Categoria: PSORÍASE

Sexo e qualidade de vida em pacientes com espondilite na era dos biológicos.

Mesmo com os remédios mais modernos a vida não é a mesma para quem tem espondilite.

Cientistas da Noruega acabam de publicar na revista canadense Journal of Rheumatology um interessante trabalho feito em homens e mulheres com diagnóstico de espondiloartrite axial. A este grupo de doenças pertence a espondilite anquilosante, a espondilite por psoríase ou por doenças inflamatórias intestinais e a sacroileite indiferenciada, todos reumatismos inflamatórios da coluna e bacia.

Objetivo do trabalho

O objetivo foi explorar as associações entre dados pessoais, variáveis atribuíveis à doença, tipo de tratamento e qualidade de vida sexual em homens e mulheres padecendo de espondiloartrite axial.

Quem foi estudado

Foram incluidos 360 pacientes, 240 homens e 120 mulheres, com idade média de 45,5 anos e espondilite com duração média de 13,9 anos. Desses, 78% eram casados ou residiam com cônjuge, 27% fumavam, 71% estavam empregados, 86% faziam mais de 1 hora de exercícios por semana e 88% tinham o marcador genético HLA-B27, típico de espondilite.

Resultados

Quase a metade (44%) usava anti-inflamatórios sem corticóides, 5% usavam remédios modificadores de doença como o metotrexate e 24% usavam remédios biológicos.

Após análise estatística rigorosa, os escores mais baixos de qualidade de vida sexual ocorreram em mulheres, naquelas com sobrepeso, nos indivíduos com medidas de atividade de doença alteradas (aumento de proteina C reativa ou de índices clínicos similares ao BASDAI – muito conhecido de quem tem a doença) e em uso de tratamento com remédios biológicos.

Conclusão

Pacientes noruegueses com espondilite e doença mal controlada, ainda em processo inflamatório, têm baixa qualidade de vida sexual, mesmo na vigência de tratamento biológico.

Minha mensagem

Sem dúvida outros fatores concorrem para a vida sexual saudável de pacientes com doenças inflamatórias da coluna, principalmente as espondilites, mas é indispensável batalhar pelo controle completo dos sintomas. Isto certamente é possível e parte de uma saudável relação médico-paciente, com confiança nos tratamentos, e na busca incessante pelo melhor remédio biológico para cada pessoa. Não funcionou o primeiro ou o segundo, siga a luta com outro novo recurso terapêutico. Novos biológicos com distintos mecanismos de ação estão lançados a cada momento e raríssimos são os causas sem resposta adequada ou com efeitos colaterais sérios a todos os remédios.

Deixar-se levar pela dor e pela depressão secundária à doença crônica leva à espiral da ansiedade, desvalia, pensamentos negativos e a um buraco sem fundo. Lembre-se que a primeira regra para quem está no buraco é parar de cavar!

Sua qualidade de vida, incluindo a esfera sexual, retornará à normalidade com o controle da espondilite. E transar faz muito bem!

Artigo original

Sexual quality of life in patients with axial spondyloarthritis in the biologic treatment era. Kari Hansen Berg, Gudrun Rohde, Anne Prøven, Esben Esther Pirelli Benestad, Monika Østensen and Glenn Haugeberg. The Journal of Rheumatology February 2019, jrheum.180413; DOI: https://doi.org/10.3899/jrheum.180413.

Como editar células tronco para o combate da artrite

Modernas técnicas de biologia molecular permitem adicionar gens de agentes biológicos às células tronco para cessar a inflamação nas articulações afetadas por artrite.

Usando novas técnicas de edição de gens, pesquisadores americanos conseguiram modificar células tronco de camundongos para que passassem a combater inflamação causada por artrite e outras condições crônicas. Tais células, denominadas SMART (Stem Cells Modified for Autonomous Regenerative Therapy), sofreram transformação em cartilagem, permitindo que substituam cartilagem lesada e simultaneamente combatam o processo inflamatório articular pela produção de agentes biológicos anti-TNF.

Vários medicamentos anti-TNF existem comercialmente, porém prescritos através de injeções endovenosas ou subcutâneas. Sua ação é geral no corpo, sistêmica, podendo trazer diminuição das funções imunológicas de proteção.

Caso os resultados da pesquisa possam ser duplicados em outros animais de experimentação e, depois, em seres humanos, teremos armas de grande poder para o tratamento das artrites diretamente onde mais incomodam: dentro das juntas.

O artigo original da Doximity.com você pode ler abaixo.

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“Using new gene-editing technology, researchers have rewired mouse stem cells to fight inflammation caused by arthritis and other chronic conditions. Such stem cells, known as SMART cells (Stem cells Modified for Autonomous Regenerative Therapy), develop into cartilage cells that produce a biologic anti-inflammatory drug that, ideally, will replace arthritic cartilage and simultaneously protect joints and other tissues from damage that occurs with chronic inflammation.

The cells were developed at Washington University School of Medicine in St. Louis and Shriners Hospitals for Children-St. Louis, in collaboration with investigators at Duke University and Cytex Therapeutics Inc., both in Durham, N.C. The researchers initially worked with skin cells taken from the tails of mice and converted those cells into stem cells. Then, using the gene-editing tool CRISPR in cells grown in culture, they removed a key gene in the inflammatory process and replaced it with a gene that releases a biologic drug that combats inflammation.

The research is available online April 27 in the journal Stem Cell Reports.

“Our goal is to package the rewired stem cells as a vaccine for arthritis, which would deliver an anti-inflammatory drug to an arthritic joint but only when it is needed,” said Farshid Guilak, PhD, the paper’s senior author and a professor of orthopedic surgery at Washington University School of Medicine. “To do this, we needed to create a ‘smart’ cell.”

Many current drugs used to treat arthritis — including Enbrel, Humira and Remicade — attack an inflammation-promoting molecule called tumor necrosis factor-alpha (TNF-alpha). But the problem with these drugs is that they are given systemically rather than targeted to joints. As a result, they interfere with the immune system throughout the body and can make patients susceptible to side effects such as infections.

“We want to use our gene-editing technology as a way to deliver targeted therapy in response to localized inflammation in a joint, as opposed to current drug therapies that can interfere with the inflammatory response through the entire body,” said Guilak, also a professor of developmental biology and of biomedical engineering and co-director of Washington University’s Center of Regenerative Medicine. “If this strategy proves to be successful, the engineered cells only would block inflammation when inflammatory signals are released, such as during an arthritic flare in that joint.”

As part of the study, Guilak and his colleagues grew mouse stem cells in a test tube and then used CRISPR technology to replace a critical mediator of inflammation with a TNF-alpha inhibitor.

“Exploiting tools from synthetic biology, we found we could re-code the program that stem cells use to orchestrate their response to inflammation,” said Jonathan Brunger, PhD, the paper’s first author and a postdoctoral fellow in cellular and molecular pharmacology at the University of California, San Francisco.

Over the course of a few days, the team directed the modified stem cells to grow into cartilage cells and produce cartilage tissue. Further experiments by the team showed that the engineered cartilage was protected from inflammation.

“We hijacked an inflammatory pathway to create cells that produced a protective drug,” Brunger said.

The researchers also encoded the stem/cartilage cells with genes that made the cells light up when responding to inflammation, so the scientists easily could determine when the cells were responding. Recently, Guilak’s team has begun testing the engineered stem cells in mouse models of rheumatoid arthritis and other inflammatory diseases.

If the work can be replicated in animals and then developed into a clinical therapy, the engineered cells or cartilage grown from stem cells would respond to inflammation by releasing a biologic drug — the TNF-alpha inhibitor — that would protect the synthetic cartilage cells that Guilak’s team created and the natural cartilage cells in specific joints.

“When these cells see TNF-alpha, they rapidly activate a therapy that reduces inflammation,” Guilak explained. “We believe this strategy also may work for other systems that depend on a feedback loop. In diabetes, for example, it’s possible we could make stem cells that would sense glucose and turn on insulin in response. We are using pluripotent stem cells, so we can make them into any cell type, and with CRISPR, we can remove or insert genes that have the potential to treat many types of disorders.”

With an eye toward further applications of this approach, Brunger added, “The ability to build living tissues from ‘smart’ stem cells that precisely respond to their environment opens up exciting possibilities for investigation in regenerative medicine.”

Ingerir álcool durante uso de MTX (metotrexato) aumenta o risco de dano ao fígado?

Artigo recente no Annals of the Rheumatic Diseases (Abril 7, 2017) Original Article, escrito por Jenny H Humphreys, Alexander Warner, Ruth Costello, William G Dixon e Mark Lunt, nos dá conta que a situação é relativa quanto à toxicidade ao fígado pelo consumo de MTX e álcool.

Consumo de baixas quantidades de álcool não parecem afetar o fígado, porém o risco de aumentar as transaminases, enzimas hepáticas que orientam o clínico quanto ao risco de haver inflamação tóxica, é maior com quantidades cada vez maiores de álcool.

Em minha experiência, o aumento das transaminases ocorre mesmo sem consumo concomitante de álcool, isto em pessoas mais sensíveis ao MTX. Na outra ponta do espectro há aquele raro paciente que continua bebendo pelo menos meia garrafa de vinho diariamente, sem qualquer para-efeito com o MTX. Pior, muitas vezes este dado é escondido convenientemente do médico.

De qualquer forma, sempre oriento os pacientes sobre os riscos da ingestão de álcool enquanto utilizando MTX e/ou leflunomida (Arava). Praticamente todos recebem suplementação de ácido fólico (semanal ou às vezes até diária, como “antídoto” de possíveis para-efeitos do MTX) e checo resultados dos exames laboratoriais periodicamente. Uma elevação de transaminases até 2 vezes o limite superior da normalidade (leia os valores de referência de seu laboratório abaixo do resultado de cada teste) pode ser ainda aceitável. Três vezes ou mais, deve-se cessar a medicação e consultar o médico.

Abaixo o abstract original.

“Background

Patients with rheumatoid arthritis (RA) who take methotrexate (MTX) are advised to limit their alcohol intake due to potential combined hepatotoxicity. However, data are limited to support this. The aim of this study was to quantify the risk of developing abnormal liver blood tests at different levels of alcohol consumption, using routinely collected data from primary care.

Methods

Patients with RA in the Clinical Practice Research Datalink starting MTX between 1987 and 2016 were included. Hepatotoxicity was defined as transaminitis: alanine transaminase or aspartate aminotransferase more than three times the upper limit of normal. Crude rates of transaminitis were calculated per 1000 person-years, categorised by weekly alcohol consumption in units. Cox proportional hazard models tested the association between alcohol consumption and transaminitis univariately, then age and gender adjusted.

Results

11 839 patients were included, with 530 episodes of transaminitis occurring in 47 090 person-years follow-up. Increased weekly alcohol consumption as a continuous variable was associated with increased risk of transaminitis, adjusted HR (95% CI) per unit consumed 1.01 (1.00 to 1.02); consuming between 15 and 21 units was associated with a possible increased risk of hepatotoxicity, while drinking >21 units per week significantly increased rates of transaminitis, adjusted HR (95% CI) 1.85 (1.17 to 2.93).

Conclusions

Weekly alcohol consumption of <14 units per week does not appear to be associated with an increased risk of transaminitis.”

(Gravura original de https://www.doximity.com/doc_news/v2/entries/7163790)

 

Qual a prevalência de artrite nos pacientes com psoríase?

Público alvo: técnico e leigo.

A psoríase é uma doença autoimune crônica, recorrente, comum, ocorrendo em pele e articulações. Traz significativo impacto emocional e físico. A doença ocorre em todo o mundo, com prevalência distinta conforme os grupos étnicos. O componente genético é muito importante, mas infecções podem também ter papel relevante nas formas de apresentação cutânea e articular.

As estatísticas variam muito, e em nosso país são incompletas. Nos meios reumatológicos fala-se em 2 a 3% da população caucasiana como tendo psoríase cutânea em suas várias formas (ungueal, gutatta, inversa, eritrodérmica, etc), com 20 a 30% destes vindo a desenvolver artrite ao longo de sua vida. Japoneses, aborígines australianos e índios do continente americano apresentam raramente a doença.

O mais frequente é o paciente desenvolver primeiro a forma cutânea, depois a artrite, mas há casos que fogem à regra:

  • psoríase tendo início de forma concomitante com artrite
  • psoríase de pele com início após o paciente já apresentar artrite
  • artrite sem psoríase cutânea.

Neste último caso o médico chega ao diagnóstico por haver história familiar de psoríase cutânea.

Uma outra possibilidade a não ser esquecida, e relativamente nova no universo dos pacientes reumáticos, é o surgimento de reações cutâneas em tudo indistinguíveis à psoríase (inclusive com biópsia de pele apresentando achados típicos) após uso de agentes biológicos anti-TNF para artrite reumatóide, espondilite anquilosante e suas variantes, e também para a própria artrite psoriásica. Este aparente paradoxo ainda carece de explicação fisiopatogênica definitiva, porém são reconhecidos os fenômenos autoimunes que surgem em alguns pacientes, felizmente mais raros, em uso de modernos agentes biológicos.

Publicação recente na conceituada revista Arthritis & Rheumatology, dos EUA, mostra a incidência (número de novos casos) da artrite psoriásica no Canadá. Os autores na Universidade de Toronto encontraram incidência anual de 2,7%, ou seja, naquela comunidade, 3 de cada 100 pacientes com psoríase da pele desenvolveram artrite em cada ano de observação.

E quais foram os fatores de risco observados para o desenvolvimento de artrite? Psoríase cutânea difusa e severa, psoríase de unhas (veja foto) – principalmente com pontos difusos como em um dedal, baixo nível de educação e uveites (inflamação ocular interna).

Divulgue estes conhecimentos sobre artrite psoriásica, muitas pessoas de seu relacionamento têm psoríase e não sabem desta complicação. Em caso de dores nas juntas de forma continuada, procurar o reumatologista.

Sobre as várias formas de artrite psoriásica falaremos em uma próxima oportunidade.

The Incidence and Risk Factors for Psoriatic Arthritis in Patients With Psoriasis: A Prospective Cohort Study

Eder, Haddad, Rosen et al. Arthritis & Rheumatology 68:915–923, April 2016

Objective

To estimate the incidence of psoriatic arthritis (PsA) in patients with psoriasis, and to identify risk factors for its development.

Methods

The study was designed as a prospective cohort study involving psoriasis patients who did not have a diagnosis of arthritis at the time of study enrollment. Information was collected about lifestyle habits, comorbidities, psoriasis activity, and medications. Patients who developed inflammatory arthritis or spondylitis were classified as having PsA if they fulfilled the criteria of the Classification of Psoriatic Arthritis Study group. The annual incidence of PsA was estimated using an event per person-years analysis. Cox proportional hazards models, involving fixed and time-dependent explanatory variables, were fitted to obtain estimates of the relative risk (RR) of the onset of PsA, determined in multivariate models stratified by sex and controlled for age at onset of psoriasis.

Results

The data obtained from the 464 patients who were followed up for 8 years were analyzed. A total of 51 patients developed PsA during the 8 years since enrollment. The annual incidence rate of PsA was 2.7 cases (95% confidence interval 2.1–3.6) per 100 psoriasis patients. The following baseline variables were associated with the development of PsA in multivariate analysis: severe psoriasis (RR 5.4, P = 0.006), low level of education (university/college versus high school incomplete RR 0.22, P = 0.005; high school graduate versus high school incomplete RR 0.30, P = 0.049), and use of retinoid medications (RR 3.4, P = 0.02). In multivariate models with time-dependent variables, psoriatic nail pitting (RR 2.5, P = 0.002) and uveitis (RR 31.5, P = 0.0002) were associated with the development of PsA.

Conclusion

The incidence of PsA in patients with psoriasis is higher than previously reported. A severe psoriasis phenotype, presence of nail pitting, low level of education, and uveitis are predictive of the development of PsA in patients with psoriasis.