Autor: Dr. von Mühlen

Médico Reumatologista e Patologista Clínico, especialista em clínica médica, reumatismos, doenças autoimunes e técnicas de diagnóstico laboratorial.

O conceito de envelhecimento ativo

Quem é idoso e como envelhecer em atividade?

Muito claro: a Organização das Nações Unidas estabeleceu a idade de 60 anos para definir quem é idoso. Esta também é a idade adotada no Estatuto do Idoso no Brasil (Lei número 10.741/2003).

Mas o que significa termos uma pirâmide etária invertida no Brasil dentro de poucas décadas, com maioria de população idosa? Devemos encarar as oportunidades que se descortinam, com mudanças sócio-econômicas fantásticas advindas da tecnologia e da compreensão do que serão os idosos ativos.

A Organização Mundial da Saúde explicita termos que cada vez mais terão significância constante, leia a seguir.

Autonomia

Habilidade de controlar, lidar e tomar decisões pessoais sobre como viver diariamente conforme suas próprias regras e preferências.

Independência

Capacidade de executar funções da vida diária dentro de sua comunidade sem nenhuma ou pouca ajuda.

Expectativa de vida saudável

Expressão sinônima de “expectativa de vida sem incapacidades físicas”.

Envelhecimento ativo

Processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, que visa melhorar a qualidade de vida à medida que a pessoa envelhece.

Em posts futuros trataremos da prática de envelhecer ativamente. Para os que já estão chegando no Alzheimer, a foto mostra Charles Chaplin à esquerda e Albert Einstein a seu lado.

(modificado de Jornal Medicina – CFM, junho/2016)

As melhores maneiras de proteger seu cérebro do envelhecimento

Como modificar seu estilo de vida e proteger preciosos neurônios

Viver em média até os 120 anos de idade é a meta para o final do milênio. Impossível? Recentemente descobriu-se uma espécie de tubarão das profundezas com mais de 300 anos de idade, se as medidas por carbono 14 estiverem corretas (feitas nos tecidos internos dos olhos do animal, porque tubarões não têm ossos). E, entre o final do século XIX para o final do século XX, passamos da idade média de vida de menos de 40 para quase 80 anos nos países ditos desenvolvidos.

Por ora vamos preservando nosso tecido cerebral da melhor maneira que sabemos. Eis as dicas:

  1. mantenha seu coração como seu melhor amigo: trate hipertensão, obesidade, colesterol e outros lipídios elevados, evite diabetes a todo custo
  2. enfatize exercícios – a atividade física reduz risco e severidade do declínio cognitivo. Em especial, atividade aeróbica pode aumentar o volume de certas áreas do cérebro que tendem a hipofuncionar na terceira idade, com melhora da memória e de sintomas que tendem à depressão
  3. aprenda novidades as mais variadas, expanda seus interesses, escreva cartas e outras missivas, leia muito – ler durante toda a vida foi associado a melhor função cognitiva em estudos com autópsias cerebrais
  4. socialize – quanto maior seu network de relacionamentos, menor seu declínio cognitivo; ao contrário, solidão está associada a um cérebro mais atrofiado
  5. trate sintomas depressivos – quando a depressão se manifesta na meia-idade o risco dobra de o cérebro ter perda cognitiva significativa (embora ainda não esteja bem comprovado se a relação é de causa ou efeito)
  6. evite alumínio nos utensílios da cozinha – este se deposita facilmente em placas cerebrais que predispõem a Alzheimer e outras doenças degenerativas; principalmente, livre-se das panelas de alumínio
  7. durma muito bem – alguns estudos encontraram relação entre dormir mal e declínio cognitivo ou surgimento de doença de Alzheimer; melhorar o sono, portanto, deve reduzir tais riscos.
(Baseado em matéria da revista TIME, 08/2016)

O retorno do leite integral

O leite de vaca integral tem seus defensores

Como o leite de vaca contém quantidade razoável de gorduras, médicos têm recomendado o uso de leite com 1%, 2%, ou mesmo sem gordura. Evidências recentes, no entanto, mostram benefícios do leite integral, yogurte e queijos. De fato, estes últimos podem ser mais benéficos para sua saúde.

Menor risco de diabetes

Novos estudos mostram redução do risco de diabetes mellitus em 46% com uso de leite integral, quando comparado com leite sem gordura, possivelmente porque leite integral, com mais calorias, pode auxiliar as pessoas a comer menos ou a melhorar o controle de seu açúcar no sangue.

Redução do peso corporal

Quando as pessoas favorecem o leite sem gordura para evitar calorias e gorduras, em verdade tendem a substituir essas calorias com carboidratos. Estes são armazenados como gordura e podem contribuir para rápido ganho de peso.

Menor risco cardiovascular

Alguns estudos científicos mostram que as pessoas que consumem leite ou outros laticínios pobres em gordura podem apresentar maior prevalência de doençass cardiovasculares que pessoas optantes por laticínios integrais, possivelmente porque ela estão consumindo mais carboidratos.

Evidências a favor do leite sem gorduras

A Medicina não é uma ciência exata, como todos sabem, e as verdades de hoje serão substituidas por novas verdades no futuro. Um grande grupo de cientistas ainda acredita que o melhor para sua saúde é consumir menos gorduras e carboidratos. Portanto, são a favor de laticínios sem gordura. Evidências são fáceis de se encontrar na Internet.

(modificado de TIME Magazine)

Placebo vs. Glucosamina e Condroitina para artrose de joelhos

A combinação glucosamina com condroitina mostra-se ineficaz em mais um estudo para artrose de joelhos.

Em mais um estudo randomizado duplo-cego a combinação GS/CH mostrou-se impotente para controlar sintomas e evolução da gonartrose. Esta já era nossa experiência clínica de muitos anos. O combo parece funcionar bem em artrose de mãos, pequenas articulações, não em grandes articulações. Abaixo o Abstract deste estudo feito na Espanha, em que ficou claramente demonstrada a superioridade do placebo.

ABSTRACT

Objective: To assess the efficacy and safety of chondroitin sulfate (CS) plus glucosamine sulfate (GS) compared to placebo in patients with symptomatic knee osteoarthritis (KOA).

Methods: A multicenter, randomized, double-blinded, placebo-controlled study was performed in 164 patients with Kellgren-Lawrence stages II-III KOA and moderate to severe pain (VAS: 62.1±11.3 mm). Patients were randomized to receive either CS (1200 mg) plus GS (1500 mg) or placebo in a single oral daily dose for 6 months. The mean change in VAS global pain was set as primary endpoint. Secondary outcomes included the mean change in the investigator global assessment, total WOMAC, pain and function subscales of WOMAC, OMERACT-OARSI 2004 responder rate, and rescue medication use. Adverse events were also recorded. A Data and Safety Monitoring Board was constituted to ensure patient safety and data accuracy.

Results: Intriguingly, CS+GS was inferior to placebo in reduction of joint pain for the modified intention-to-treat (mITT) population [11.8±2.4 mm (19%) vs 20.5±2.4 mm (33%); Δ= -8.7; -14.2%; p<0.03], but not for per-protocol completers. Placebo and CS+GS similarly improved total WOMAC, as well as pain and function WOMAC subscales in both mITT population and per-protocol completers. Neither the OMERACT-OARSI responder rate nor the use of rescue medication differed between both groups. Severe adverse events were uncommon and equally distributed.

Conclusion: CS+GS failed to demonstrate superiority over placebo in reducing pain and function impairment in patients with symptomatic KOA at 6 months. Further research may contribute to fully elucidate the suitability of CS+GS combination as therapy in OA. This article is protected by copyright. All rights reserved.

Roman-Blas, J. A., Castañeda, S., Sánchez-Pernaute, O., Largo, R., Herrero-Beaumont, G. and the CS/GS COMBINED THERAPY Study group (2016). Chondroitin sulfate plus glucosamine sulfate shows no superiority over placebo in a randomized, double-blind, placebo-controlled clinical trial in patients with knee osteoarthritis. Arthritis & Rheumatology. Accepted Author Manuscript. doi:10.1002/art.39819

Pílula do câncer reprovada outra vez

Público alvo: leigo.

Novos testes da fosfoetanolamina, a ‘pílula do câncer’, divulgados ontem no site do Ministério da Ciência & Tecnologia, apontam que a substância é ineficaz: não houve qualquer melhora em camundongos com câncer — os tumores continuaram a crescer. Em avaliações anteriores, divulgadas em março de 2016, especialistas apontaram que a pílula, desenvolvida e produzida na USP de São Carlos, teria baixo grau de pureza e não seria capaz de matar células tumorais em ensaios in vitro.

Em suma: não há qualquer evidência de utilidade da fosfoetanolamina em tubos de ensaio, em animais de experimentação ou em humanos, além do efeito placebo.

A tecnologia e os valores humanos da Medicina

Público alvo: técnico e leigo.

O grande problema da medicina clínica é a confiança que se necessita estabelecer na relação médico-paciente. Ou o médico é um ótimo ator e tem grande competência técnica, ou o encontro clínico não terá os resultados como se gostaria.
Entram em jogo aqui os efeitos placebo e nocebo. Uma pílula de medicamento não é uma pílula qualquer, igual a milhões de outras produzidas pelo laboratório. Uma pílula é sempre o medicamento mais a expectativa do paciente após o encontro médico. Em outras palavras, é a pílula farmacológica mais o médico que o paciente está engolindo naquele momento.
Vendo o paciente
De fato, médicos falam de “ver” pacientes, enxergar a profundidade de suas queixas, sua vida e sua alma. Recente editorial no Wall Street Journal chamou a atenção para o fato que o curso de Medicina nada mais é que uma série de lições visuais: desmembrar um cadáver e dissecá-lo até que se pareça com lâminas do Atlas de Anatomia, conferências sem fim em que órgãos humanos interconectados são mostrados como máquinas e esquemas.
E o problema se torna claro: o médico perde o foco, seu ato de ver se estreita no paroxismo, passa a ver o corpo como uma coleção de partes e perde a noção da pessoa à sua frente.
Parece ser um fato que médicos treinados em áreas humanísticas – e há vários médicos músicos, por exemplo – têm uma compreensão inata do paciente como um todo. Desde Hipócrates (400 AC) gerações de médicos foram ensinados a procurar compreender pacientes a partir das forças benéficas e deletérias em sua vida, seu contexto familiar e social, trazendo o balanço para o lado da saúde.
Pacientes se tornaram números
No entanto, por mais de 100 anos a tendência da Medicina vem sendo a de ter médicos cientistas, grandes utilizadores de avançadas tecnologias (modernos antibióticos, equipamentos de imagem sofisticados, procedimentos invasivos os mais variados, cirurgias robóticas). E os médicos responderam a este chamado como seria de se esperar em mentes despreparadas: afastaram-se do paciente, de sua compreensão como ser humano.
Os pacientes viraram um relato de caso, números, estatísticas, rotulados por códigos métricos e índices os mais variados.
Como aceitar uma consulta de poucos minutos em que o médico olha apenas para a tela de seu computador, como me relatou uma cliente? E não apenas o paciente sai frustrado, as consequências vêm para o lado do profissional também, com vários médicos abandonando a medicina clínica, fazendo concursos, trocando de profissão, partindo para cargos administrativos e outros afazeres.
Pergunte a um médico se ele aconselharia seu filho a fazer Medicina nos dias de hoje.
O futuro no passado
A comunicação entre médico e paciente deve voltar a ser humanizada e madura, com a compreensão aprofundada de cada pessoa que se apresenta com seu sofrimento. A tradição médica é a do profissional que olha seus pacientes nos olhos e chega à profunda compreensão de sua dor e sofrimento. Conforme Hipócrates:

“Curar algumas vezes, aliviar outras, consolar sempre”.

Perseguir situações como as da frase acima são dever do MÉDICO, em maiúsculas.

Como regenerar cartilagens na artrose (osteoartrose, osteoartrite)

Público alvo: técnico.

A terapêutica da artrose se volta cada vez mais às células tronco e às diversas maneiras de estimular condrócitos a regenerar e refazer lesões da cartilagem articular.

Uma forma “caseira” de estímulo à formação de neocartilagem na artrose é representado pelos preparados chamados PRP (Plasma Rico em Plaquetas), com resultados variáveis. Aplicação em períodos mais precoces das lesões e em pessoas mais jovens oferecem os melhores resultados, mas muitos pacientes idosos se beneficiam.

Várias empresas comerciais se lançam no momento à terapêutica celular da artrose. Abaixo material informativo de uma delas, Tissue Gene Inc, com estudo em fase II de TGF-Beta 1 como estimulante em condrócitos modificados.

Infelizmente ainda temos alguns anos de espera até podermos aplicar estas novas tecnologias em nossos pacientes.

TG-C (CARTILAGE)

TG-C is an allogeneic (donor) cell therapy involving human chondrocytes (cartilage cells) that have been genetically modified to produce the therapeutic growth factor TGF-ß1 and has been developed to induce cartilage regeneration in patients with osteoarthritis. Chondrocytes, when stimulated by the transforming growth factor beta 1 (TGF-ß1), have been shown to play a critical role in both the formation and maintenance of articular cartilage by regulating the homeostasis of the hyaline cartilage matrix. Due to lack of blood supply to the joints, articular cartilage is limited in its ability to repair itself, often leading to the joint degeneration observed in osteoarthritis. The knee joint typically endures the most extensive cartilage damage from constant weight bearing activities and therefore has been the company’s primary focus. Currently, a Phase II study in the US and a Phase IIb study in Korea are being conducted to evaluate the safety and efficacy of TG-C in patients with severe osteoarthritis of the knee.

Delivered through a local injection, TG-C offers a non-invasive therapy that treats not only the symptoms but also the causes of osteoarthritis through the regeneration of cartilage. TG-C involves a mixture of unmodified and modified human chondrocytes engineered to express the growth factor TGF-ß1. Cartilage regeneration by the modified chondrocytes has been shown to be significantly enhanced by the co-injection of unmodified chondrocytes at the site of degeneration. These results suggest that production of TGF-ß1 by the modified chondrocytes serve to stimulate both the unmodified chondrocytes of TG-C and the patient’s own chondrocytes to produce the components necessary for hyaline cartilage matrix formation. By providing a mixture of modified and unmodified chondrocytes, TG-C has been specifically developed to provide the key elements – cartilage cells, TGF-ß1 protein, type II collagen and glucoseaminoglycans (GAGs) – critical to regenerate the hyaline cartilage matrix and optimize articular cartilage repair.

Technology Platform: Cell therapy
Therapeutic Protein: TGF-ß1
Function: Cartilage regeneration
Indication: Knee osteoarthritis
Delivery Method: Intra-articular injection
Development Stage: Phase II

 

Como dormir melhor num vôo de larga distância.

Público alvo: leigo.

A curiosidade é grande por parte de vários conhecidos: como viajo tão frequentemente ao exterior e chego inteiro ao destino?

O segredo é uma boa noite de sono, se é que isto é algo possível e realizável nos assentos dos jatos que cruzam os oceanos.

Como replicar o sono reparador de nossa cama em casa? Aqui minhas dicas, aprendidas a duras penas nos últimos 20 anos e com 1,5 milhão de milhas voadas:

  1. Barulho. Vento e ruido dos motores criam o oposto das melhores condições para dormir. A solução barata: plugs de ouvido, encontráveis em qualquer loja de utensílios nos aeroportos internacionais.A solução melhor: fones de ouvido com tecnologia de eliminação de ruidos. Há várias marcas no mercado, as melhores a partir de US 300,00. Uso um modelo BOSE há anos, basta trocar a pilha.
  2. Luz. Mesmo com as janelas fechadas, há sempre alguém com luzes ligadas ao lado, ou as telas no assento da frente jorrando luz toda a noite. A solução é uma só: tapa-olhos, tipo máscara do Zorro. A diferença é flagrante, mas mesmo assim por algum motivo vejo poucos passageiros utilizando.
  3. Turbulência. Esta não há como evitar, pois tudo depende do piloto e de São Pedro. A sugestão é pegar um assento sobre as asas, onde o balanço é bem menor que perto do bico ou da cauda do avião. Sente em uma gangorra e você entenderá rapidamente os motivos. Também você pode escolher aviões maiores, que jogam bem menos. E, é claro, sempre estar com o cinto de segurança afivelado.
  4. Ar seco. A sensação é conhecida, você acorda no meio da noite com a boca seca, sonhando que está comendo aveia liofilizada. E o nariz com muita coisa querendo sair. O motivo é a umidade relativa do ar de deserto nos vôos em grande altitude. Por que? Para a estrutura do avião sofrer menos, pense na oxidação de partes metálicas bem maior nos climas mais úmidos, por exemplo. Novos aviões como o Boeing Dreamliner 787 são feitos de materiais compostos, e voam com umidade do ar de 10 a 15%, muito melhor que os 7% das aeronaves tradicionais. Possíveis soluções: além de se manter bem hidratado, com uma garrafinha de água ao alcance da mão, use batom protetor de lábios.
  5. Álcool. Você fica um pouco anestesiado e parece que o sono vem mais fácil após um aperitivo, um Prosecco ou um bom vinho. Mas o rebote é certo no meio da noite, porque o álcool tende a desidratá-lo. Estudo recente da Universidade de Londres mostra que a primeira fase do sono é de mais qualidade com o uso de álcool, porém a segunda metade é disruptiva. Dica: sustente-se no primeiro copo, se isto é indispensável, ou não beba álcool. De novo, uma garrafa de água mineral à sua frente é garantia de matar a sede quando ela certamente vier.
  6. Roupa. O que você veste para dormir em casa? Roupas abotoadas, com zíper, na moda? Um pijama folgado, pelado? Pois no avião prefira roupas folgadas e em camadas, de fibras naturais. E sem esquecer algo para aquecer os pés, se viajar com sandálias ou calçado aberto.
  7. Estímulos. Um filme ou série de TV na tela à sua frente, com altas emoções e muita violência, é convite certo para atrasar seu sono. Prefira uma película água com açúcar, talvez você já durma em meio à mesmice do enredo. Ou então abra um bom livro ou revista.
  8. Assento. Há quem prefira o corredor para melhor acesso a curtas caminhadas e ao banheiro. Eu prefiro sempre uma janela para poder encostar a cabeça, faz toda a diferença. Até porque o sujeito ao lado não me pede licença para levantar.
  9. Remédios. Há quem dependa sempre de uma boleta medicamentosa para dormir. Como não uso, não tenho comentários próprios a fazer aqui. Como médico, não vejo problema em tomar um sedativo de curta ação, principalmente se você é o protótipo do passageiro medroso ou apavorado de estar dentro de uma lata de alumínio que voa.
  10. Circulação. Prevenir tromboses venosas é fundamental, dado o risco de embolia pulmonar no destino. Uma doença grave e que pode ser letal. A chance de uma flebite ocorrer em vôos de larga distância não é desprezível, amplificada pela desidratação comentada acima. As soluções: ingerir uma aspirina de baixa dosagem antes de entrar no avião, ou um clopidogrel (Plavix, etc). Usar meias elásticas. Fazer caminhadas curtas nos corredores da aeronave também é muito bom. Exercícios na poltrona para os mais obsessivos (várias revistas de bordo têm sugestões de contorcionismos enquanto sentado). Algumas pessoas com tromboses venosas prévias devem conversar com seu médico para fazer injeções de heparina de baixo peso molecular antes de cada vôo. Vale sua vida!
  11. Oxigênio. Após 6h de vôo a taxa de saturação de oxigênio no ar interno cai consideravelmente. Este é um dos grandes motivos para ocorrência de jet lag na chegada, com dores de cabeça, sensação de cansaço intenso e dores no corpo. Algumas empresas tentaram vender oxigênio enlatado sob pressão, para inalação com máscara durante o vôo. Não vejo paassageiros com a engenhoca. Vamos ter que esperar melhores soluções para este problema.
  12. Horário. Esta aprendi com um piloto de fórmula 1 que vive nos vôos intercontinentais: assim que sentar no avião, afivele o cinto e mude o horário de seu relógio para o fuso horário da chegada. Psicologicamente chega-se ao destino já no horário local. Parece simples demais, e assim o é. E muito efetivo, experimente.
  13. Outras possibilidades. Fragrâncias de lavanda no avião poderão fazê-lo dormir melhor. Dioscorides na Grécia antiga já usava lavanda por seus benefícios medicinais. Na Tailândia se demonstrou que o ritmo cardíaco diminuiu, também a pressão arterial, com a fragrância. Na Alemanha, chá de lavanda foi aprovado como tratamento de insônia.

E, em último caso, não durma! Coloque seu trabalho ou suas leituras em dia. Boa viagem!

O teste da goma de mascar na arterite temporal.

Público alvo: técnico.

Menos de 50% dos pacientes com arterite temporal apresentam claudicação da mandíbula ao mastigar. Este número pode estar sub-representado, como mostra Carta ao Leitor no NEJM desta semana. Os autores mostram 2 casos que justificam a aplicação do teste da goma de mascar na suspeita de pacientes com a doença. Após 2 a 3 min de mascar um chiclete surge forte dor na área temporal afetada.

Além de estetoscópio, aparelho de pressão, oftalmoscópio, diapasão, martelo de reflexos e um grande discernimento, o reumatologista praticante necessitará ter estoque de gomas de mascar no consultório.

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Depressão e ansiedade são sintomas que pioram a artrite reumatóide?

Público alvo: técnico e leigo.

Depressão e ansiedade são sintomas altamente prevalentes em artrite reumatóide. Trabalhos científicos sérios dão conta que 15% dos pacientes artríticos apresentam depressão. Um número muito maior que os 5% da população em geral.

Sintomas de ansiedade são também frequentes na artrite reumatóide, um estudo mostrando prevalência de 25% após aplicação do GAD-7, questionário validado para o sintoma (“Generalised Anxiety Disorder – 7”).

As implicações da artrite reumatóide para a qualidade de vida são imensas. Sintomas psicológicos mais intensos estão associados a maior dor, piora de fadiga, uso de serviços médicos e maior risco de mortalidade prematura.

As relações entre saúde física e mental são bidirecionais. Maior estresse psicológico infla os relatos subjetivos de dor e impacta comportamentos de saúde, como má adesão aos medicamentos e volta ao hábito do fumo. Afora isto, desordens mentais comuns estão associadas à desregulação imune.

Estudos recentes mostram relação longitudinal, prospectiva, entre depressão e sintomas da artrite reumatóide: estados de depressão pioram a dor e a atividade da doença, reduzindo então a eficácia dos tratamentos. Estresse psicológico prediz maior atividade da doença por instrumentos de uso comum como o DAS28, também reduzindo a chance de atingir remissão clínica – pelo menos após 2 anos de follow-up. Mas os estudos são esparsos e nem sempre da melhor qualidade técnica.

Pesquisa publicada há poucos dias tenta jogar maior clareza nas equações descritas. A contribuição dos autores está na conclusão: índice DAS28 inflado, na presença de marcadores laboratoriais normais, pode estar refletindo problema psicológico subjacente, com aumento de dor articular não-inflamatória, não refletindo assim atividade real da artrite. As implicações para a correta conduta médica nestas situações são claras.

Abaixo o resumo do artigo.

Are depression and anxiety associated with disease activity in rheumatoid arthritis? A prospective study.

Matcham F, Ali S, Irving K et al. BMC Musculoskeletal Disorders BMC series – open, inclusive and trusted 201617:155 DOI: 10.1186/s12891-016-1011-1

Background

This study aimed to investigate the impact of depression and anxiety scores on disease activity at 1-year follow-up in people with Rheumatoid Arthritis (RA).

Methods

The Hospital Anxiety Depression Scale (HADS) was used to measure depression and anxiety in a cross-section of RA patients. The primary outcome of interest was disease activity (DAS28), measured one-year after baseline assessment. Secondary outcomes were: tender joint count, swollen joint count, erythrocyte sedimentation rate and patient global assessment, also measured one-year after baseline assessment. We also examined the impact of baseline depression and anxiety on odds of reaching clinical remission at 1-year follow-up.

Results

In total, 56 RA patients were eligible for inclusion in this analysis. Before adjusting for key demographic and disease variables, increased baseline depression and anxiety were associated with increased disease activity at one-year follow-up, although this was not sustained after adjusting for baseline disease activity. There was a strong association between depression and anxiety and the subjective components of the DAS28 at 12-month follow-up: tender joint count and patient global assessment. After adjusting for age, gender, disease duration and baseline tender joint count and patient global assessment respectively, higher levels of depression and anxiety at baseline were associated with increased tender joint count and patient global assessment scores at 1-year follow-up.

Conclusions

Symptoms of depression and anxiety have implications for disease activity, as measured via the DAS28, primarily due to their influence on tender joints and patient global assessment. These findings have implications for treatment decision-making as inflated DAS28 despite well controlled inflammatory disease markers may indicate significant psychological morbidity and related non-inflammatory pain, rather than true disease activity.