Categoria: REUMATISMOS EM GERAL

A história da Reumatologia

Público alvo: técnico.

Sabe daqueles arquivos que se encontra ao acaso, ao “folhear”o computador num dia de chuva forte?

A árvore abaixo é de todo interessante para termos idéia da evolução do pensamento reumático/reumatológico, iniciando no catarro reumático dos gregos e chegando aos modernos conceitos de doenças autoimunes. Gota e febre reumática foram das primeiras entidades reconhecidas pelos médicos antigos, a gota com sua descrição clínica completa já vista por Hipócrates no século IV AC.

Vem-me à mente a célebre frase: “Sou grande porque repouso sobre ombros de gigantes”. Vejo-os em todos os galhos.

History tree rheumatology

Como prevenir-se de doenças autoimunes

Público alvo: leigo.

Pois é sim possível tentarmos nos proteger do desenvolvimento de uma doença autoimune. Apesar de os mecanismos que levam ao exato dessaranjo do sistema imune não serem conhecidos, veja abaixo a lista do que você deve evitar para estar protegido – principalmente se há casos de doença autoimune na família.

  • exposição UV – pelo sol ou lâmpadas fluorescentes, a exposição à radiação ultra-violeta pode gerar problemas sérios em casos de lupus eritematoso sistêmico e síndrome de Sjögren (síndrome sicca)
  • tabaco – a cada mês vemos mais doenças autoimunes relacionadas ao tabagismo, o caso mais severo e comprovado sendo a artrite reumatóide. Se você fuma a chance é bem maior de vir a ter arrite reumatóide que na população não-fumante, a doença também é mais severa e responde menos à terapêutica
  • exposição a bisfenóis (plásticos) – há efeitos hormonais e imunes após liberação de bisfenóis a partir de recipientes plásticos aquecidos; daí a admoestação para não se aquecer alimentos no micro-ondas em recipientes plásticos; idem para latas de alumínio e outras, que contêm camada interna com bisfenóis
  • obesidade – o aumento de leptina comprovadamente libera o sistema imune para a auto-agressão
  • baixos níveis de vitamina D – repor vitamina D a níveis aceitáveis auxilia o sistema imune a se recompor da desregulação às vezes maciça provocada por autoimunidade; aparentemente a melhor resposta a altas doses de vitamina D é observada em esclerose múltipla
  • sal na dieta – em 2013 artigo científico no New England Journal of Medicine mostrou que a ativação de linfócitos T auxiliares 17 sofre desregulação na presença de sal; sim, cloreto de sódio ou sal de cozinha
  • prolactina – medicamentos tipo bromocriptina já foram ensaiados para o tratamento do lupus, justamente pelo aumento da concentração deste hormônio na doença
  • estrógenos – muitas vezes retiro os anticoncepcionais orais e a doença autoimune se torna menos severa ou até desaparece; infelizmente isto não acontece com todas as pacientes
  • glúten – a doença celíaca é curada com dieta adequada, você pode ter intolerância ao glúten sem a doença plenamente desenvolvida, com poucos sintomas ou sem sintoma algum.

Qual a prevalência das diferentes doenças reumáticas?

Público alvo: técnico e leigo.

Há alguns anos, trabalhando ainda no Hospital São Lucas da PUC em Porto Alegre, fizemos uma estatística durante 8 meses, período em que 951 pacientes foram atendidos.

Quais os achados mais importantes?

  • A grande maioria (78,4%) eram mulheres
  • A média de idade foi de 47,6 ± 19,3 anos
  • As doenças mais prevalentes foram:
    • artrite reumatóide (19,3% – 184)
    • osteoartrose de coluna, mãos ou joelhos (11,9% – 114), sendo 42 secundárias ou associadas a outras doenças
    • partes moles, englobando tendinites, síndromes miofasciais  e distúrbios posturais (10,9% – 104)
    • fibromialgia (9,5% – 91), 35 associadas a outras doenças reumatológicas
    • lúpus eritematoso sistêmico (9,2% – 88)
    • espondiloartropatias (7,1% – 68), sendo 31 indiferenciadas, 24 com espondilite anquilosante, 11 com síndrome de Reiter e 2 enteropáticas
    • síndrome de Sjögren primária (4,2% – 40), secundária em 16 pacientes
    • osteoporose (3,8% – 37), sendo 26 associadas a outras enfermidades
    • artropatias microcristalinas (3,2% – 31) – 23 com gota, 4 condrocalcinoses, demais indeterminadas
    • esclerose sistêmica (2,9% – 28), 14 forma difusa e 12 CREST
    • síndrome do anticorpo anti-fosfolípide (1,5% – 14), 3 na forma primária
    • artrite reumatóide juvenil (1,7% – 16)
    • 8 pacientes com Doença Mista do Tecido Conjuntivo
    • 4 pacientes com Doença Indiferenciada do Tecido Conjuntivo
    • 7 pacientes com síndromes de superposição (artrite reumatóide, lupus, polimiosite, Sjögren, etc)
    • 5 com dermatomiosite e 4 com polimiosite
    • vasculites (1,9% – 18), 5 com polimialgia reumática, 5 vasculites inespecíficas, 3 com arterite de Takayasu, 2 com crioglobulinemia e 1 com poliarterite nodosa.
  • Cento e vinte e nove pacientes (13,5%) não possuiam diagnóstico definitivo, a maioria com somente uma consulta, sendo tratados segundo uma hipótese diagnóstica.

Os vários diagnósticos mostram a grande variedade da prática reumatológica, com necessidade de constante atualização por parte do profissional médico.

Obesidade e artrose de joelhos

Público alvo: técnico e leigo.

É intuitivo imaginar-se que o excesso de peso traga sobrecarga nas articulações de quadris, joelhos e pés. O desgaste progressivo daí advindo é importante e se acentua ao longo do tempo, trazendo afinamento e erosões das cartilagens, com cistos ósseos e outros fenômenos diagnosticados pelas radiografias.

Mas qual a influência do sobrepeso nos sintomas de artrose de joelhos, da perda de peso nos sintomas e, principalmente, na necessidade futura de próteses de joelhos? Artigo desta semana na Arthritis & Rheumatology , dos EUA, acompanhou mais de 100.000 pacientes ao longo de 3 anos e chegou às seguintes conclusões:

  • pacientes com sobrepeso têm 40% mais chance de evoluirem para prótese que pessoas com peso normal
  • pacientes obesos têm 100% de chance de necessitarem próteses
  • as associações são mais importantes quanto mais jovens os pacientes
  • estratégias que trazem perda de peso reduzem em 31% as chances de cirurgia futura.

Para os profissionais que acompanham o blog, eis o abstract da publicação:

Obesity and the Relative Risk of Knee Replacement Surgery in Patients With Knee Osteoarthritis: A Prospective Cohort Study

Leyland, Judge, Javaid et al. Arthritis & Rheumatology 68:817-825, April 2016.

Objective

It is unclear what impact obesity has on the progression of knee osteoarthritis (OA) from diagnosis to knee replacement surgery. This study was undertaken to examine the relative risk of knee replacement surgery in overweight and obese patients who were newly diagnosed as having knee OA in a community setting.

Methods

Subjects were selected from the Information System for Development of Primary Care Research database, which compiles comprehensive clinical information collected by health care professionals for >5.5 million people in Catalonia, Spain (80% of the population). Patients newly diagnosed as having knee OA in primary care between 2006 and 2011 were included. Knee replacement was ascertained using International Classification of Diseases, Ninth Revision, Clinical Modification codes from linked hospital admissions data. Multivariable Cox regression models were fitted for knee replacement according to body mass index (BMI), and were adjusted for relevant confounders. Population proportional attributable risk was calculated.

Results

A total of 105,189 participants were followed up for a median of 2.6 years (interquartile range 1.3–4.2). Of these patients, 7,512 (7.1%) underwent knee replacement. Adjusted hazard ratios and 95% confidence intervals (95% CIs) for knee replacement for the World Health Organization BMI categories were 1.41 (95% CI 1.27–1.57) for overweight, 1.97 (95% CI 1.78–2.18) for obese I, 2.39 (95% CI 2.15–2.67) for obese II, and 2.67 (95% CI 2.34–3.04) for obese III compared to normal weight. The effect of BMI on risk of knee replacement was stronger among younger participants. The population attributable risk of obesity for knee OA–related knee replacement was 31.0%.

Conclusion

Overweight and obese patients are at >40% and 100% increased risk of knee replacement surgery, respectively, compared to patients with normal weight. This association is even stronger in younger patients. Weight reduction strategies could potentially reduce the need for knee replacement surgery by 31% among patients with knee OA.

Vacinação contra a gripe em pacientes reumáticos.

Público alvo: leigo.

Os Emails e mensagens não cessam neste outono, com o questionamento sobre o emprego da vacina contra a gripe por parte de quem é paciente reumático. Mais ainda por parte daqueles que utilizam medicação imunomoduladora ou imunossupressora.

Minha recomendação: sim, você deve fazer a vacina da gripe, cuja formulação apresenta virus inativados – não há risco de você pegar a doença, já que os microorganismos estão mortos. Utilize de preferência a vacina tetravalente, oferecida na rede particular. A forma tetravalente infelizmente não será oferecida pelo governo, que distribuirá a vacina trivalente. Mas as duas formas de vacina conferem proteção contra a gripe H1N1, o que é o mais importante no final da história.

Outro detalhe: pessoas imunossuprimidas devem fazer um reforço da vacina depois de 30 dias da primeira dose, já que a formação de anticorpos protetores não é a ideal após uma única dose. Tenho usado esta estratégia em meus pacientes nos últimos anos, com sucesso e sem aumento de para-efeitos da vacina.

Informe-se mais sobre a vacina da gripe clicando nos links:

Artrose: mais um suplemento que promete melhoras

Público alvo: técnico.

A lista de suplementos para o tratamento de osteoartrose vai se avolumando, além do conjunto tradicional glucosamina/condroitina, colágeno tipo II, Boswellia serrata e outros. Outros já saíram do mercado, como o Piascledine, caro e pouco eficaz na prática clínica. No post de hoje a L-carnitina é notícia, confira a seguir.

Do L-carnitine supplements have benefits in osteoarthritis?

Takeaway

  • In female patients with knee osteoarthritis (OA), researchers observed reduced inflammatory markers and pain with short-term supplementation of L-carnitine.
Study design

  • 72 women with mild to moderate knee osteoarthritis started the study and were divided into 2 groups to receive 750 mg/d L-carnitine (n=36) or placebo (n=36) for 8 w.
  • Measures of serum levels of Interleukine-1β (IL-1β), high-sensitivity C-reactive protein (hs-CRP), and matrix metalloproteinases (MMPs) -1 and -13.
  • Visual analog scale (VAS) for pain was assessed.
Key results

  • 69 patients (33 in the L-carnitine group and 36 in the placebo group) completed the study.
  • L-carnitine supplementation decreased serum IL-1β and MMP-1 levels (P=.001 and .021, respectively).
  • In patients taking placebo serum hs-CRP and MMP-13, levels did not change (P>.05); serum IL-1β levels increased significantly (P=.011); other studied biomarkers did not change.
  • In the L-carnitine and placebo groups mean VAS score decreased by 52.67% and 21.82%, respectively (P<.001).
  • After adjusting for baseline values and covariates, differences were only observed between L-carnitine and placebo groups in serum IL-1β (P<.001), MMP-1 (P=.006), and mean VAS score (P=.002).
Limitations

  • Study was limited to 8 w.
  • Inflammatory mediators and metalloproteinase enzymes were only measured in serum, not in the synovial fluids.

Why this matters

  • More studies should be done to explore the benefits of L-carnitine, with higher doses of L-carnitine, long-term supplementation, and measures of other inflammatory and anti-inflammatory mediators, including TNF-α, IL-6, IL-10, and MMP-3.

Ensinando o lupus para pacientes e familiares

Público alvo: leigos.

Uma grande e oportuna idéia da jornalista e professora Vivian Magalhães, de Porto Alegre, a publicação eletrônica do livro “Domando o Lobo”. Tive o prazer de poder auxiliá-la na revisão científica. Uma explanação honesta e corajosa sobre como uma mãe pode enfrentar os fantasmas desta doença. “Sim, é possível viver uma vida plena com Lupus Eritematoso Sistêmico”, nos dizeres da autora, que tem filha com a doença. Acesse gratuitamente pelo link:

http://conteudo.bookess.com/domando-o-lobo

Reumatismos esses desconhecidos II: entrevistas na TV.

Público alvo: leigo.

Continuando a série de entrevistas para a TV, esta foi gravada em janeiro/2016 dentro do programa Viva Mais do Canal 20 (NET Porto Alegre). Anote suas dúvidas e envie através do blog, estaremos respondendo e comentando nos próximos programas. Por favor clique no link para acessar.

Reumatismos esses desconhecidos I: entrevistas na TV.

Público alvo: leigo.

Muitas vezes a melhor maneira de disseminar informações médicas é através do velho meio de comunicação chamado TV. Esta entrevista foi gravada em dezembro/2014 dentro do programa Viva Mais do Canal 20 (NET Porto Alegre). Anote suas dúvidas e envie através do blog, estaremos respondendo e comentando nos próximos programas.

Laboratório em autoimunidade: os Consensos Brasileiros de FAN

Público alvo: técnico

Laudos de FAN são de difícil leitura e execução. Técnicos ao microscópio devem ter anos de treinamento antes de ser capazes de interpretar corretamente padrões nucleares, nucleolares, do aparelho mitótico, citoplasmáticos e mistos. Entra na jogada o site do IV Consenso Brasileiro de FAN em Células HEp2: http://www.hep-2.com.br. Além de ensinar a nomenclatura brasileira para os padrões de FAN, contém árvores de decisão com relevância para a anatomia celular, bem como inúmeros exemplos em fotos. E o aplicativo para telefones celulares tem obtido a melhor repercussão, tudo preparado sob os auspícios da Universidade Católica de Goiás.