Categoria: REUMATISMOS EM GERAL

MAIS DE 50.000 MORTOS POR REMÉDIOS PARA A DOR. COMO NÃO SER MAIS UM NÚMERO NA EPIDEMIA DOS OPIÁCEOS? (esta postagem é para você, no desespero da dor)

Há poucos dias recebi o impressionante relato de uma querida paciente, preocupada com o número crescente de pessoas, inclusive jovens, padecendo de reumatismos crônicos e vindo a falecer por complicações de uso de opiáceos (oxicodona, hidrocodona, morfina ou fentanil e derivados) muitas vezes combinados a outras drogas de modulação da dor como anti-depressivos. De fato, apenas nos EUA foram quase 50.000 pessoas falecidas por overdose de opiáceos em 2017.

Minhas reflexões e sugestões para os que estão em situação similar de dor vão adiante, nesta e em postagens seguintes, não deixe de ler e salve vidas. Vamos auxiliar estas pessoas desesperadas que se atiram em clínicas da dor, recebem associações de remédios perigosos e tratamentos alternativos sem chegar ao cerne da questão – tratar corretamente a dor, os reumatismos inflamatórios sistêmicos e as doenças autoimunes com base nos conhecimentos científicos sérios.

Ao relato:

“As redes sociais tornaram a informação mais acessível aos pacientes portadores de reumatismos e doenças da autoimunidade, aproximando pessoas para troca de informações. Estas também trazem más notícias, como quando perdemos amigos de luta contra a mesma doença que temos, no meu caso a Espondilite Anquilosante.

“Entre o final de 2017 e início de 2019 somaram-se os casos em que pacientes em tratamento para a minha doença foram a óbito por motivos medicamentosos.  Ou seja, complicações advindas do uso, prescrito ou não, de medicamentos sobrepostos, ou em quantidades maiores do que as recomendadas. Tudo motivado em primeira análise por desespero ou pânico frente às crises de dor que não cedem. A Carmen foi uma que perdemos para as complicações da espondilite e foi uma morte muito rápida. Ela tinha 27 anos,  era estudante de Biomedicina, diagnosticada com espondilite em 2017,  mas sofria de dores sem diagnóstico desde 2013. Estava em tratamento com infliximabe, metotrexate, morfina endovenosa e antidepressivos, pois as dores eram muito severas, insuportáveis. Ia todos os dias na emergência do hospital tentar alívio com analgesia, o pé entortava, ela não conseguia caminhar. A mãe era enfermeira no hospital, então tinha facilidade no atendimento. Com um ano de uso deste coquetel de remédios sentiu sintomas de gripe e dor na garganta, piorou, foi para o hospital, baixou em UTI, fez SARA (nota minha – SARA se refere a uma síndrome de insuficiência respiratória aguda)  por conta de uma hepatite medicamentosa e em 15 dias de hospital saiu sem vida em novembro de 2017. Claro que o metotrexate e o infliximabe podem ter contribuido para a hepatite, mas até onde o excesso de opióides também ajudou?

“Outro caso foi da minha amiga Geovana, empresária de 44 anos, casada e com um filho de 15 anos. Teve hipotermia severa, levada ao hospital dia 6 de janeiro de 2019 às pressas, com lábios e extremidades roxas. Fez parada cardiorespiratória na mesma madrugada e veio a falecer em 24 horas no hospital. Como era minha amiga e conversávamos muito sobre tratamentos e médicos e medos e remédios, eu sabia que ela fazia uso do imunobiológico Cosentyx para a Espondilite, que não a ajudava muito, pois tinha crises e era muito frágil para dor, entrava em pânico nas crises. Contou no grupo da Internet que queria comprar CDB (tintura de canabidiol) para ajudar na dor, mas usava Tylex, Tramal, fitoterápicos tidos como anti-inflamatórios – cloreto de magnésio e sucupira em cápsulas – e antidepressivos, não sabemos o que mais poderá ter usado junto… tentamos dissuadi-la de adquirir o CDB por conta própria alegando que era produto ilegal, acreditamos que ela nunca chegou a receber, se comprou… enfim, acreditamos que ela superdosou os opióides naqueles dias, pois estava com dores insuportáveis e ia na emergência aplicar morfina na veia.

“Em 1 ano foram quatro os casos de uso de opiáceos e morte só do meu conhecimento, nos grupos de midia que participo. Eu passo mal com os opiáceos, não me vai bem nunca. Prefiro ficar longe. Aliás, analgesia para mim era sempre deprimente, porque meu cérebro entendia que eu estava me enganando… a dor ia voltar, então eu precisava fazê-la não voltar e o caminho não era só atacando a dor…

Porto Alegre, verão de 2019″.

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Em um país com mais de 300 milhões de habitantes como os Estados Unidos chegou-se a perto de 60.000 mortes por overdose de opiáceos em 2018. O Brasil com mais de 200 milhões de habitantes pode estar com números também elevados, mas que não aparecem claramente nos atestados de óbito. Nosso país, é sabido, tem falhas gritantes na parte estatística, ainda mais nas questões de saúde.

O número de mortes por overdose em mulheres entre os 30 e 64 anos de idade cresceu de forma dramática entre 1999 e 2017 nos EUA:

– opióides sintéticos, aumento de 1.643%

– heroína 915%

– benzodiazepínicos 830%

– opióides com prescrição médica 485%

– cocaína 280%

– anti-depressivos 176%.

E por que é tão fácil chegar-se a uma overdose de opiáceos? Pelo fenômeno dito “taquifilaxia”, ou seja, o termo significa que para um mesmo efeito analgésico as doses devem ser cada vez maiores da droga. Em linguajar leigo, o corpo “vai se acostumando” a cada novo patamar de dose, e mais remédio é necessário, em menores intervalos de tempo, para obter-se o efeito inicial em doses pequenas. E então vem o para-efeito letal, a pessoa simplesmente pára de respirar.

De fato, a morte por overdose de opiáceos ocorre por inibição das funções que comandam o ato de respirar no cérebro. A pessoa simplesmente pára de respirar e não sente. O gás carbônico se acumula, o oxigênio se reduz no cérebro e a pessoa “apaga”. Até o coração cessar de bater é questão de minutos.

Conclusões

  1. A epidemia de overdose e mortes por opiáceos é real, você poderá ser a próxima vítima
  2. Converse com seu médico sobre alternativas aos opiáceos, encontre um médico em quem confiar
  3. Verifique se você está sendo tratado pelo especialista médico em sua doença, e não apenas por clínicos da dor ou charlatões prometendo tratamentos alternativos; no caso de doenças reumáticas e autoimunes seu especialista deve ser o reumatologista; troque de médicos se necessário
  4. Não entre em pânico com a dor, evite a automedicação e procure auxílio imediato; aumentar a dose de seus opiáceos por conta própria é um convite ao suicídio indesejado

Veja nas postagens seguintes quais os fatores de risco, como reconhecer e como tratar a crise aguda de overdose por opiáceos.

Referências

https://www.jwatch.org/fw114959/2019/01/11/drug-overdose-deaths-nearly-quadruple-among-women

https://www.jwatch.org/fw114907/2018/12/20/hhs-recommends-coprescribing-naloxone-with-opioids-high

https://www.reuters.com/article/us-usa-opioids-naloxone/fda-panel-votes-for-prescribing-naloxone-with-opioids-idUSKBN1OH2CA

https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/68/wr/mm6801a1.htm?s_cid=mm6801a1_w

Initiating Opioid Agonist Treatment for Opioid Use Disorder in the Inpatient Setting. A. Raheemullah, A. Lembke. JAMA Intern Med, 2019. doi:10.1001/jamainternmed.2018.6749

https://www.drugabuse.gov/related-topics/trends-statistics/overdose-death-rates

Nova combinação de tratamentos no lúpus pode salvar vidas.

COMBINANDO MEDICAMENTOS BIOLÓGICOS NO LÚPUS

Publicação de 07 de abril de 2018 a partir de um grupo de reumatologistas de Leiden, na Holanda, confirma muito bons resultados em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico grave. O feito foi alcançado através da combinação de dois agentes biológicos.
De fato, combinando rituximabe (alvo são os línfócitos B) e belimumabe (alvo é molécula de comunicação e ativação de glóbulos brancos) de forma sequencial trouxe benefícios a pacientes com falha de vários outros tratamentos e acometimento grave de rins, pulmões e outros órgãos internos.
COMO FUNCIONA?
O mecanismo imunológico que traz racional para a combinação ficou comprovado ao se demonstrar diminuição da quantidade de anticorpos ligados ao lúpus (demonstrável pelo exame chamado FAN, Fator Anti-Nuclear, e também pela concentração de autoanticorpos do lúpus como anti-Sm, anti-SSA, e outros) e redução do nível de complexos imunes circulantes (conjuntos protéicos no sangue contendo antígenos, proteinas-alvo dos autoanticorpos, e anticorpos como anti-DNA; estes complexos podem se depositar em órgãos como os rins e causar perda de proteinas com insuficiência renal).
RESULTADOS
Este estudo foi desenhado para servir de conceito para estudos mais amplos, com maior número de pacientes. A combinação de rituximabe com belimumabe não trouxe efeitos colaterais mais sérios e houve respostas muito significativas: 10 dos 16 pacientes com lúpus grave tiveram melhora clínica, cicatrização progressiva de lesões renais em 11 casos e diminuição do uso de outros remédios imunossupressores em 14 pacientes.
Assim, os autores concluem que seu estudo provê nova maneira efetiva de tratamento de pacientes com lúpus grave, a partir da compreensão dos mecanismos básicos da doença e seu ataque através de remédios biológicos com alvos específicos.
COMENTÁRIOS
Para plena comprovação há, é claro, necessidade de expansão deste estudo para um maior número de casos, com desenho randomizado (sorteio aleatório dos casos para cada braço de tratamento) e duplo-cego (nem o médico nem o paciente sabem em qual braço do estudo o paciente foi alocado pelo sorteio).
Porém, como são remédios existentes no mercado brasileiro, com certeza alguns clínicos e reumatologistas já estão aptos a assumir a responsabilidade e prescrever esta combinação para seus pacientes, quando indicado.
Fonte: Kraaij T et al.  The NET-effect of combining rituximab with belimumab in severe systemic lupus erythematosus. J Autoimmun. 2018 Apr 7. pii: S0896-8411(18)30083-0. doi: 10.1016/j.jaut.2018.03.003. ClinicalTrials.gov NCT02284984.

 

Como editar células tronco para o combate da artrite

Modernas técnicas de biologia molecular permitem adicionar gens de agentes biológicos às células tronco para cessar a inflamação nas articulações afetadas por artrite.

Usando novas técnicas de edição de gens, pesquisadores americanos conseguiram modificar células tronco de camundongos para que passassem a combater inflamação causada por artrite e outras condições crônicas. Tais células, denominadas SMART (Stem Cells Modified for Autonomous Regenerative Therapy), sofreram transformação em cartilagem, permitindo que substituam cartilagem lesada e simultaneamente combatam o processo inflamatório articular pela produção de agentes biológicos anti-TNF.

Vários medicamentos anti-TNF existem comercialmente, porém prescritos através de injeções endovenosas ou subcutâneas. Sua ação é geral no corpo, sistêmica, podendo trazer diminuição das funções imunológicas de proteção.

Caso os resultados da pesquisa possam ser duplicados em outros animais de experimentação e, depois, em seres humanos, teremos armas de grande poder para o tratamento das artrites diretamente onde mais incomodam: dentro das juntas.

O artigo original da Doximity.com você pode ler abaixo.

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“Using new gene-editing technology, researchers have rewired mouse stem cells to fight inflammation caused by arthritis and other chronic conditions. Such stem cells, known as SMART cells (Stem cells Modified for Autonomous Regenerative Therapy), develop into cartilage cells that produce a biologic anti-inflammatory drug that, ideally, will replace arthritic cartilage and simultaneously protect joints and other tissues from damage that occurs with chronic inflammation.

The cells were developed at Washington University School of Medicine in St. Louis and Shriners Hospitals for Children-St. Louis, in collaboration with investigators at Duke University and Cytex Therapeutics Inc., both in Durham, N.C. The researchers initially worked with skin cells taken from the tails of mice and converted those cells into stem cells. Then, using the gene-editing tool CRISPR in cells grown in culture, they removed a key gene in the inflammatory process and replaced it with a gene that releases a biologic drug that combats inflammation.

The research is available online April 27 in the journal Stem Cell Reports.

“Our goal is to package the rewired stem cells as a vaccine for arthritis, which would deliver an anti-inflammatory drug to an arthritic joint but only when it is needed,” said Farshid Guilak, PhD, the paper’s senior author and a professor of orthopedic surgery at Washington University School of Medicine. “To do this, we needed to create a ‘smart’ cell.”

Many current drugs used to treat arthritis — including Enbrel, Humira and Remicade — attack an inflammation-promoting molecule called tumor necrosis factor-alpha (TNF-alpha). But the problem with these drugs is that they are given systemically rather than targeted to joints. As a result, they interfere with the immune system throughout the body and can make patients susceptible to side effects such as infections.

“We want to use our gene-editing technology as a way to deliver targeted therapy in response to localized inflammation in a joint, as opposed to current drug therapies that can interfere with the inflammatory response through the entire body,” said Guilak, also a professor of developmental biology and of biomedical engineering and co-director of Washington University’s Center of Regenerative Medicine. “If this strategy proves to be successful, the engineered cells only would block inflammation when inflammatory signals are released, such as during an arthritic flare in that joint.”

As part of the study, Guilak and his colleagues grew mouse stem cells in a test tube and then used CRISPR technology to replace a critical mediator of inflammation with a TNF-alpha inhibitor.

“Exploiting tools from synthetic biology, we found we could re-code the program that stem cells use to orchestrate their response to inflammation,” said Jonathan Brunger, PhD, the paper’s first author and a postdoctoral fellow in cellular and molecular pharmacology at the University of California, San Francisco.

Over the course of a few days, the team directed the modified stem cells to grow into cartilage cells and produce cartilage tissue. Further experiments by the team showed that the engineered cartilage was protected from inflammation.

“We hijacked an inflammatory pathway to create cells that produced a protective drug,” Brunger said.

The researchers also encoded the stem/cartilage cells with genes that made the cells light up when responding to inflammation, so the scientists easily could determine when the cells were responding. Recently, Guilak’s team has begun testing the engineered stem cells in mouse models of rheumatoid arthritis and other inflammatory diseases.

If the work can be replicated in animals and then developed into a clinical therapy, the engineered cells or cartilage grown from stem cells would respond to inflammation by releasing a biologic drug — the TNF-alpha inhibitor — that would protect the synthetic cartilage cells that Guilak’s team created and the natural cartilage cells in specific joints.

“When these cells see TNF-alpha, they rapidly activate a therapy that reduces inflammation,” Guilak explained. “We believe this strategy also may work for other systems that depend on a feedback loop. In diabetes, for example, it’s possible we could make stem cells that would sense glucose and turn on insulin in response. We are using pluripotent stem cells, so we can make them into any cell type, and with CRISPR, we can remove or insert genes that have the potential to treat many types of disorders.”

With an eye toward further applications of this approach, Brunger added, “The ability to build living tissues from ‘smart’ stem cells that precisely respond to their environment opens up exciting possibilities for investigation in regenerative medicine.”

Atualização sobre vacinas para pacientes imunossuprimidos

Quem são pacientes imunossuprimidos?

Pacientes imunossuprimidos são aqueles com as seguintes condições principais:

– doenças autoimunes {lupus, artrite reumatoide, artrite psoriásica, espondilite anquilosante, síndrome de Sjögren, polimiosites, esclerodermia, vasculites}

– em uso de terapia imunossupressora {no caso de pacientes reumáticos seriam medicamentos como metotrexate, hidroxicloroquina, leflunomida, azatioprina, ciclofosfamida, ou agentes biológicos modernos, como adalimumabe, etanercepte, rituximabe, abatacepte, etc}

– HIV

– transplantados

– neoplasias malignas

– imunodeficiências.

Se você se enquadra em alguma das situações acima esta postagem é para você, que poderá se proteger de várias doenças infecciosas sem problemas maiores. Veja os quadros abaixo, discuta com seu médico e não deixe de efetuar as vacinas recomendadas para crianças ou adultos. Vacinas salvam vidas sem dúvida, são um dos grandes avanços da Medicina no século XX.

Uma palavra importante: não dê ouvidos para as histórias que circulam na Internet ou via comadres novidadeiras sobre autismo em crianças vacinadas. O pediatra que disseminou estas falsas informações foi condenado nos Estados Unidos por falsificar dados científicos.

  • Vacinas que você NÃO DEVE APLICAR
Sarampo Caxumba Rubéola
Herpes zoster Febre amarela Polimiolite oral
Rotavirus Tuberculose Febre tifoide oral

Estas vacinas acima possuem vírus ou bactérias vivas ou atenuadas. Elas podem gerar infecções graves na pessoa a quem deveriam gerar proteção, e/ou a pessoa não forma os anticorpos protetores.

 

  • Vacinas que você PODE APLICAR
Febre tifóide injetável Cólera oral Hepatites A e B Difteria
Raiva Tétano Pneumococo* Meningite
Haemophilus Poliomielite injetável Gripe (influenza)** HPV***

Estas vacinas acima possuem vírus ou bactérias inativadas, e são portanto em geral seguras, não causam infecção mesmo em pessoas com o sistema imunológico comprometido.

* Realizar a vacina contra penumonia por Pneumococo 13 no primeiro ano, com reforço para Pneumococo 23 no segundo ano

** Vários imunologistas recomendam dose extra da vacina contra gripe após 30 dias, para garantir boa formação de anticorpos protetores em pessoas imunossuprimidas por doença autoimune ou por seu tratamento. Recomendo a vacinação anual para gripe devido à mutação intensa destes vírus em particular e, principalmente, para casos que podem ser letais, como de gripe A.

*** Uma palavra sobre a vacina contra HPV: neste caso tem-se recomendado a vacinação com 3 doses sequenciais aos tempos 0, 1 a 2, e 6 meses para pessoas até os 26 anos de idade e que apresentem doenças autoimunes ou façam uso de terapia imunossupressora

ATENÇÃO

Antes de efetuar qualquer vacina discuta com seu médico, principalmente se tiver alergia prévia a alguma das vacinas apontadas ou à clara de ôvo (várias vacinas são geradas em culturas que utilizam este meio).

O conceito de envelhecimento ativo

Quem é idoso e como envelhecer em atividade?

Muito claro: a Organização das Nações Unidas estabeleceu a idade de 60 anos para definir quem é idoso. Esta também é a idade adotada no Estatuto do Idoso no Brasil (Lei número 10.741/2003).

Mas o que significa termos uma pirâmide etária invertida no Brasil dentro de poucas décadas, com maioria de população idosa? Devemos encarar as oportunidades que se descortinam, com mudanças sócio-econômicas fantásticas advindas da tecnologia e da compreensão do que serão os idosos ativos.

A Organização Mundial da Saúde explicita termos que cada vez mais terão significância constante, leia a seguir.

Autonomia

Habilidade de controlar, lidar e tomar decisões pessoais sobre como viver diariamente conforme suas próprias regras e preferências.

Independência

Capacidade de executar funções da vida diária dentro de sua comunidade sem nenhuma ou pouca ajuda.

Expectativa de vida saudável

Expressão sinônima de “expectativa de vida sem incapacidades físicas”.

Envelhecimento ativo

Processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, que visa melhorar a qualidade de vida à medida que a pessoa envelhece.

Em posts futuros trataremos da prática de envelhecer ativamente. Para os que já estão chegando no Alzheimer, a foto mostra Charles Chaplin à esquerda e Albert Einstein a seu lado.

(modificado de Jornal Medicina – CFM, junho/2016)

As melhores maneiras de proteger seu cérebro do envelhecimento

Como modificar seu estilo de vida e proteger preciosos neurônios

Viver em média até os 120 anos de idade é a meta para o final do milênio. Impossível? Recentemente descobriu-se uma espécie de tubarão das profundezas com mais de 300 anos de idade, se as medidas por carbono 14 estiverem corretas (feitas nos tecidos internos dos olhos do animal, porque tubarões não têm ossos). E, entre o final do século XIX para o final do século XX, passamos da idade média de vida de menos de 40 para quase 80 anos nos países ditos desenvolvidos.

Por ora vamos preservando nosso tecido cerebral da melhor maneira que sabemos. Eis as dicas:

  1. mantenha seu coração como seu melhor amigo: trate hipertensão, obesidade, colesterol e outros lipídios elevados, evite diabetes a todo custo
  2. enfatize exercícios – a atividade física reduz risco e severidade do declínio cognitivo. Em especial, atividade aeróbica pode aumentar o volume de certas áreas do cérebro que tendem a hipofuncionar na terceira idade, com melhora da memória e de sintomas que tendem à depressão
  3. aprenda novidades as mais variadas, expanda seus interesses, escreva cartas e outras missivas, leia muito – ler durante toda a vida foi associado a melhor função cognitiva em estudos com autópsias cerebrais
  4. socialize – quanto maior seu network de relacionamentos, menor seu declínio cognitivo; ao contrário, solidão está associada a um cérebro mais atrofiado
  5. trate sintomas depressivos – quando a depressão se manifesta na meia-idade o risco dobra de o cérebro ter perda cognitiva significativa (embora ainda não esteja bem comprovado se a relação é de causa ou efeito)
  6. evite alumínio nos utensílios da cozinha – este se deposita facilmente em placas cerebrais que predispõem a Alzheimer e outras doenças degenerativas; principalmente, livre-se das panelas de alumínio
  7. durma muito bem – alguns estudos encontraram relação entre dormir mal e declínio cognitivo ou surgimento de doença de Alzheimer; melhorar o sono, portanto, deve reduzir tais riscos.
(Baseado em matéria da revista TIME, 08/2016)

O retorno do leite integral

O leite de vaca integral tem seus defensores

Como o leite de vaca contém quantidade razoável de gorduras, médicos têm recomendado o uso de leite com 1%, 2%, ou mesmo sem gordura. Evidências recentes, no entanto, mostram benefícios do leite integral, yogurte e queijos. De fato, estes últimos podem ser mais benéficos para sua saúde.

Menor risco de diabetes

Novos estudos mostram redução do risco de diabetes mellitus em 46% com uso de leite integral, quando comparado com leite sem gordura, possivelmente porque leite integral, com mais calorias, pode auxiliar as pessoas a comer menos ou a melhorar o controle de seu açúcar no sangue.

Redução do peso corporal

Quando as pessoas favorecem o leite sem gordura para evitar calorias e gorduras, em verdade tendem a substituir essas calorias com carboidratos. Estes são armazenados como gordura e podem contribuir para rápido ganho de peso.

Menor risco cardiovascular

Alguns estudos científicos mostram que as pessoas que consumem leite ou outros laticínios pobres em gordura podem apresentar maior prevalência de doençass cardiovasculares que pessoas optantes por laticínios integrais, possivelmente porque ela estão consumindo mais carboidratos.

Evidências a favor do leite sem gorduras

A Medicina não é uma ciência exata, como todos sabem, e as verdades de hoje serão substituidas por novas verdades no futuro. Um grande grupo de cientistas ainda acredita que o melhor para sua saúde é consumir menos gorduras e carboidratos. Portanto, são a favor de laticínios sem gordura. Evidências são fáceis de se encontrar na Internet.

(modificado de TIME Magazine)

Placebo vs. Glucosamina e Condroitina para artrose de joelhos

A combinação glucosamina com condroitina mostra-se ineficaz em mais um estudo para artrose de joelhos.

Em mais um estudo randomizado duplo-cego a combinação GS/CH mostrou-se impotente para controlar sintomas e evolução da gonartrose. Esta já era nossa experiência clínica de muitos anos. O combo parece funcionar bem em artrose de mãos, pequenas articulações, não em grandes articulações. Abaixo o Abstract deste estudo feito na Espanha, em que ficou claramente demonstrada a superioridade do placebo.

ABSTRACT

Objective: To assess the efficacy and safety of chondroitin sulfate (CS) plus glucosamine sulfate (GS) compared to placebo in patients with symptomatic knee osteoarthritis (KOA).

Methods: A multicenter, randomized, double-blinded, placebo-controlled study was performed in 164 patients with Kellgren-Lawrence stages II-III KOA and moderate to severe pain (VAS: 62.1±11.3 mm). Patients were randomized to receive either CS (1200 mg) plus GS (1500 mg) or placebo in a single oral daily dose for 6 months. The mean change in VAS global pain was set as primary endpoint. Secondary outcomes included the mean change in the investigator global assessment, total WOMAC, pain and function subscales of WOMAC, OMERACT-OARSI 2004 responder rate, and rescue medication use. Adverse events were also recorded. A Data and Safety Monitoring Board was constituted to ensure patient safety and data accuracy.

Results: Intriguingly, CS+GS was inferior to placebo in reduction of joint pain for the modified intention-to-treat (mITT) population [11.8±2.4 mm (19%) vs 20.5±2.4 mm (33%); Δ= -8.7; -14.2%; p<0.03], but not for per-protocol completers. Placebo and CS+GS similarly improved total WOMAC, as well as pain and function WOMAC subscales in both mITT population and per-protocol completers. Neither the OMERACT-OARSI responder rate nor the use of rescue medication differed between both groups. Severe adverse events were uncommon and equally distributed.

Conclusion: CS+GS failed to demonstrate superiority over placebo in reducing pain and function impairment in patients with symptomatic KOA at 6 months. Further research may contribute to fully elucidate the suitability of CS+GS combination as therapy in OA. This article is protected by copyright. All rights reserved.

Roman-Blas, J. A., Castañeda, S., Sánchez-Pernaute, O., Largo, R., Herrero-Beaumont, G. and the CS/GS COMBINED THERAPY Study group (2016). Chondroitin sulfate plus glucosamine sulfate shows no superiority over placebo in a randomized, double-blind, placebo-controlled clinical trial in patients with knee osteoarthritis. Arthritis & Rheumatology. Accepted Author Manuscript. doi:10.1002/art.39819

Como dormir melhor num vôo de larga distância.

Público alvo: leigo.

A curiosidade é grande por parte de vários conhecidos: como viajo tão frequentemente ao exterior e chego inteiro ao destino?

O segredo é uma boa noite de sono, se é que isto é algo possível e realizável nos assentos dos jatos que cruzam os oceanos.

Como replicar o sono reparador de nossa cama em casa? Aqui minhas dicas, aprendidas a duras penas nos últimos 20 anos e com 1,5 milhão de milhas voadas:

  1. Barulho. Vento e ruido dos motores criam o oposto das melhores condições para dormir. A solução barata: plugs de ouvido, encontráveis em qualquer loja de utensílios nos aeroportos internacionais.A solução melhor: fones de ouvido com tecnologia de eliminação de ruidos. Há várias marcas no mercado, as melhores a partir de US 300,00. Uso um modelo BOSE há anos, basta trocar a pilha.
  2. Luz. Mesmo com as janelas fechadas, há sempre alguém com luzes ligadas ao lado, ou as telas no assento da frente jorrando luz toda a noite. A solução é uma só: tapa-olhos, tipo máscara do Zorro. A diferença é flagrante, mas mesmo assim por algum motivo vejo poucos passageiros utilizando.
  3. Turbulência. Esta não há como evitar, pois tudo depende do piloto e de São Pedro. A sugestão é pegar um assento sobre as asas, onde o balanço é bem menor que perto do bico ou da cauda do avião. Sente em uma gangorra e você entenderá rapidamente os motivos. Também você pode escolher aviões maiores, que jogam bem menos. E, é claro, sempre estar com o cinto de segurança afivelado.
  4. Ar seco. A sensação é conhecida, você acorda no meio da noite com a boca seca, sonhando que está comendo aveia liofilizada. E o nariz com muita coisa querendo sair. O motivo é a umidade relativa do ar de deserto nos vôos em grande altitude. Por que? Para a estrutura do avião sofrer menos, pense na oxidação de partes metálicas bem maior nos climas mais úmidos, por exemplo. Novos aviões como o Boeing Dreamliner 787 são feitos de materiais compostos, e voam com umidade do ar de 10 a 15%, muito melhor que os 7% das aeronaves tradicionais. Possíveis soluções: além de se manter bem hidratado, com uma garrafinha de água ao alcance da mão, use batom protetor de lábios.
  5. Álcool. Você fica um pouco anestesiado e parece que o sono vem mais fácil após um aperitivo, um Prosecco ou um bom vinho. Mas o rebote é certo no meio da noite, porque o álcool tende a desidratá-lo. Estudo recente da Universidade de Londres mostra que a primeira fase do sono é de mais qualidade com o uso de álcool, porém a segunda metade é disruptiva. Dica: sustente-se no primeiro copo, se isto é indispensável, ou não beba álcool. De novo, uma garrafa de água mineral à sua frente é garantia de matar a sede quando ela certamente vier.
  6. Roupa. O que você veste para dormir em casa? Roupas abotoadas, com zíper, na moda? Um pijama folgado, pelado? Pois no avião prefira roupas folgadas e em camadas, de fibras naturais. E sem esquecer algo para aquecer os pés, se viajar com sandálias ou calçado aberto.
  7. Estímulos. Um filme ou série de TV na tela à sua frente, com altas emoções e muita violência, é convite certo para atrasar seu sono. Prefira uma película água com açúcar, talvez você já durma em meio à mesmice do enredo. Ou então abra um bom livro ou revista.
  8. Assento. Há quem prefira o corredor para melhor acesso a curtas caminhadas e ao banheiro. Eu prefiro sempre uma janela para poder encostar a cabeça, faz toda a diferença. Até porque o sujeito ao lado não me pede licença para levantar.
  9. Remédios. Há quem dependa sempre de uma boleta medicamentosa para dormir. Como não uso, não tenho comentários próprios a fazer aqui. Como médico, não vejo problema em tomar um sedativo de curta ação, principalmente se você é o protótipo do passageiro medroso ou apavorado de estar dentro de uma lata de alumínio que voa.
  10. Circulação. Prevenir tromboses venosas é fundamental, dado o risco de embolia pulmonar no destino. Uma doença grave e que pode ser letal. A chance de uma flebite ocorrer em vôos de larga distância não é desprezível, amplificada pela desidratação comentada acima. As soluções: ingerir uma aspirina de baixa dosagem antes de entrar no avião, ou um clopidogrel (Plavix, etc). Usar meias elásticas. Fazer caminhadas curtas nos corredores da aeronave também é muito bom. Exercícios na poltrona para os mais obsessivos (várias revistas de bordo têm sugestões de contorcionismos enquanto sentado). Algumas pessoas com tromboses venosas prévias devem conversar com seu médico para fazer injeções de heparina de baixo peso molecular antes de cada vôo. Vale sua vida!
  11. Oxigênio. Após 6h de vôo a taxa de saturação de oxigênio no ar interno cai consideravelmente. Este é um dos grandes motivos para ocorrência de jet lag na chegada, com dores de cabeça, sensação de cansaço intenso e dores no corpo. Algumas empresas tentaram vender oxigênio enlatado sob pressão, para inalação com máscara durante o vôo. Não vejo paassageiros com a engenhoca. Vamos ter que esperar melhores soluções para este problema.
  12. Horário. Esta aprendi com um piloto de fórmula 1 que vive nos vôos intercontinentais: assim que sentar no avião, afivele o cinto e mude o horário de seu relógio para o fuso horário da chegada. Psicologicamente chega-se ao destino já no horário local. Parece simples demais, e assim o é. E muito efetivo, experimente.
  13. Outras possibilidades. Fragrâncias de lavanda no avião poderão fazê-lo dormir melhor. Dioscorides na Grécia antiga já usava lavanda por seus benefícios medicinais. Na Tailândia se demonstrou que o ritmo cardíaco diminuiu, também a pressão arterial, com a fragrância. Na Alemanha, chá de lavanda foi aprovado como tratamento de insônia.

E, em último caso, não durma! Coloque seu trabalho ou suas leituras em dia. Boa viagem!

O teste da goma de mascar na arterite temporal.

Público alvo: técnico.

Menos de 50% dos pacientes com arterite temporal apresentam claudicação da mandíbula ao mastigar. Este número pode estar sub-representado, como mostra Carta ao Leitor no NEJM desta semana. Os autores mostram 2 casos que justificam a aplicação do teste da goma de mascar na suspeita de pacientes com a doença. Após 2 a 3 min de mascar um chiclete surge forte dor na área temporal afetada.

Além de estetoscópio, aparelho de pressão, oftalmoscópio, diapasão, martelo de reflexos e um grande discernimento, o reumatologista praticante necessitará ter estoque de gomas de mascar no consultório.

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