Categoria: REUMATISMOS EM GERAL

Professor da UFSC especialista em pandemias indica medidas de proteção para a ida ao super-mercado

17/03/2020  

O professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Oscar Bruña-Romero estabeleceu algumas medidas de prevenção fundamentais no combate à pandemia do Novo Coronavírus (Covid-19). Ele traz orientações a serem utilizadas no cotidiano da população, como ao usar um veículo ou na ida ao mercado. Bruña-Romero é doutor pela Universidad de Navarra, na Espanha, e tem experiência em imunologia, biologia molecular, virologia/parasitologia, atuando principalmente nos seguintes temas: vírus recombinantes, desenvolvimento de vacinas e diagnóstico imunológico e molecular de doenças infecciosas.

Veja as medidas de precaução definidas pelo professor:


1. Nunca fique a menos de um metro de outro ser humano;
2. Considere sempre a sua mão suja. Nunca leve a mão à boca, ao olho ou nariz enquanto estiver no mercado, nem para coçar, nem para tocar nos cabelos;
3. Pague suas compras no cartão. Não aceite moedas e muito menos notas de papel até depois da pandemia;
4. Guarde álcool em gel e álcool 70% com um rolo de papel toalha no carro. Coloque as compras no porta-malas e, em seguida, abra a porta do carro e passe álcool gel na mão (ainda fora do veículo). Molhe uma folha de papel toalha com álcool 70% e passe no volante, no freio de mão e na alavanca das marchas. Passe também na maçaneta (alavanca) da porta de dentro do carro, nos controles dos vidros e nos controles do rádio. Não faça desinfecção do carro por fora, é necessário sempre considerar que o veículo possa estar contaminado. Feche a porta, sente-se e desfrute a viagem;
5. Higienize os alimentos ao chegar em casa, principalmente aqueles que serão consumidos crus. Lave em água corrente e mergulhe as verduras e frutas em uma solução contendo água sanitária diluída em água. Observe no rótulo da água sanitária a diluição ideal e o tempo necessário para deixar o alimento em imersão. Se não tiver essa informação no rótulo, busque outra marca, pois alguns produtos não devem ser utilizados em alimentos. Depois disso, enxágue com bastante água. Passe álcool 70% em embalagens de alimentos que serão armazenadas.;
6. Caso tenha comprado itens que não são comestíveis, passe um álcool 70% neles ou deixe ao sol direto por duas horas, no mínimo;
7. Sempre que chegar em casa da rua, tire os sapatos e troque a roupa. Lave os braços até o cotovelo. É fundamental ter uma ‘roupa de casa’, e a ‘roupa de rua’ que não quiser lavar diariamente, deixe sempre no mesmo lugar. Volte a vesti-la apenas imediatamente antes de necessitar sair para a rua novamente. Não transite em casa com ‘roupa de rua’.
8. Passe álcool 70% em todas as torneiras das pias de casa uma vez por dia, nas maçanetas das portas e nas chaves de casa e do carro;
9. Passe álcool 70% no seu celular, tablet, notebook, teclados e mouse uma vez por dia. Considere-os sempre sujos (lave as mãos ou passe álcool em gel depois de usar);
10. E, claro, sempre em caso de dúvida: lave as mãos.
Boas compras!

Cannabis em pílulas: o posicionamento médico ético ao raiar de 2020.

John Doe mora no sul da Califórnia, atravessa a rua e entra numa farmácia/super-mercado. Vai buscar sua encomenda feita pela Internet há poucas horas. Mas não pela Amazon, seu código empresarial ainda não permite.

O rótulo diz CBD. Canabidiol, um dos mais de 100 compostos químicos identificados no cânhamo, a planta mais conhecida como maconha. CBD não leva John a ficar numa boa, tetrahidrocanabinol (THC) sim, o componente halucinógeno.

O americano John usa CBD para reduzir dores, dormir melhor e diminuir sua ansiedade no trabalho.

O mercado

Há muito dinheiro a ser feito com CBD, com produtos pipocando a todo momento por toda a Califórnia e em vários Estados americanos. Grandes outdoors ao lado das freeways são onipresentes, não apenas dos cigarros de maconha.

O mercado explodiu, com produtos variando de sais de banho, café, chá a biscoitos para cachorros. O Conselho Botânico Americano atestou que em 2018 CBD foi o suplemento derivado de plantas que mais vendeu nos EUA a partir de locais monitorados por seus conselheiros, suplantando o campeão de vários anos, o “turmeric” (açafrão). O total de vendas do CBD chegou a mais de US$ 52 milhões, mais que o triplo de 2017.

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A visão médica

Com os Johns americanos comprando CBD livremente, pesquisadores sérios passaram a ter preocupações. Quais seriam?

  1. vários produtos no mercado dizem CBD no rótulo, mas em verdade nada contêm da substância (CBD não é regulado pelo FDA em Washington)
  2. outros frascos podem não ter a substância CBD pura, ou então não na concentração oferecida no rótulo – há vários casos relatados na imprensa leiga de intoxicação e morte por óleo de CBD nos EUA, Europa e Austrália
  3. CBD é efetivo? em quais situações médicas? é seguro? é um suplemento – tal qual uma vitamina, ou um remédio?
  4. quais os efeitos colaterais já comprovados na literatura médica?
Foto de anúncio extraido da Internet, billboard na Nova Zelândia.

Foi em meados de 2018 que o FDA aprovou um derivado da Cannabis com CBD como ingrediente ativo, porém apenas para tratamento de 2 formas incuráveis de epilepsia, não responsivas a outros medicamentos tradicionais. Os efeitos secundários anotados naquela oportunidade foram diarréia, aumento das enzimas do fígado, sonolência e menor apetite. A empresa britânica GW Pharma está obrigada a seguir de perto este possível efeito sobre o fígado e a relatar se algo mais grave ocorrer. A vantagem do uso do Epidiolex, nome comercial nos EUA, está justamente na garantia de ser um produto com fórmula sob rígido controle de qualidade, uma vez que é aprovada pelo FDA.

Uma história clínica e um aviso

Paul tem 8 anos e sofre de epilepsia. Seus pais resolveram adotar o CBD como remédio, sem delongas encomendaram via Internet óleo de CBD de um fornecedor no estado do Colorado. Os primeiros 9 dias com CBD foram excelentes, sem qualqur convulsão e o retorno de Paul a uma vida plena de criança, agora energizada e com melhor aproveitamento na escola. No décimo dia de CBD Paul sofre uma convulsão generalizada, a pior que já teve na vida, em pleno colégio. Na emergência médica conseguem controlar o episódio de grande mal epilético após fortes medicamentos intravenosos e outros recursos de sustentação da vida. Após poucos dias os pais de Paul receberam as análises de pureza do produto que compraram: continha um canabinóide sintético cujo efeito secundário é justamente provocar convulsões com as da crise do menino.

Em uma análise independente de 20 produtos mais populares no mercado contendo óleo de CBD, os resultados impressionam:

  1. apenas 3 de fato continham o que a etiqueta dizia
  2. oito produtos continham menos de 20% da concentração de CBD anunciada
  3. altos níveis de solventes e gases em alguns frascos
  4. duas formulações possuiam 0% de CBD!

Assim, a recomendação hoje é a seguinte: a) que os americanos comprem o óleo de CBD vindo da Europa, onde há mais regulação na produção industrial e a contaminação por tetrahidrocanabinol é em torno de 0,2% a 0,3% apenas, b) comprar produtos com rótulos contendo a palavra “orgânico”, certificados pelo Departamento de Agricultura dos EUA como tendo sido testados para herbicidas e pesticidas, e c) adquirir CBD fabricado em empresas certificadas em “Boas Práticas de Manufatura” pelo governo americano.

Estudos científicos

Recentes editoriais de prestigiosas revistas científicas apontam para a legítima falta de estudos científicos criteriosos comprovando os efeitos clínicos propostos para o CBD. “O mercado está anos-luz à frente da ciência”, afirmou um cientista da área.

A maior parte do conhecimento científico se baseia por hora em estudos pré-clínicos. Afora os estudos randomizados em convulsões, outros são observações em poucos pacientes e de rigor metodológico muitas vezes questionável. De fato um trabalho que analisou outras 81 pesquisas, das quais 40 randomizadas, em várias indicações de CBD (em método chamado meta-análise), os autores concluiram por falta de evidências sólidas de efetividade.

No momento há 16 estudos em andamento para examinar a efetividade do CBD em psicoses. Mas depressão, ansiedade e desordem do déficit de atenção não foram objeto de qualquer estudo sério até agora. O Instituto Nacional de Saúde em Washington concedeu US$ 3 milhões para estudos do CBD em casos de dor, com resultados que virão no futuro.

Conclusões

1. Você quer usar CBD para algum sintoma em especial? Tente antes os recursos tradicionais. Principalmente a longo prazo não sabemos ainda os efeitos secundários. Procure não ser cobaia.

2. Use produtos de origem orgânica com procedência européia, pesquise na Internet antes da compra.

3. Crianças, mulheres grávidas e pessoas utilizando múltiplos remédios não devem tomar CBD de forma alguma: o risco é muito grande. Não sabemos o suficiente nessas situações.

4. Caso estiver usando CBD, monitore de perto a função do fígado. Seu médico saberá solicitar os exames adequados de laboratório.

5. Não confie em propaganda de produtos ou comentários dizendo que CBD cura ou alivia doença de Alzheimer, déficit de atenção, dor crônica, mal de Parkinson e ansiedade.

6. Aguarde os resultados de estudos sérios para utilizar CBD, principalmente a longo prazo.

7. Lembre-se que a única indicação precisa hoje dos derivados da Cannabis é em crianças com formas especiais de epilepsia não responsivas a tratamentos tradicionais.

Referência

Este texto é baseado em editorial do JAMA:

Cannabidiol Products Are Everywhere, but Should People Be Using Them? Rita Rubin, MA JAMA. 2019;322(22):2156-2158. doi:10.1001/jama.2019.17361

Novos critérios para classificação diagnóstica das doenças relacionadas ao IgG4

Doenças relacionadas ao IgG4 podem ocorrer em virtualmente todos os órgãos do corpo, constituindo-se em lesões fibroinflamatórias de causa desconhecida, possivelmente com componente autoimune.

Os órgãos mais acometidos são o pâncreas, tireóide, cavidade atrás do peritônio e glândulas salivares e lacrimais.

Grande dificuldade diagnóstica existe, uma vez que em muitos pacientes a IgG4 está em níveis normais no sangue.

Hoje foram publicados os critérios para classificação diagnóstica deste grupo de doenças com o denominador comum de sua relação com a molécula IgG4. São pormenorizados os critérios de exclusão e de inclusão, com seguimento para o diagnóstico em 3 etapas, alcançando sensibilidade de 82% e especificidade de 98% em um grupo de pacientes utilizados para validação.

Tenha o texto completo e gratuito da publicação na Arthritis & Rheumatology, inclusive o pdf, clicando em:

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/art.41120?campaign=wolearlyview

Estou com depressão? Faça seu diagnóstico em 5 minutos.

Sentir-se triste, com pouca energia e com vontade de desaparecer podem ser sintomas comuns, mas você está se encaminhando para uma depressão verdadeira? Daquelas que necessitam auxílio médico ou psicológico especializado?

Um questionário simples com 9 ítens, denominado PHQ-9 e já traduzido para várias línguas, se propõe a fazer uma triagem de casos de depressão. E não apenas isto, também serve para graduar o problema, dizendo por exemplo se a depressão é leve ou severa. Pode também ser aplicado para verificar a evolução do tratamento, se há resposta aos procedimentos e medicamentos propostos.

A depressão é um dos problemas mais comuns vistos na clínica médica, tanto pelo médico de família quanto por especialistas. Reconhecer sua presença e severidade é, portanto, de suma importância para auxiliar de forma correta os pacientes. Em casos extremos até salvar sua vida, devido ao elevado risco de suicídio. De fato este é um dos diagnósticos mais importantes a ser feito, e não deve ser perdido pelos profissionais que se propõem a exercer sua profissão em elevado nível técnico.

O questionário PHQ-9 tem a vantagem de ser auto-aplicável, você senta e tem o diagnóstico inicial em apenas 3 etapas, a ser confirmado depois pelo médico ou psicólogo:

1. você gradua cada ítem com sua resposta (nunca tenho o sintoma, sinto isto em vários dias, sinto em mais da metade dos dias, ou tenho o sintoma quase todos os dias)

2. você soma os pontos, se o resultado for 10 ou mais você está com depressão, daquelas que necessita auxílio psicológico e médico (em termos técnicos, a maioria dos estudos científicos que utilizaram esta escala fixaram 10 pontos como cut-off para diagnóstico correto de depressão)

3. por último, você pode ainda graduar o problema de acordo com a escala abaixo

  • 0 a 4 pontos = não há depressão
  • 5 a 9 pontos = depressão leve
  • 10 a 14 pontos = depressão moderada
  • 15 a 19 pontos = depressão moderadamente severa
  • 20 a 27 pontos = depressão severa

Acesse o questionário em português aqui (em pdf):

https://www.challiance.org/Resource.ashx?sn=PHQ9BrazilPortuguese

Há muitas escalas tentando fazer o mesmo, esta me pareceu prática e, segundo a literatura, confiável. Sua origem é em Cambridge nos EUA, em Departamento de Psiquiatria associado à escola de Medicina de Harvard.

Se você está com sintomas depressivos, aproveite e responda ao questionário. Ou então encaminhe para quem pode ser útil, com certeza a pessoa e a família lhe agradecerão. Lembre-se que apenas o médico poderá lhe auxiliar e orientar o correto tratamento. Por último, e muito importante: depressão severa carrega consigo elevado risco de suicídio e se constitui numa urgência médica – não deixe para amanhã!

Referência

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2753532?guestAccessKey=3dad4211-2b6c-412e-a776-0f586eff3682&utm_source=silverchair&utm_medium=email&utm_campaign=article_alert-jama&utm_content=etoc&utm_term=120319

VOCÊ COLABORA COM O CHARLATANISMO MÉDICO?

Responda à lista abaixo e veja se você poderá ser a próxima vítima.

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Utilize a lista abaixo para saber se você é a próxima vítima potencial. É baseada em técnicas clássicas e exemplos do charlatanismo em vários países, que se repetem porque sempre há incautos com dinheiro e esperança.

O profissional chamou sua atenção ou falou a respeito de qualquer um dos seguintes tópicos?

Apenas uma resposta positiva já deve ser considerada um sinal vermelho! Não seja mais uma vítima!

  1. Uso de palavras e expressões apelativas como “espantoso”, “milagroso”, “melhora imediata”, “remédio natural”, “vigor físico”, “corpo perfeito”, “purificar o corpo”, “detoxificar o organismo”, “aumentar o nível de energia”, “incrementar seu sistema imune”.
  2. Testemunho de pessoa que endossa as afirmações, muitas vezes uma modelo, artista, desportista ou outro médico famoso. Os Conselhos de Medicina proibem o uso de pacientes e seus testemunhos como propaganda médica.
  3. O chamado à “teoria da conspiração”: outros profissionais, instituições ou empresas não querem que você saiba de “curas” ou acerca do tratamento proposto porque perderiam dinheiro.
  4. Venda de publicação ou livro próprio que propagandeia os tratamentos oferecidos, em substituição à literatura científica com evidências em dados de pesquisas sérias, conduzidas em centros médicos internacionais de excelência.
  5. Dietas originais, secretas, e spas que aliviam ou curam seus sintomas ou doença, com excesso de exames de laboratório, testes de imagem, além de tratamentos inflacionados por caros suplementos ou métodos alternativos.
  6. Afirmações de cura ou da possibilidade de você cessar seu   tratamento para reumatismos, doenças autoimunes ou câncer.
  7. Anúncio de produto único que irá resolver uma grande variedade de doenças: estes em geral não tratam nenhuma delas de forma eficaz, você deve pagar antecipado, pode-se comprar e levar um bônus ou outro produto grátis, ou então o produto tem estoque limitado.
  8. Consultas longas e minuciosas, com porções generosas de carinho e falsas expectativas para o tratamento, culminando com extensos, caros exames, e enormes receitas de suplementos e vitaminas.
  9. Uso de suplementos ou fórmulas secretas que devem ser ingeridos indefinidamente, com custo elevado e preparo “que só pode ser feito” em local indicado, caso contrário “não funciona”.
  10. Anúncios tipo “garantia de retorno de seu dinheiro”, algo inexistente na Medicina e considerado infração grave do Código de Ética da profissão.
  11. Ostentação e glamourização, com atendimento em clínicas e spas luxuosos frequentadas por famosos, passando imagem de alto sucesso nas midias sociais, TV e jornais.
  12. Ênfase na polarização entre “Medicina tradicional e retrógrada” e a “Medicina nova, moderna e inovadora”, muitas vezes com uso de máquinas luminosas de nomes pomposos e pseudo-científicos.

PRIMEIRA CONSULTA COM O MÉDICO

COMO PROCEDER PARA EXTRAIR O MELHOR DO MÉDICO E FAZER UMA CONSULTA COMO VOCÊ ESPERA

Você tem uma consulta marcada, está nervoso desde já e quer usar o melhor possível seu tempo com o profissional. Recomendo 2 passos:

  1. assista ao vídeo “Como falar com o médico” no canal do YouTube, clique no link https://www.youtube.com/watch?v=zEpl3bLytLE&list=PLNwtw649EU4-xVQZ2Vfbk-IvB8y76Sml4&index=5&t=0s. Enquanto estiver lá, assine o canal para receber atualizações e novos vídeos interessantes
  2. veja o questionário abaixo (clique no link para o pdf ao final). Você pode preenchê-lo, fazer uma cópia e entregar ao médico no início de sua consulta.

Este questionário contém o que os médicos chamam “História de Doenças Passadas” e “Revisão de Sistemas”, ou seja, todas as informações importantes sobre sua saúde, desde que nasceu até o momento da consulta.

São dados indispensáveis para o médico entender melhor o paciente. Além disso, muitas vezes o diagnóstico se encontra nos dados que você irá informar. Por exemplo, você anotou na seção de doenças de pele que tem psoríase há 5 anos e está consultando porque imagina estar com artrite. O médico imediatamente fará a ligação entre os 2 sintomas e irá ponderar a hipótese de artrite psoriásica como diagnóstico final.

Por último, estas duas seções muito importantes da consulta tomam tempo considerável para o médico perguntar, e você pode imaginar desde já que nem todas as informações importantes estarão expostas, portanto, durante a consulta. Você já levando todos os dados de “História de Doenças Passadas” e “Revisão de Sistemas” estará contribuindo sobremaneira com seu médico. E com você mesmo em última instância.

Clique no link abaixo para abrir o questionário e imprimi-lo:

Questionário para sua primeira consulta médica

 

Belimumabe (Benlysta): eficácia se mantém e segurança está garantida após 13 anos de uso no lúpus.

Belimumabe tem indicação para um perfil específico de pacientes lúpicos, como adjuvante após a falha terapêutica dos tratamentos com corticóide, imunossupressores e antimaláricos.

Muito importante o estudo publicado hoje sobre belimumabe para pacientes com lúpus eritematoso sistêmico e que estejam em uso do remédio. O trabalho envolveu vários centros, com 298 pacientes recebendo infusões sequenciais do belimumabe e 1/3 desses completando até 13 anos de acompanhamento.

Resultados

O porcentual de indivíduos que teve efeitos adversos permaneceu estável ou foi caindo com o tempo. O índice de infecções também não se modificou com o passar dos anos e anticorpos protetores (IgG) medidos no sangue não diminuiram. No ano 1 do estudo 33% dos lúpicos atingiram índices clínicos de boas e ótimas respostas, subindo para 76% no ano 12. A dose de corticóides diminuiu para aqueles que utilizavam mais de 7,5 mg de prednisona no início do acompanhamento.

Conclusões

Esta publicação relata o maior tempo já acompanhado de uso do remédio belimumabe em pacientes lúpicos. Houve boa tolerância, sem surgimento de novos ou inesperados efeitos colaterais, e com eficácia se mantendo por 13 anos. Os pacientes que respondem inicialmente bem ao belimumabe podem manter o medicamento a longo prazo, o tratamento continuará a ser efetivo, seguro e com bom controle da doença.

Meus comentários

Este é o primeiro remédio oficialmente aprovado para tratamento do lúpus eritematoso sistêmico em mais de 30 anos. O trabalho tranquiliza médicos e pacientes sobre o uso a longo prazo do belimumabe, embora o número de pacientes efetivamente mantendo o remédio tenha sido bem menor do que gostaríamos: 476 pessoas com lúpus no estudo inicial, dos quais 298 seguiram o acompanhamento a longo prazo, e dos quais apenas 96 permaneceram até o final. Sabemos que muitos lúpicos não respondem ao belimumabe, o efeito benéfico pode se perder ao longo do tempo, ou alguns efeitos secundários comandam sua cessação. Mas é sempre importante termos mais um medicamento no armamentário contra o lúpus, vários pacientes poderão se beneficiar.

Para médicos, um pouco de imunologia

Belimumabe é um anticorpo monoclonal IgG1 cujo alvo é Blys. Blys é uma proteina solúvel indutora de linfócitos B, também tida como fator de sobrevivência para células B. Belimumabe se liga a Blys em circulação e impede sua ligação ao receptor na superfície de linfócitos B, inibindo assim a sobrevivência de células B, incluindo as autoreativas. Com este mecanismo inibitório não há transformação de linfócitos B em plasmócitos e, consequentemente, não há produção de autoanticorpos. As indicações para uso de belimumabe no lúpus são debatíveis, converse com o reumatologista antes de usar em qualquer paciente.

Referências

Consulte a bula aqui: https://consultaremedios.com.br/belimumabe/bula

Artigo original: Daniel J WallaceEllen M GinzlerJoan T MerrillRichard A FurieWilliam StohlW. Winn ChathamArthur WeinsteinJames D McKayW Joseph McCuneMichelle PetriJames FettiplaceDavid A RothBeulah JiAmy Heath.First published: 16 February 2019 https://doi.org/10.1002/art.40861

OBS – esta postagem tem objetivo meramente educativo, não houve recebimento de honorários de qualquer natureza para sua publicação.

Sexo e qualidade de vida em pacientes com espondilite na era dos biológicos.

Mesmo com os remédios mais modernos a vida não é a mesma para quem tem espondilite.

Cientistas da Noruega acabam de publicar na revista canadense Journal of Rheumatology um interessante trabalho feito em homens e mulheres com diagnóstico de espondiloartrite axial. A este grupo de doenças pertence a espondilite anquilosante, a espondilite por psoríase ou por doenças inflamatórias intestinais e a sacroileite indiferenciada, todos reumatismos inflamatórios da coluna e bacia.

Objetivo do trabalho

O objetivo foi explorar as associações entre dados pessoais, variáveis atribuíveis à doença, tipo de tratamento e qualidade de vida sexual em homens e mulheres padecendo de espondiloartrite axial.

Quem foi estudado

Foram incluidos 360 pacientes, 240 homens e 120 mulheres, com idade média de 45,5 anos e espondilite com duração média de 13,9 anos. Desses, 78% eram casados ou residiam com cônjuge, 27% fumavam, 71% estavam empregados, 86% faziam mais de 1 hora de exercícios por semana e 88% tinham o marcador genético HLA-B27, típico de espondilite.

Resultados

Quase a metade (44%) usava anti-inflamatórios sem corticóides, 5% usavam remédios modificadores de doença como o metotrexate e 24% usavam remédios biológicos.

Após análise estatística rigorosa, os escores mais baixos de qualidade de vida sexual ocorreram em mulheres, naquelas com sobrepeso, nos indivíduos com medidas de atividade de doença alteradas (aumento de proteina C reativa ou de índices clínicos similares ao BASDAI – muito conhecido de quem tem a doença) e em uso de tratamento com remédios biológicos.

Conclusão

Pacientes noruegueses com espondilite e doença mal controlada, ainda em processo inflamatório, têm baixa qualidade de vida sexual, mesmo na vigência de tratamento biológico.

Minha mensagem

Sem dúvida outros fatores concorrem para a vida sexual saudável de pacientes com doenças inflamatórias da coluna, principalmente as espondilites, mas é indispensável batalhar pelo controle completo dos sintomas. Isto certamente é possível e parte de uma saudável relação médico-paciente, com confiança nos tratamentos, e na busca incessante pelo melhor remédio biológico para cada pessoa. Não funcionou o primeiro ou o segundo, siga a luta com outro novo recurso terapêutico. Novos biológicos com distintos mecanismos de ação estão lançados a cada momento e raríssimos são os causas sem resposta adequada ou com efeitos colaterais sérios a todos os remédios.

Deixar-se levar pela dor e pela depressão secundária à doença crônica leva à espiral da ansiedade, desvalia, pensamentos negativos e a um buraco sem fundo. Lembre-se que a primeira regra para quem está no buraco é parar de cavar!

Sua qualidade de vida, incluindo a esfera sexual, retornará à normalidade com o controle da espondilite. E transar faz muito bem!

Artigo original

Sexual quality of life in patients with axial spondyloarthritis in the biologic treatment era. Kari Hansen Berg, Gudrun Rohde, Anne Prøven, Esben Esther Pirelli Benestad, Monika Østensen and Glenn Haugeberg. The Journal of Rheumatology February 2019, jrheum.180413; DOI: https://doi.org/10.3899/jrheum.180413.

As fraudes na área da saúde: como se proteger do charlatanismo disfarçado de medicina alternativa, 3a. parte.

Vários exemplos de charlatanismo médico comprovados­ ao longo da história.

Esta é uma lista parcial tomada da Wikipedia e outras fontes com casos famosos de charlatanismo pelo mundo. Muitos foram presos, pagaram indenizações milionárias a suas vítimas e perderam sua licença médica. Outros eram apenas negociantes ou aventureiros, com certeza grandes artistas. Note a persistência de temas como energias curativas estranhas à ciência, megadoses de suplementos  e a onipresença de dietas secretas que curam. Veja também a incrível coincidência com as propostas naturebas de hoje em dia.

  • Thomas Allinson (1858 – 1918, Escócia) – criador da “Naturopatia”, com forte oposição ao uso de vacinas; houve retorno recente desta tese tendo vacinas como causa de autismo – o autor teve que se retratar após processo legal, havia falsificado dados de pesquisa
  • Johanna Brandt (1876 – 1964, África do Sul) – “Cura das uvas” para o câncer
  • John Brinkley (1885 – 1942, EUA) – inventou o transplante de testículos de cabra em homens para cura da impotência, demência, flatulência, pressão alta, doenças mentais e várias outras condições; comprou uma estação de rádio e seu negócio explodiu: chegou a fazer 16.000 cirurgias até sua clínica ser fechada por charlatanismo
  • Hulda Clark (1928 – 2009, EUA) – naturopata, uma das criadoras da chamada medicina alternativa
  • Max Gerson (1881 – 1959, Alemanha e EUA) – “A Dieta de Gerson” para cura de câncer e da maioria das doenças crônico-degenerativas
  • Samuel Hahnemann (1755 – 1843, Alemanha) – fundador da homeopatia, todas as doenças são causadas por “miasmas” definidos como irregularidades na “força vital” do paciente; todas as pesquisas científicas feitas com rigor mostram que a homeopatia tem forte efeito placebo
  • Lawrence Hamlin (1916, EUA) – “Óleo Milagroso” para cura do câncer
  • William J. A. Bailey (EUA) – fundou a Radium Company, cujo carro-chefe de vendas era o “Radithor”, substância radioativa que poderia “invigorar” seus pacientes; o produto era o rádio, descoberto por Marie Curie na França, diluido em água; outros produtos eram o peso de papel e uma fivela para cintos com rádio, para “energia portátil”; não sabemos quantos pacientes morreram de câncer pela radioatividade cumulativa
  • L. Ron Hubbard (1911 – 1986, EUA) – criador da igreja da cientologia e da “dianética”, ideias e práticas metafísicas relacionadas ao corpo e alma e praticadas pela cientologia, Nação do Islã e grupos independentes dianeticistas
  • William Donald Kelley (1925 – 2005, EUA) – criador da “Terapia Metabólica Inespecífica”, dizia que “alimentos incorretos causam crescimento de células malignas, enquanto que alimentos corretos permitem que as defesas naturais do corpo possam atuar”
  • John Harvey Kellog (1852 – 1943, EUA) –considerado o pai do movimento atual para dietas naturais e medicina holística; internava pacientes num Spa carésimo onde os pacientes recebiam dieta vegetariana, exercícios regulares com especial atenção à respiração, sem álcool ou tabaco, preparados com enzimas pancreáticas, 50 vitaminas e suplementos diários (incluindo laetrile ou amigdalina, substância do caroço de algumas frutas que seria a chave para a cura do câncer); era fã dos enemas de limpeza, utilizando uma máquina que injetava litros de água e yogurte no intestino em tratamentos seriados; acreditava que todas as doenças vinham do intestino e pregava abstinência sexual com aplicação de ácido carbólico no clitóris para reduzir o prazer sexual; vegetariano convicto, inventou os flocos de cereais e fundou com seu irmão a fábrica Kellog’s
  • Franz Anton Mesmer (1734 – 1815, Alemanha. Áustria e França) – cura pelo “magnetismo animal” para corrigir imbalanços no fluido universal do corpo; os crédulos eram colocados numa arena com show envolvendo cantos, música, efeitos de luz e cenografia até o clímax do enredo, quando as pessoas tinham uma “crise magnética” e sairiam curadas; esta a origem da palavra “mesmerizado”
  • Theodor Morell (1886 – 1948, Alemanha) – médico pessoal de Hitler, administrava ao ditador 74 substâncias em 28 misturas distintas, incluindo heroina, cocaina, pílulas anti-gás, brometo de potássio, papaverina, testosterona, vitaminas e enzimas animais; Hitler o recomendou a outros líderes nazistas como Himmler e Goebbels, que o descartaram como charlatão
  • Daniel David Palmer (1845 – 1913, EUA) – inventor da quiropraxia, baseada no princípio de que todas as doenças podem ser curadas por correção do desalinhamento da coluna vertebral; a teoria é que o corpo possui um fluido com “inteligência inata” que pode ser liberado a partir da manipulação da coluna e que iria até o órgão doente para curá-lo; também curava por técnica de “mãos magnéticas”; pessoalmente vi pacientes com fratura da coluna após as intempestivas manipulações, uma médica cardiologista inclusive sendo levada de ambulância para descompressão da medula dorsal. Uma vértebra quebrou com o movimento brusco da manipulação e de imediato ficou paralisada da cintura para baixo. Como médica deu-se conta imediata da gravidade da situação, chamou ambulância e avisou o hospital, conseguindo se salvar com neurocirurgia de emergênica – iria ficar em cadeira de rodas o resto de sua vida
  • Linus Pauling (1901 – 1994, EUA) – criador da medicina ortomolecular, com megadoses de vitamina C para cura do câncer e da gripe; faleceu de câncer, embora tomasse até 8 g de vitamina C diariamente; ganhou prêmio Nobel de Medicina por suas contribuições químicas (não pela arte médica)
  • John Henry Pickard (1866 – 1934, EUA) – extrato de herva Sanguinaria, para “cura de pneumonia, tosse, pulmões fracos, asma, problemas de estômago, rins, fígado, bexiga e tônico altamente eficaz para o sangue e nervos”
  • Wilhelm Reich (1897 – 1957, Áustria e EUA) – cura pela “energia cósmica primordial”, que ele chamava “Orgone”, inventor do “Acumulador de Orgônio” para cura do câncer, manipulação do clima e combate a alienígenas do espaço
  • Stanislaw Burzynski (ainda vivo, EUA) – inventor de “antineoplastons” para cura do câncer no Texas; responde a vários processos e é alvo do FDA
  • Ann Louise Gittleman (ainda viva, EUA) – perda de peso por “dietas da moda” de rápido efeito, aliada a “detoxificação” e “radiação eletromagnética”; formada na “Faculdade Clayton de Saúde Natural”, fechada por distribuir diplomas de fachada a pessoas que depois exerciam várias formas de charlatanismo
  • Kevin Trudeau (ainda vivo) – dietas da moda para perda de peso e cura de várias doenças; publicou vários livros com vendas milionárias após propagandas na TV; preso atualmente no estado do Alabama por não pagar sentenças a pacientes que o acionaram na justiça em valores perto de US$ 8 milhões
  • Tullio Simoncini (ainda vivo, Itália) – proclama que o câncer é causado por Candida albicans (gera o popular sapinho na boca de nenês e corrimento vaginal em mulheres adultas), que cresceria dentro dos tumores; promove a “cura através de injeções de bicarbonato de sódio”; condenado em 2006 por morte de paciente devido às injeções
  • Belle Gibson (ainda viva, Austrália) – escreveu sobre a cura de seu câncer no cérebro atavés de terapias alternativas e dietas especiais; condenada por tribunais australianos após se descobrir que nunca esteve doente e que fraudava contribuições a instituições de caridade
  • Bernard Jensen (EUA) – criador da “iridologia”, onde as cores escuras da íris da pessoa (parte colorida do olho) representariam órgãos doentes; em verdade a pessoa nasce e morre sem qualquer alteração na cor de seus olhos ou desenho da íris, razão pela qual é a parte do corpo utilizada hoje nos mais sofisticados sistemas de identificação pessoal; prescrevia dietas da moda e suplementos até hoje vendidos com seu nome; seguidores da família promovem enemas de limpeza e vários outros produtos alternativos em site próprio da Internet
  • Genésio Pacheco da Veiga (Espírito Santo, Brasil) – não poderia faltar um tupiniquim famoso em nossa lista; criador da vacina da brucelose para cura de diversas formas de reumatismo, como artrite reumatoide, lúpus, artrose, esclerodermia, artrite psoriásica, gota e até lesões por esforços repetitivos; sua teoria dava conta que todos os reumatismos são produzidos pela doença bovina brucelose, que raramente infecta seres humanos; as injeções em doses crescentes ainda são vendidas, após propaganda nos classificados de jornais de maior circulação no país, ultimamente pela Internet e em forma de comprimidos. Após criança com artrite juvenil me procurar com deformidades severas, sem poder caminhar, e 2 anos de tratamento com o método alternativo, conseguimos fechar uma clínica de representação das vacinas no sul do país, em ação conjunta com o Conselho Regional de Medicina
  • Jessé Teixeira (Rio de Janeiro, Brasil) – criador e propagador da “autohemoterapia” na década de 1930, para cura de várias doenças; técnica proibida no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina, com riscos e sem qualquer comprovação científica; desde que me formei já presenciei três ondas de ressurgimetno da autohemoterapia, a última há poucos anos e com maior intensidade devido à Internet; excelente terapia para estudo do efeito placebo
  • Pierre Delbet (1862 – 1957, França) e Padre Beno José Schorr (falecido em 2005, Brasil)– o francês é inventor da “Magnesioterapia” para cura do câncer, com propriedades disseminadas pelo padre desde a década de 80 no nosso país; tratamento e cura dos reumatismos e várias outras doenças; método barato e de fácil obtenção sem receita médica, boa parte de meus pacientes utilizam o magnésio “porque mal não faz”, mas continuam tendo que consultar; minha observação aqui é que, se magnésio funcionasse para reumatismos, os consultórios de reumatologistas estariam vazios – infelizmente a verdade é o oposto.

As fraudes na área da saúde: como se proteger do charlatanismo disfarçado de medicina alternativa, 2a. parte.

Usando o efeito placebo como prova dos tratamentos

Vejo um grande número de médicos e outros profissionais anunciando nas mídias sociais uma Medicina adjetivada, que passa longe dos princípios mais nobres da profissão. Medicina ortomolecular, Medicina integrativa, Medicina funcional, Medicina holística, Medicina complementar, “Anti-aging” (anti-envelhecimento) e tantos outros termos passam a se integrar a novas promessas de melhora e cura de males crônicos dentro da Odontologia funcional, Nutrição funcional… e adjetive a área do conhecimento que você quiser.

Por trás de uma pseudociência e palavrório difícil, consultas minuciosas com horas de duração, com listas enormes de testes laboratoriais complicados e produtos terapêuticos de nomes mais ainda – e, claro, que só podem ser comprados onde indicado (a maioria das vezes na própria clínica ou pela Internet), esconde-se o interesse pecuniário maior e a confiança de que o efeito placebo existe e funciona.

De fato, nas pesquisas científicas mais sérias comprova-se que em mais de 30% das pessoas há melhora ou desaparecimento de sintomas no grupo que recebeu pílulas de farinha (placebo inerte, sem qualquer função biológica). Por exemplo, quando foram testadas as pílulas de nitrato para angina, mais de 1/3 das pessoas no grupo com placebo tiveram redução da forte dor no peito. Justamente por isso é sempre necessário comparar-se o remédio novo em um grupo que apresenta a doença contra outro grupo com a mesma doença recebendo placebo. E note que os métodos revolucionários propalados pelo charlatanismo nunca sofreram o rigor de tais estudos, não estão publicados. A Medicina tradicional não os entende porque são muito novos e originais, ou a indústria farmacêutica e os médicos tradicionais os escondem porque perderiam seus ganhos – a tradicional e bem difundida teoria da conspiração, que visaria deixar você como sofredor crônico.

“A ciência é a base da medicina e a comprovação científica a base das práticas terapêuticas que devem ser utilizadas. A chamada medicina alternativa foge da ciência, não busca a comprovação experimental e coloca em risco a saúde dos que a utilizam”, Dr. Sergio Ibiapina, presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM). O CFM aprovou as resoluções 1.499 e 1.500 proibindo médicos de praticar a chamada medicina alternativa e ortomolecular, trazendo novos adjetivos ao mercado como nomes substitutos (Medicina funcional, Medicina integrativa, medicina holística e outras), burlando assim as resoluções.”

Assim, se você tem um frasco com água colorida vendido com toda a sua arte de persuasão como solução para o problema de várias doenças, estatisticamente você estará auxiliando 30% das pessoas que compram seu produto. Estes por sua vez irão lhe auxiliar a espalhar a boa nova de “cura milagrosa” e trazer uma clientela crescente. No dia em que os outros 70% se derem conta do seu esquema (a fraude), você já estará milionário em outras paragens, já terá inventado um novo placebo, ou já estará no céu.

No caso de doenças autoimunes com dores reumáticas os esquemas fraudulentos até parecem funcionar porque os sintomas costumam ir e vir aleatoriamente, muitas vezes ao sabor das emoções e convicções. Você acha que o novo tratamento está funcionando, quando em verdade é apenas o ir e vir natural dos sintomas da artrite. Na maioria de meus pacientes os sintomas melhoram de forma marcada quando em férias nos melhores hotéis, estações termais e navios de cruzeiro, longe das preocupações do dia-a-dia.

Veja este exemplo de depoimento recebido por Email há poucos dias, dando conta de terapia alternativa da moda no Brasil e típica de efeito placebo, a autohemoterapia, com meus comentários mais adiante.

“Minha história com a Esclerodermia começou em 2004 quando metade do meu corpo tornou-se uma espécie de lixa. Braços, tórax e pernas foram tomados. Manchas esbranquiçadas apareceram principalmente nos braços. Dores articulares nos dedos e punhos. A pedido do Dermatologista fiz biopsia de amostra da pele de um local mais afetado. O resultado foi Esclerodermia ainda localizada.  O médico me informou que não tinha cura e que teríamos que tratar com corticóides. O médico me pediu uns dias para pesquisar a melhor droga a ser utilizada. Neste ínterim recebi de presente um DVD de uma amiga: Conversa com Dr. Luiz Moura sobre Autohemoterapia. Neste DVD ele afirmava que curava pessoas que estavam com a doença somente com este tratamento. Para quem não sabe é a retirada de 10 ml de sangue da veia e a imediata aplicação no músculo uma vez por semana.  De imediato acreditei no assunto e no mesmo dia iniciei as aplicações. Após um mês, ou seja 4 aplicações, a diferença já era visível. A pela melhorou muito e as dores desapareceram. Voltei ao médico, que mesmo vendo o resultado do tratamento, disse que era um risco muito grande já que não havia nenhuma comprovação científica a respeito. Assumi inteira responsabilidade, continuei as aplicações e após mais 4 semanas a pele voltou ao normal. Ou seja, no meu caso, a Autohemoterapia curou a doença em 2 meses. Suspendi as aplicações por 3 meses e não voltou mais. Hoje, após 15 anos, continuo tomando regularmente porque percebi que muitos desconfortos desapareceram. É difícil gripar ou resfriar e quando acontece os sintomas desaparecem rapidamente. Minha pele melhorou, tanto que hoje, 2019, tenho 63 anos e todos afirmam que pareço estar com 50 anos. Claro que não posso afirmar que todos que resolverem se tratar com Autohemoterapia vão se curar, porque depende de outros fatores que não vem ao caso, mas afirmo: vale a pena tentar.”

E meus comentários ao cidadão:

“Prezado Sr., grato pela mensagem e por seu depoimento. Fico feliz que seu problema tenha sido resolvido logo no início. Há 4 dados que necessito lhe passar, importantes para estarmos sempre em benefício da verdade:

substitua “autohemoterapia” na sua mensagem por “garra do diabo”, “terapia detox”, “enemas de purificação” e o resultado positivo seria o mesmo – temos vários depoimentos exatamente como o seu, com cura descrita por esses outros métodos ditos alternativos

o efeito placebo ocorre em até 1/3 das pessoas que utilizam qualquer terapia, tradicional ou alternativa, um número bastante elevado; isto torna indispensável que para cada método de terapêutica se façam estudos científicos com vários pacientes diagnosticados exatamente com a mesma doença, um grupo recebendo a nova droga, remédio ou nova técnica, contra um grupo recebendo placebo

várias doenças autoimunes aparecem e desaparecem naturalmente, ou seja, seguem um curso autolimitado, independente do que a pessoa fizer de tratamento

– por último, e algo de grande importância para seu depoimento, há vários diagnósticos diferenciais de esclerodermia da pele, quando outros órgãos internos não são afetados. Ou seja, a biópsia de pele diagnostica “esclerodermia”, e o trabalho do médico deve ser ato contínuo descobrir qual o tipo exato, através de outros exames subsidiários. Além da forma autoimune, que seu médico diagnosticou e inclusive lhe prescreveu corticóide, há as seguintes formas de esclerodermia, todas podendo ser autolimitadas (ou seja, desaparecem espontaneamente em vários casos): escleredema, escleredema de Buschke, escleromixedema, mucinose papilar, gamopatia monoclonal benigna, amiloidose de cadeias leves, fasciite eosinofílica, mixedema por hipotireoidismo (doença de Hashimoto autolimitada), fibrose sistêmica nefrogênica (após exame de ressonância magnética com contraste), esclerodermia por drogas.

Acredito que seu médico se baseou apenas no exame de anátomo-patologia, a julgar pelo seu depoimento, e não foi adiante na investigação, preferindo lhe passar o curso mais fácil de tratamento – corticóides. Duas linhas de raciocínio no nosso ver equivocadas: diagnóstico incompleto e tratamento apressado.

A autohemoterapia foi inventada na década de 30 do século passado no Rio de Janeiro pelo Dr. Jessé Teixeira, e desde então aparece e desaparece ciclicamente do noticiário. O método é bem simples, como descreves, barato, e funciona em várias pessoas (de acordo com as premissas que escrevi acima). Assim, se de fato resolvesse os diversos casos de doenças crônicas para os quais é proposta, incluindo as doenças autoimunes, teríamos um sem número de pessoas curadas e os consultórios médicos quase vazios. Por exemplo os de reumatologistas. 

Posso lhe assegurar que não é o caso, a maioria dos pacientes que fazem autohemoterapia tiveram que continuar seu tratamento tradicional para esclerose sistêmica, lúpus, artrite reumatoide e tantas outras. Por não ser mais eficaz que o placebo, e por apresentar alguns riscos, o Conselho Federal de Medicina proibiu a técnica no Brasil.

Portanto, em benefício da verdade e de várias outras pessoas desesperadas por cura, no futuro quando der seu corajoso depoimento público, espero que contemple e descreva em sua mensagem os aspectos esclarecedores que tive o cuidado de lhe enumerar. Com cordiais saudações, pedindo excusas por ter lhe tirado de sua zona de conforto”.

As coisas são quase sempre mais complicadas do que o público leigo acredita. Se o primeiro médico não lhe traz confiança, logo lhe prescreve um corticóide sem explicar exatamente seu problema, ou incorre em práticas não ortodoxas como as explicadas aqui, procure de imediato outro profissional.