charlatanismo médico se refere a práticas de saúde ou remédios que não têm bases científicas para sua indicação. Está baseado em pretensas teorias que misturam conhecimentos de ciências básicas como imunologia, bioquímica, genética e fisiologia, de forma fragmentada, ininteligível e claramente manipulativa para bons conhecedores, porém que impressionam a potencial vítima.

“Charlatanismo. Ação, comportamento, dito ou prática de charlatão: charlatanice. Exploração da credulidade pública através da venda de produtos e/ou serviços incapazes de curar doenças”. http://www.dicio.com.br

Alguns fatos médicos mais recentes são aproveitados para criar teorias abrangentes que explicariam todos os males, com oferta de produtos pelo próprio profissional ou por seu grupo: extensas consultas, dietas da moda, suplementos infindáveis, cursos para leigos e para outros profissionais, livros e até spas de imersão por vários dias. E a preços muitas vezes exorbitantes, por incríveis séries de tratamento com promessa de curas ou de cessação de todos os remédios.

Assim já ocorreu historicamente com os radicais livres e as extensas fórmulas ortomoleculares, abrindo espaço para os ditos quelódromos – espaços compartilhados em clínicas de infusão endovenosa com múltiplas substâncias quelantes de toxinas e metais. Depois com as chamadas “intoxicações crônicas” vistas no cabelo e suas curas detox. A teoria do “foco infeccioso” na boca, com extrações dentárias múltiplas, retorna após várias décadas até via Netflix, com fortunas sendo gastas em uma assim chamada odontologia holística que exige extrações e implantes a peso de ouro. E, ultimamente, implicando o intestino como criminoso da vez, trazendo uma chamada “remissão das doenças autoimunes” (são mais de 200 distintas!) pelas medicina e  nutrição funcionais.

A trama se aproveita de um paciente que sofre, em estado vulnerável ou terminal. Pessoas desesperadas são aqui a melhor presa. E o princípio de Hipócrates primum non nocere (acima de tudo não lesar o paciente), jurado pelo médico no dia de sua formatura, é esquecido atrás de um livro no consultório.

Pior que a fortuna gasta pelos brasileiros em terapias alternativas e sem embasamento científico sólido é o dano à sua própria saúde, por serem conduzidos para longe de atendimento médico idôneo. Além dos efeitos secundários muitas vezes letais dos tratamentos alternativos. Uma médica gastroenterologista me comentou recentemente sobre o crescente número de casos graves de pancreatite aguda e de perfuração intestinal por altas doses de magnésio e outros produtos em “curas” de doenças autoimunes após megadoses de suplementos, também de vitamina D. Apenas um exemplo de vários que estão surgindo a todo momento.

“É hora de a comunidade científica parar de dar passe livre à medicina alternativa. Não pode haver dois tipos de medicina – a convencional e a alternativa. Há apenas a medicina que foi adequadamente testada, e não a que não o foi”. Marcia Angell & Jerome Kassirer, New England Journal of Medicine, 1998.

Médicos e cientistas dedicam suas vidas  para encontrar tratamentos, seja para cura ou para controle de doenças crônicas como as autoimunes e câncer, com causas ainda desconhecidas.

Ofertas de tratamentos miraculosos para solucionar estas doenças respaldadas em narrativas de que toda a comunidade científica está ‘desatualizada’ ou ‘de má-vontade’  e que só ‘aquele médico, clínica ou nutricionista’ SABE COMO TRATAR e CURAR uma doença reumática, por exemplo, seria negar completamente qualquer racionalidade à abordagem da questão e atirar-se a uma prática reeditada e já condenada ao longo da história.

Praticamente todos os médicos que fazem jus a este nome, empresas, entidades e órgãos envolvidos com diagnóstico e tratamento dessas doenças estão isentos de qualquer interesse em deixar de oferecer o melhor tratamento, ou a própria cura se houver. Nos meios médicos este não é um assunto que seja sequer ventilado entre colegas ou em congressos científicos de Medicina, qualquer que seja a especialidade.

Nesta breve série vamos desvendar de forma objetiva o charlatanismo na Medicina, desde suas bases históricas até mostrar maneiras de como você deve se proteger. As referências da literatura com links para os sites da Internet você encontrará ao final. Esperamos que você possa repassar para o maior número de pessoas.

QUAIS OS FATORES DE RISCO, COMO RECONHECER E COMO TRATAR A OVERDOSE POR OPIÁCEOS

Quais são os fatores de risco para overdose de opiáceos?

Estes são os fatores de risco mais importantes, veja se você se enquadra e tome medidas imediatas:

– combinação de opiáceos entre si ou com outras classes de remédios, como anti-depressivos

– tomar doses elevadas dos opiáceos prescritos

– tomar doses maiores que aquelas prescritas

– usar opiáceos ilegais (heroína) ou comprados sem prescrição legal, as formulações podem conter outras substâncias deletérias à saúde

– idade acima de 65 anos

– apresentar doenças crônicas dos rins ou fígado.

Como reconhecer uma overdose de opiáceos?

E este é o conhecimento básico para pessoas que podem estar presenciando uma crise de overdose.

– pupilas pequenas, contraídas

– perda de consciência

– respiração superficial e lenta

– engasgos ou sons tipo gargarejo

– pele pálida, azulada e fria

– corpo imóvel.

Como salvar a vida de uma pessoa em overdose de opiáceos?

Agora você poderá salvar efetivamente uma vida. Haja rápido, você terá poucos minutos.

– na dúvida, chame por ajuda: pessoa da casa, vizinho, polícia, bombeiros, SAMU

– tente manter a pessoa desperta e respirando

– mova a pessoa para a posição deitada e de lado para prevenir aspiração para os pulmões

– permaneça com a pessoa até que venha auxílio

– administrar o antídoto naloxona tão breve quanto possível: injetável no músculo, subcutâneo ou na veia, em spray nasal se tiver – o mais eficaz em situação aguda e de efeito mais rápido é na veia.

Novas orientações de autoridades no assunto recomendam com ênfase a prescrição de naloxona para quem recebe opiáceos por dor crônica e que estejam em risco de overdose. Isto inclui pacientes com prescrição de doses mais elevadas de opiáceos, co-prescrição de drogas que possam piorar os efeitos colaterais de opiáceos (benzodiazepínicos tipo Valium, Lorax e Lexotan; ou anti-depressivos), ou aqueles com doenças crônicas de pulmões (bronquite e enfisema, por exemplo), dos rins e fígado. O objetivo é de reverter a epidemia de mortes por overdose, já que se consegue salvar um episódio letal com a administração rápida de naloxona.

No Brasil há formas injetáveis da naloxona para uso endovenoso, intramuscular ou subcutâneo: algumas apresentações de cloridrato  de naloxona e hicrocloreto de naloxona (Narcan e Naloxona como nomes comerciais). Peça receita ao clínico que prescreveu opiáceos e esteja atento. Avise familiar, acompanhante ou amigos sobre o recurso e onde encontrar a naloxona em sua casa. E não viaje sem o remédio salvador.

MAIS DE 50.000 MORTOS POR REMÉDIOS PARA A DOR. COMO NÃO SER MAIS UM NÚMERO NA EPIDEMIA DOS OPIÁCEOS? (esta postagem é para você, no desespero da dor)

Há poucos dias recebi o impressionante relato de uma querida paciente, preocupada com o número crescente de pessoas, inclusive jovens, padecendo de reumatismos crônicos e vindo a falecer por complicações de uso de opiáceos (oxicodona, hidrocodona, morfina ou fentanil e derivados) muitas vezes combinados a outras drogas de modulação da dor como anti-depressivos. De fato, apenas nos EUA foram quase 50.000 pessoas falecidas por overdose de opiáceos em 2017.

Minhas reflexões e sugestões para os que estão em situação similar de dor vão adiante, nesta e em postagens seguintes, não deixe de ler e salve vidas. Vamos auxiliar estas pessoas desesperadas que se atiram em clínicas da dor, recebem associações de remédios perigosos e tratamentos alternativos sem chegar ao cerne da questão – tratar corretamente a dor, os reumatismos inflamatórios sistêmicos e as doenças autoimunes com base nos conhecimentos científicos sérios.

Ao relato:

“As redes sociais tornaram a informação mais acessível aos pacientes portadores de reumatismos e doenças da autoimunidade, aproximando pessoas para troca de informações. Estas também trazem más notícias, como quando perdemos amigos de luta contra a mesma doença que temos, no meu caso a Espondilite Anquilosante.

“Entre o final de 2017 e início de 2019 somaram-se os casos em que pacientes em tratamento para a minha doença foram a óbito por motivos medicamentosos.  Ou seja, complicações advindas do uso, prescrito ou não, de medicamentos sobrepostos, ou em quantidades maiores do que as recomendadas. Tudo motivado em primeira análise por desespero ou pânico frente às crises de dor que não cedem. A Carmen foi uma que perdemos para as complicações da espondilite e foi uma morte muito rápida. Ela tinha 27 anos,  era estudante de Biomedicina, diagnosticada com espondilite em 2017,  mas sofria de dores sem diagnóstico desde 2013. Estava em tratamento com infliximabe, metotrexate, morfina endovenosa e antidepressivos, pois as dores eram muito severas, insuportáveis. Ia todos os dias na emergência do hospital tentar alívio com analgesia, o pé entortava, ela não conseguia caminhar. A mãe era enfermeira no hospital, então tinha facilidade no atendimento. Com um ano de uso deste coquetel de remédios sentiu sintomas de gripe e dor na garganta, piorou, foi para o hospital, baixou em UTI, fez SARA (nota minha – SARA se refere a uma síndrome de insuficiência respiratória aguda)  por conta de uma hepatite medicamentosa e em 15 dias de hospital saiu sem vida em novembro de 2017. Claro que o metotrexate e o infliximabe podem ter contribuido para a hepatite, mas até onde o excesso de opióides também ajudou?

“Outro caso foi da minha amiga Geovana, empresária de 44 anos, casada e com um filho de 15 anos. Teve hipotermia severa, levada ao hospital dia 6 de janeiro de 2019 às pressas, com lábios e extremidades roxas. Fez parada cardiorespiratória na mesma madrugada e veio a falecer em 24 horas no hospital. Como era minha amiga e conversávamos muito sobre tratamentos e médicos e medos e remédios, eu sabia que ela fazia uso do imunobiológico Cosentyx para a Espondilite, que não a ajudava muito, pois tinha crises e era muito frágil para dor, entrava em pânico nas crises. Contou no grupo da Internet que queria comprar CDB (tintura de canabidiol) para ajudar na dor, mas usava Tylex, Tramal, fitoterápicos tidos como anti-inflamatórios – cloreto de magnésio e sucupira em cápsulas – e antidepressivos, não sabemos o que mais poderá ter usado junto… tentamos dissuadi-la de adquirir o CDB por conta própria alegando que era produto ilegal, acreditamos que ela nunca chegou a receber, se comprou… enfim, acreditamos que ela superdosou os opióides naqueles dias, pois estava com dores insuportáveis e ia na emergência aplicar morfina na veia.

“Em 1 ano foram quatro os casos de uso de opiáceos e morte só do meu conhecimento, nos grupos de midia que participo. Eu passo mal com os opiáceos, não me vai bem nunca. Prefiro ficar longe. Aliás, analgesia para mim era sempre deprimente, porque meu cérebro entendia que eu estava me enganando… a dor ia voltar, então eu precisava fazê-la não voltar e o caminho não era só atacando a dor…

Porto Alegre, verão de 2019″.

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Em um país com mais de 300 milhões de habitantes como os Estados Unidos chegou-se a perto de 60.000 mortes por overdose de opiáceos em 2018. O Brasil com mais de 200 milhões de habitantes pode estar com números também elevados, mas que não aparecem claramente nos atestados de óbito. Nosso país, é sabido, tem falhas gritantes na parte estatística, ainda mais nas questões de saúde.

O número de mortes por overdose em mulheres entre os 30 e 64 anos de idade cresceu de forma dramática entre 1999 e 2017 nos EUA:

– opióides sintéticos, aumento de 1.643%

– heroína 915%

– benzodiazepínicos 830%

– opióides com prescrição médica 485%

– cocaína 280%

– anti-depressivos 176%.

E por que é tão fácil chegar-se a uma overdose de opiáceos? Pelo fenômeno dito “taquifilaxia”, ou seja, o termo significa que para um mesmo efeito analgésico as doses devem ser cada vez maiores da droga. Em linguajar leigo, o corpo “vai se acostumando” a cada novo patamar de dose, e mais remédio é necessário, em menores intervalos de tempo, para obter-se o efeito inicial em doses pequenas. E então vem o para-efeito letal, a pessoa simplesmente pára de respirar.

De fato, a morte por overdose de opiáceos ocorre por inibição das funções que comandam o ato de respirar no cérebro. A pessoa simplesmente pára de respirar e não sente. O gás carbônico se acumula, o oxigênio se reduz no cérebro e a pessoa “apaga”. Até o coração cessar de bater é questão de minutos.

Conclusões

  1. A epidemia de overdose e mortes por opiáceos é real, você poderá ser a próxima vítima
  2. Converse com seu médico sobre alternativas aos opiáceos, encontre um médico em quem confiar
  3. Verifique se você está sendo tratado pelo especialista médico em sua doença, e não apenas por clínicos da dor ou charlatões prometendo tratamentos alternativos; no caso de doenças reumáticas e autoimunes seu especialista deve ser o reumatologista; troque de médicos se necessário
  4. Não entre em pânico com a dor, evite a automedicação e procure auxílio imediato; aumentar a dose de seus opiáceos por conta própria é um convite ao suicídio indesejado

Veja nas postagens seguintes quais os fatores de risco, como reconhecer e como tratar a crise aguda de overdose por opiáceos.

Referências

https://www.jwatch.org/fw114959/2019/01/11/drug-overdose-deaths-nearly-quadruple-among-women

https://www.jwatch.org/fw114907/2018/12/20/hhs-recommends-coprescribing-naloxone-with-opioids-high

https://www.reuters.com/article/us-usa-opioids-naloxone/fda-panel-votes-for-prescribing-naloxone-with-opioids-idUSKBN1OH2CA

https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/68/wr/mm6801a1.htm?s_cid=mm6801a1_w

Initiating Opioid Agonist Treatment for Opioid Use Disorder in the Inpatient Setting. A. Raheemullah, A. Lembke. JAMA Intern Med, 2019. doi:10.1001/jamainternmed.2018.6749

https://www.drugabuse.gov/related-topics/trends-statistics/overdose-death-rates

JÁ TOMOU SUAS VITAMINAS E SUPLEMENTOS HOJE? (USOS E ABUSOS DE VITAMINAS E SUPLEMENTOS NA SOCIEDADE MODERNA)

Alguém já disse que a urina do americano médio é a mais rica do mundo. Pudera, com 68% dos adultos nos Estados Unidos utilizando suplementos regularmente, a maioria desnecessária, não absorvida pela mucosa do intestino ou simplesmente eliminados pelos rins, vão-se pelo ralo alguns bilhões de dólares anualmente.

Tipos de suplementos

Há quatro categorias de suplementos à venda no mundo ocidental:

1. Vitaminas e minerais (97% das pessoas nos EUA os usam)

2. Suplementos especiais (ômega-3/ácidos graxos)

3. Ervas e derivados botânicos (chá verde, garra do diabo)

4. Nutrição esportiva e controle de peso (20% das pessoas nos EUA).

Suplementos mais vendidos

E estes são os suplementos mais consumidos nos EUA nos últimos anos, segundo a agência independente Consumer Lab (www.consumerlab.org):

Óleo de peixe – reposição de ômega-3 se mostrou recentemente ineficaz para prevenir doenças do coração, mas compostos dentro destas cápsulas com ácidos graxos essenciais como DHA parecem proteger contra alguns tipos de câncer.

Multivitamínicos – milhares de pessoas foram seguidas por 5 a 10 anos nos EUA e Europa em estudos científicos rigorosos. Infelizmente nenhum grupo de doenças como do coração (hipertensão, infarto, derrame), diabetes, reumatismos, doenças autoimunes e câncer foi prevenido nos indivíduos que usaram complexos multivatimínicos como Centrum e outros, contra o grupo que usou placebo. A prevalência de todas as doenças foi a mesma nos dois grupos de estudo.

CoQ10 – o efeito de proteção cardiovascular parece ser mínimo com este produto, e nem mesmo o grupo de pessoas com problemas musculares como dores e cãimbras devido ao uso de estatinas tem melhoras dos sintomas com altas doses deste suplemento à base de coenzima Q10.

Vitaminas B, C, D – estas estão presentes na alimentação balanceada do dia-a-dia ou na exposição solar saudável

Magnésio – famoso composto em algumas partes do mundo para tratar reumatismos, se funcionasse os reumatologistas estariam com seus consultórios vazios. O contrário é observado. Há melhor absorção de cálcio em tratamentos para osteoporose se o magnésio é ingerido conjuntamente, mas o efeito é discreto

Cálcio – tomado de forma isolado não melhora a saúde dos ossos e nem trata osteoporose.

Probióticos – estes estão na moda, e de fato funcionam para evitar disbiose do microbioma intestinal, ou seja, mantêm a flora bacteriana em funcionamento normal dentro dos intestinos. As pesquisas estão em andamento, e pouco ainda se pode dizer com toda certeza da miríade de interações entre microbioma e doenças como obesidade, depressão, quadros inflamatórios intestinais auto-imunes e tantas outras.

Segundo pesquisa publicada pelo periódico médico JAMA em 2013, os americanos consomem suplementos para melhorar (45%) ou manter (33%) a saúde. Apenas 23% dos produtos utilizados estavam baseados em recomendação do médico ou profissional de saúde. Adultos em uso de suplementos também eram os que reportaram estar com excelente saúde, ter seguro saúde privado, usar álcool de forma moderada, não fumar e exercitar-se com frequência. Portanto, justamente as pessoas que mais usavam suplementos eram as que de fato não necessitavam deles! E este fato pode trazer conclusões equivocadas em qualquer estudo de causa e efeito, muitas vezes algo explorado em promoções inidôneas na Internet ou por profissionais da saúde com interesses financeiros excusos. As pessoas da pesquisa certamente tinham melhor saúde porque toda a sua vida estava orientada para hábitos os mais saudáveis possíveis, e não porque tomavam vitaminas e suplementos.

De fato, existe uma percepção entre a população mais esclarecida que, ao tomar uma vitamina ou suplemento, está se cumprindo o objetivo de repor nutrientes essenciais e assim melhorar a saúde. Baseados em inúmeras pesquisas sérias, experts honestos na área da nutrição concordam que não há evidência alguma que isto seja verdadeiro. De acordo com a Academia Americana de Médicos de Família, há indicações muito limitadas para se repor vitaminas: vegetarianos ou veganos em falta de vitamina B12 (a carne vermelha é a única fonte consistente desta vitamina), gravidez e lactação, e alguma outras situações raras de doenças.

É inequívoco: uma dieta saudável é a melhor alternativa para se obter nutrientes, e não o uso de suplementos na forma de pílulas.

O abuso dos esteróides

Esteróides anabolizantes são variantes do hormônio masculino testosterona produzidos por síntese industrial. O Instituto Nacional de Abuso de Drogas nos EUA estima que mais de meio milhão de estudantes da 8ª à 10ª série de ensino estejam utilizando esteróides em academias. Pelo menos 10% de estudantes no segundo grau relatam uso ilegal de esteróides. Estas drogas estão no chamado Schedule III da lei de controle de Esteróides Anabolizantes desde 1990, aquelas que “têm potencial moderado a baixo de levar a uma dependência psicológica ou física”. Mesmo assim o pré-hormônio DHEA é considerado oficialmente como suplemento alimentar e vendido livremente nas gôndolas de super-mercados como pílula da juventude.

Efeitos colaterais do uso de esteróide são variados, como puberdade precoce, lesões no fígado, acne difusa, perda de cabelo, doença dos rins, infarto do coração, irritablidade, conduta agressiva ou depressão e rico de suicídio.

Controle de peso

A projeção é que 42% da população adulta americana será obesa ou extremamente obesa em 2030, gerando um aumento dos gastos com saúde da ordem de 150% por indivíduo afetado (fonte: J Health Economics 31:219, 2012). A indústria das dietas nos EUA é multibilionária, a maior parte do dinheiro sendo gasto com produtos ineficazes. E por que suplementos para obesidade podem ser vendidos livremente? Porque não há necessidade de um suplemento ou vitamina passar por pesquisas clínicas rigorosas nem publicações científicas de relevância. Ou seja, não há necessidade do famoso “FDA-aprovado” como selo de qualidade. E basta acrescentar a seguinte frase na etiqueta do frasco para que o produto chegue à farmácia sem receita ou ao super-mercado: “Este produto não foi avaliado pelo FDA e não tem intento de diagnosticar, tratar, curar ou prevenir qualquer doença”. Mas na frente o rótulo pode conter qualquer coisa tipo “Para a saúde da próstata” ou “Apoio à saúde do coração”.  E quem é responsável pela segurança do produto? Apenas o fabricante, não o governo ou seus órgãos de controle e fiscalização. É claro que a batalha ente grupos de consumidores organizados e as indústrias de suplementos foi ganha pelos últimos.

O resultado disto é que aos 20 anos de idade, 20% das meninas americanas terão usado pílulas para emagrecimento. Com consequências muitas vezes trágicas, como após a epidemia de uso dos famosos compostos fen-fen. Estes, de forma insuspeita, levaram a lesões nas válvulas cardíacas de meninas, com insuficiência e progressão para morte inexorável – um efeito colateral até então desconhecido daquela classe de fármacos.

Esta é a frase original em inglês que você vê por lei nos rótulos de vitaminas e suplementos alimentares americanos:

“This statement has not been evaluated by the Food and Drug Administration. This product is not intended to diagnose, treat, cure, or prevent any disease.”

Quer ler mais sobre pílulas e dietas? Veja em http://www.obesityaction.org/educational-resources/resource-articles-2/general-articles/magic-pills-the-marketing-of-dietary-supplements-for-weight-loss.

Mas o que fazer?

No caso de pessoas normais, sem doenças crônicas, recomendamos o uso de:

– probióticos como lactobacilos nas suas diversas formas (leites fermentados, kefir, yogurtes)

– vitamina D com moderação apenas para os que estão pouco ao ar livre, apresentam fotossensibilidade ou vivem em maiores latitudes com invernos prolongados. Na dúvida peça para seu clínico dosar o composto 25-OH-vitamina D3 no sangue

– o componente DHA dos compostos com ômega-3, ácido graxo essencial que tem se mostrado protetor do surgimento de células cancerígenas; boa indicação também na gravidez junto com o ácido fólico, ajuda no desenvolvimento normal do feto e evita parto prematuro; e há melhora modesta de sintomas como perda de memória

– dieta balanceada com pratos multicoloridos, atividades físicas continuadas e convívio social com muitas alegrias.

Estamos atentos para este ramo do conhecimento médico e estaremos postando novidades quando importantes. Votos de vida longa sem custos maiores para seu bolso e sem sobrecarregar sua urina com multicompostos químicos.

Seus rins agradecem!

Como otimizar sua imunidade em 4 etapas.

Melhorar a imunidade traz benefícios como excelente qualidade de vida, maior longevidade e até a possibilidade de adentrar a um programa de fitness sem infecções por estresse físico. Aprenda como atingir e manter seu sistema imune saudável.

Inflamação interna

Algum grau de inflamação interna é normal, parte de nossa resposta aos agentes agressores que enfrentamos diariamente no meio ambiente e também dentro do nosso corpo: virus, bactérias, agentes químicos, células em decomposição e tantos outros. Caso se consiga minimizar os processos inflamatórios, o corpo será capaz de trabalhar dentro de seu melhor para combater doenças cardiovasculares e também mirar com foco as células imunes protetoras que combatem doenças infecciosas e células cancerígenas em formação.

Pouco exercício físico – mesmo meras caminhadas, má nutrição e falta de boas horas de sono podem todos elevar o nível de inflamação interna, aumentando o risco de problemas de saúde. Pense em pneumonias, câncer e doenças do coração, para ficarmos nas doenças mais comuns do mundo ocidental. Também o estresse diário contribui para o problema, alterando o funcionamento normal do eixo que vai do cérebro até as glândulas que produzem hormônios, levando por tabela a disfunções do sistema imune de proteção.

Melhorando a imunidade

Há 4 maneiras principais de otimizar seu sistema imunológico.

  • 1. Nutrição. Coloque em seu prato alimentos que são combustível para um bom sistema imune, com cores variadas de vegetais, frutas, diferentes nozes e carnes. É vegetariano ou vegano? Não esqueça de suas doses de vitamina B12. Evite alimentos ricos em gorduras saturadas, trans ou açúcares, estes tendem a aumentar sua resposta inflamatória interna. Uma boa combinação: 50% de frutas e verduras, 25% de grãos e 25% de carnes magras e derivados do leite (aqui valem os probióticos do yogurte, kefir e similares). E sobre o álcool? Pois a maioria dos investigadores coloca o tradicional cálice de vinho como permitido e recomendável, sem exageros. Prefira os tintos com uvas Merlot, Pinot Noir, Carménère ou Cabernet Sauvignon, que mostram maiores concentrações de resveratrol, potente agente anti-oxidante. Outras qualidades do vinho tinto seriam seu efeito anti-envelhecimento, anti-câncer e anti-infeccioso.
  • 2. Redução do estresse. Aprenda a ter seus problemas e dificuldades em perspectiva, de maneira a reduzir o estresse emocional. Você não pode deixar se dominar por todas as situações. Está parado no trânsito? Ouça a boa música do rádio, coloque seu CD com ensino de língua estrangeira e aceite o fato que você nada pode fazer! Respirar devagar, ritmado e profundamente pode auxiliar a reduzir ansiedade e estresse: inspire pelo nariz contando até 4, segure um pouco, e expire pela boca contando até 6, repita por 3 vezes. Conseguiu evitar aquela velha briga com o cônjuge? Já valeu a pena a lição. Não é só isso, exercícios respiratórios provocam uma resposta fisiológica que força seu corpo a abrir vasos dilatando artérias (baixando assim a pressão arterial) e reduzindo a frequência do coração. Praticar yoga ou meditação tem o mesmo efeito, com outras vantagens. Use e não brigue com seu CPAP, aparelho para apnéia de sono – só o fato de oxigenar adequadamente seu cérebro durante a noite pode mudar sua vida, com menos estresse e melhor produtividade no trabalho. Por último e não menos importante: sorria e dê gargalhadas aos baldes! Tenha por hábito sair dos filmes “cabeça” e dê chance para comédias e séries engraçadas. Interaja com suas amizades , cante à vontade na rodinha de bar.
  • 3. Exercícios. Exercícios são mais potentes que qualquer medicação hoje no comércio, reduzindo inflamação e hormônios do estresse. Ache uma maneira de incluir exercícios em sua rotina, sem desculpas. Faça algo que você gosta e inclua uma mistura apetecível: caminhe com seu pet num dia, pedale a bicicleta no outro, ataque a academia em casa ou no ginásio no próximo. Ache um amigo ou amiga e torne esta decisão mais fácil. Talvez um esporte coletivo adequado a sua idade, no clube perto de casa? Que tal reiniciar um vôlei, pingue-pongue ou aquele basquete sem grandes pretensões competitivas? Vai um tai-chi com um bom professor, pelo menos? Em tempo – futebol pode ser complicado, gera muitas lesões, mesmo praticado em cancha de grama sintética e com seus melhores amigos. E não esqueça de consultar seu clínico antes de começar uma rotina de exercícios. O coração deve estar em forma mínima. Ir ao médico vale também para aqueles exagerados, com programa acima de seus limites, quando então o efeito será oposto ao desejado tanto no sistema imune quanto no hormonal. Nessas situações os glóbulos brancos de defesa baixam e hormônios de estresse passam a ter ascenção drástica, dentre outros efeitos deletérios. Por último, dançar é tudo de bom – coordenação motora, ritmo, atividade aeróbica, música para os sentidos e para a alma. Em boa companhia então, imbatível.
  • 4. Repouso. O mínimo aconselhável é entre 7 e 9 horas de sono. Com mais de 9 h ou menos de 6 h você aumenta a chance de ter doenças do coração e vasos. Leia acima sobre o uso do CPAP e de seus benefícios e não esqueça de evitar telas brilhantes antes de dormir: celulares, tabletes, computadores, etc. Alguns destes têm função do filtro azul, o que minimiza o problema, aprenda a usá-lo. E jamais TV no quarto de dormir! Sua melatonina, hormônio do sono e com alta atividade anti-câncer, agradece. A coluna cervical também!

Difícil ou impossível trocar de hábitos? O problema é só seu: ninguém pode tomar seu lugar nas etapas acima, nem mesmo pílulas mágicas de vitaminas e complementos. Que não têm comprovação científica, aliás, em sua grande maioria. E não espere o início de 2020 para tomar estas resoluções…

As 6 maneiras de bem envelhecer.

Várias publicações da Faculdade de Medicina de Harvard lidam com aconselhamento para obter-se qualidade de vida (www.health.harvard.edu). Inclusive na maturidade. Veja a seguir os 6 conselhos para você que está com mais de 65 anos de idade.

  1. Adapte sua moradia. Escadas, banheiros e cozinhas apresentam armadilhas constantes. Mesmo se não há necessidade de fazer mudanças já, revise anualmente ítens como piso escorregadio, tapetes soltos, pontos mal iluminados e falta de apoio em escadas. Você poderá estar preparado para despesas com reformas necessárias quando sentir necessidade.
  2. Previna quedas. Quedas são problema muito sério para pessoas de mais idade — elas muito frequentemente resultam em fraturas que podem levar a várias dificuldades físicas, a outros problemas de saúde, ou mesmo à morte. Medidas preventivas são importantes, bem como exercícios de balanço e força. Veja outras postagens sobre quedas neste blog pesquisando “quedas” no campo apropriado.
  3. Considere todas as possibilidades de moradia. Sua casa ou apartamento pode ser o ideal para a idade mais avançada, inclusive com a saudável convivência de familiares ou pela posição de cada móvel e objeto que facilitam sua orientação. Porém considere as possibilidade de lares para idosos, residenciais geriátricos e outras formas de moradia. Mesmo sem doenças mais importantes, principalmente quadros crônicos e demenciais, mais e mais estamos vendo projetos de moradia diferenciada aparecendo nas maiores cidades e suas áreas geográficas de influência.
  4. Conviva com seu grupo de amizades. Todas as pesquisas mais recentes associam longevidade com a convivência social da pessoa. Este é o fator isolado considerado como mais importante para se chegar a 100 anos de idade ou mais. Participe de grupos com iguais interesses: costuras, filantropia, cozinha, animais de estimação, centros de apoio espiritual, hobbies e tantos outros em sua comunidade.
  5. Pense à frente sobre como obter auxílio em caso de necessidade e urgência. Quem fará suas refeições, como ter meio de transporte à disposição, quem fará os reparos simples e complexos da casa, qual a melhor maneira de resolver a limpeza dos aposentos e como serão feitos os pagamentos das contas domésticas são perguntas rotineiras a serem respondidas. Mais provavelmente em conjunto com outros membros da família ou com alguma amizade mais próxima. Muito importante, planeje-se para emergências – quem chamar? qual pessoa visita sua casa regularmente? o que fazer caso sofrer uma queda e não puder se deslocar até o telefone? As dicas aqui são: mantenha números de telefone de emergência perto do telefone, ande sempre com seu telefone celular à mão e, se suas finanças permitirem, invista em um sistema de alarme personalizado (colar com botão de alarme/pânico ou com sistema que detecta quedas e disca números de emergência previamente estabelecidos).
  6. Escreva diretrizes sobre cuidados avançados. Sente-se e pense com cuidado sobre que tipo de cuidados médicos e de enfermagem avançados você gostaria de ter caso fique muito doente, confuso ou com alguma lesão que não permita expressar seus desejos. Escreva e assine, deixe o documento com adultos em quem você confia, quem sabe até mais de uma cópia. Escreva e registre seu testamento em cartório, pode ser seu último ato de bondade para com a família ou entes queridos.

Ir atrás dos recursos da chamada medicina alternativa é aconselhável para se evitar a morte por câncer?

Os dados são claros: usar métodos alternativos e evitar o tratamento convencional do câncer em estágio curável aumenta a mortalidade geral pela doença.

A questão.  Buscar soluções em todas as instâncias é a qualidade do ser humano que mais pode estar presente naqueles com diagnóstico de câncer. Mas quais são as características de pacientes que buscam medicina alternativa ou complementar, e qual a associação entre esta forma de medicina com aquela de adesão ao tratamento convencional e, principalmente, com a sobrevida?

Nos lembramos aqui da história de Steve Jobs, criador e idealizador dos produtos Apple. Seu feitio “natureba” fez com que não aceitasse tratamento cirúrgico convencional em uma fase em que seu câncear de pâncreas era perfeitamente curável. Preferiu se submeter a vários tratamentos alternativos, vindo a falecer precocemente com metástases generalizadas. Sua biografia é leitura recomendada neste particular (Steve Jobs. Walter Isaacson, Simon & Schuster, 2011).

Um grupo de pesquisadores de Yale nos Estados Unidos publicou em dezembro de 2018 os importantes resultados elucidando a questão do tratamento por medicina alternativa versus medicina tradicional no tratamento de câncer considerado em fase curável.

Os achados.  Exatos 1.901.815 pacientes foram estudados de forma retrospectiva. Os diagnósticos foram de câncer não metastático de mama, cólon e reto, próstata e pulmão. O uso de medicina alternativa ou complementar esteve associado à recusa de manter tratamento convencional, com duas vezes maior risco de morte quando este grupo foi comparado ao de pacientes que não usaram medicina alternativa ou complementar.

O significado.  Pacientes que receberam medicina alternativa ou complementar foram os que mais se recusaram a receber outras formas de tratamento convencional (hormonioterapia, quimioterapia, cirurgia ou radioterapia) e tiveram maior risco de morrer que aqueles que não utilizaram medicina alternativa. Assim, os autores não estão apontando para a medicina alternativa como causa da morte, mas sim que as pessoas que adotaram esta prática acabaram abandonando a medicina convencional, e este foi o fator que as levou à morte. Os achados são importantes porque os cerca de 2 milhões de indivíduos estudados tinham câncer em estágio curável.

Conclusões. Os autores concluem que os pacientes que se submeteram a tratamentos alternativos foram mais propensos a refutar tratamento por medicina tradicional, e tiveram maior risco de óbito. Os resultados sugerem que o risco de mortalidade associado a métodos alternativos de tratamento do câncer está mediado pela recusa de receber tratamentos convencionais como cirurgia ou quimioterapia. Assim, a mensagem é clara: entregue-se, se for sua convicção, a tratamentos alternativos que comprovadamente não lhe façam mal, mas não deixe de fazer o tratamento recomendado pelo médico oncologista.

Referência

Johnson SB, Park HS, Gross CP, Yu JB. Complementary Medicine, Refusal of Conventional Cancer Therapy, and Survival Among Patients With Curable Cancers. JAMA Oncol. 2018;4:1375.