Autor: Dr. von Mühlen

Médico Reumatologista e Patologista Clínico, especialista em clínica médica, reumatismos, doenças autoimunes e técnicas de diagnóstico laboratorial.

Vacinas são causa de autismo? NÃO!!!

Tendo como base a situação de muitos pais não vacinarem seus filhos com medo que vacinas contra sarampo, caxumba e rubéola provoquem autismo, pesquisadores da Dinamarca acompanharam 657.461 crianças nascidas de 1999 até 2010.

Pouco mais de 6.500 crianças desenvolveram autismo no período de observação (129 novos casos por 100.000), com distribuição igual nos grupos de crianças vacinadas ou não vacinadas. Também não houve aumento do diagnóstico de autismo em a) famílias com outras crianças com a doença, b) com fatores de risco (definidos no trabalho) ou c) recebimento de outras vacinas.

A conclusão dos autores é que este estudo dá forte suporte à noção de que vacinas não geram autismo, não são desencadeadoras de autismo em crianças suscetíveis (com casos na família), nem vacinação gera grupos de crianças autistas em determinadas áreas geográficas.

O número de crianças e o período de tempo de observação confere grande poder estatístico às observações.

Referência original em inglês:

https://annals.org/aim/fullarticle/2727726/measles-mumps-rubella-vaccination-autism-nationwide-cohort-study

Os cuidados médicos para pacientes transgênero

Pessoas transgênero (ou gênero-incongruentes) possuem identidade de gênero que difere de seu sexo conforme anotado ao nascer (geralmente determinado por inspeção dos genitais). Estudos indicam que 0,6% dos adultos nos EUA caem nessa definição, o que equivaleria a mais de 1,1 milhão de pessoas.

Trata-se de uma população que não deve ser desconsiderada em suas condições médicas muitas vezes únicas, com dificuldades de acesso a cuidados por profissionais médicos instruidos condizentemente.

Edição recente da revista médica Annals of Internal Medicine traz artigo com boas orientações aos médicos que têm interesse na área, com livre acesso ao texto completo:

https://annals.org/aim/fullarticle/2737401/care-transgender-patient

Novos critérios para classificação diagnóstica das doenças relacionadas ao IgG4

Doenças relacionadas ao IgG4 podem ocorrer em virtualmente todos os órgãos do corpo, constituindo-se em lesões fibroinflamatórias de causa desconhecida, possivelmente com componente autoimune.

Os órgãos mais acometidos são o pâncreas, tireóide, cavidade atrás do peritônio e glândulas salivares e lacrimais.

Grande dificuldade diagnóstica existe, uma vez que em muitos pacientes a IgG4 está em níveis normais no sangue.

Hoje foram publicados os critérios para classificação diagnóstica deste grupo de doenças com o denominador comum de sua relação com a molécula IgG4. São pormenorizados os critérios de exclusão e de inclusão, com seguimento para o diagnóstico em 3 etapas, alcançando sensibilidade de 82% e especificidade de 98% em um grupo de pacientes utilizados para validação.

Tenha o texto completo e gratuito da publicação na Arthritis & Rheumatology, inclusive o pdf, clicando em:

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/art.41120?campaign=wolearlyview

As 10 especialidades médicas com mais ações na justiça.

Saiu hoje nos Estados Unidos resultados de pesquisa anual sobre as especialidades com maiores problemas judiciais, em levantamento do site Medscape. Foram 4360 médicos entrevistados em 29 especialidades médicas. Veja abaixo:

1. Cirurgia geral
2. Urologia
3. Otorrinolaringologia
4. Obstetrícia e Ginecologia
5. Cirurgia especializada (neurocirurgia, ortopedia, etc)
6. Radiologia (intervencionista)
7. Medicina de Emergência
8. Cardiologia
9. Gastroenterologia
10. Anestesiologia

De imediato pode-se notar que são especialidades onde os procedimentos intervencionistas são mais praticados e necessários.

Quais os motivos das ações na justiça? Veja a seguir:

– falha no diagnóstico ou sua demora 33%
– complicações de cirurgia ou tratamento 29%
– maus resultados ou progressão de doença 26%
– falha em tratar ou demora no tratamento 18%
– morte por falha médica 16%
– lesão ou injúria anormal 11%
– falha na documentação de instrução e educação do paciente 4%
– erro na administação de remédios 3%
– falha em seguir procedimentos de segurança 2%
– falta de consentimento informado 1%
– outros 11%

Fácil de se observar que a soma está acima dos 100%, ou seja, vários pacientes ou seus familiares entram com ações alegando mais de um tipo de problema. As alegações são as mais variadas, como estas:

“Fiz um procedimento e após 4 semanas retirei a ponta de uma agulha que quebrou e estava no ferimento, o paciente me acionou na justiça”, disse um alergista/imunologista.

“Após a prótese de quadril ficou uma diferença de 0,6 cm no comprimento de uma perna em relação à outra. O paciente entrou com ação indenizatória porque diz ter sido prejudicado na atividade sexual com sua esposa”, afirmou um ortopedista.

Mais da metade dos médicos envolvidos disseram ter sido pegos de surpresa pelas ações judicias (52%), mas 14% não se impressionaram em nada com o acontecido. Outros 34% ficaram “de certa forma surpresos”.

A grande maioria dos médicos achou-se injustiçada (83%) com as queixas dos advogados; 11% não estavam seguros se os processos eram justificáveis e 6% responderam que estava correto terem sido processados. Um médico de família assim justificou seu posicionamento: “As complicações poderiam ter sido completamente evitadas se o paciente tivesse seguido as orientações fornecidas por mim”.

Embora 36% das ações tenham sido concluidas com acordo entre as partes, em quase metade dos casos o ganho foi do profissional médico: 47%. Vários casos permanecem em julgamento.

Por que os processos judiciais ocorrem contra os médicos? A opinião dos profissionais da Medicina é bem interessante:

– 71% acreditam que os pacientes não entendem os riscos envolvidos em procedimentos médicos
– 63% afiraram que os paciente entram na justiça para obter algum ganho e colocar a culpa no profissional
– 25% crêem ser resultado do marketing promovido por advogados
– 23% têm certeza que pacientes querem ganhar dinheiro fácil
– 9% afirmam que os próprios médicos e os hospitais cometem muitos erros.

Pelo menos a metade dos médicos entrevistados acredita que um melhor relacionamento com o paciente e mais tempo dedicado à explanação das condutas e procedimentos teriam evitado o processo judicial.

Será muito diferente no Brasil?

https://www.medscape.com/slideshow/2019-malpractice-report-6012303?src=ban_malpractice2019_desk_mscpmrk_hp

Lúpus: mais remédios para controle dos sintomas ou tratar a cuca antes de mais nada?

As proteinas alteradas no sangue do paciente com lúpus: o pico mais à direita está muito aumentado, refletindo a elevação dos anticorpos dirigidos contra a própria pessoa.

Distúrbios do sono e sintomas depressivos podem ser responsáveis por dor e perda de atenção, memória e concentração no lúpus. O tratamento é com Terapia Cognitivo-Comportamental antes de remédios!

Para saber o que exatamente está envolvido na dor e nas alterações ditas cognitivas (como atenção, memória, orientação) do lúpus eritematoso sistêmico (LES), 115 pacientes foram estudados em Baltimore, EUA.

Como foi feito o estudo?

Todos os pacientes preencheram questionário sobre dor, percepção de estresse, depressão, sono e alteração das funções mentais (chamada disfunção cognitiva). Os autores cuidaram para que as conclusões não fossem alteradas pela presença de fibromialgia, raça do paciente, uso de corticóides (remédios que modificam as funções mentais positiva ou negativamente, conforme o indivíduo), atividade da doença e nível de estresse percebido pelas pessoas.

Resultados

Análises estatísticas sofisticadas (neste caso denominadas análises de mediação) indicaram que os sintomas de dor e de funções mentais alteradas foram mediados por distúrbios do sono e por depressão, ou seja, não vinham diretamente do lúpus. Atividade do lúpus (doença sem bom controle) e nível de estresse também estiveram relacionados com variações das funções mentais.

Conclusões

Os autores concluiram que:

1) este estudo deve ser confirmado em maior grupo de lúpicos, observados ao longo do tempo (num chamado estudo prospectivo)

2) a presença de dor e alterações de funções mentais no lúpus pode ser explicada por distúrbios do sono e sintomas depressivos

3) os achados abrem a perspectiva de tratar alguns sintomas do lúpus através de higiene do sono e melhora da depressão, em intervenções que não necessariamente envolvem remédios imunossupressores

4) especificamente, pacientes com lúpus que apresentam dor e disfunções cognitivas (atenção, memória e orientação alterados) poderiam ser tratados com terapia cognitivo-comportamental, recurso comprovado para reduzir estresse e melhorar vários domínios psicológicos do indivíduo.

Referência

Arthritis Care & Research. 04 May 2018. https://doi.org/10.1002/acr.23593

Estou com depressão? Faça seu diagnóstico em 5 minutos.

Sentir-se triste, com pouca energia e com vontade de desaparecer podem ser sintomas comuns, mas você está se encaminhando para uma depressão verdadeira? Daquelas que necessitam auxílio médico ou psicológico especializado?

Um questionário simples com 9 ítens, denominado PHQ-9 e já traduzido para várias línguas, se propõe a fazer uma triagem de casos de depressão. E não apenas isto, também serve para graduar o problema, dizendo por exemplo se a depressão é leve ou severa. Pode também ser aplicado para verificar a evolução do tratamento, se há resposta aos procedimentos e medicamentos propostos.

A depressão é um dos problemas mais comuns vistos na clínica médica, tanto pelo médico de família quanto por especialistas. Reconhecer sua presença e severidade é, portanto, de suma importância para auxiliar de forma correta os pacientes. Em casos extremos até salvar sua vida, devido ao elevado risco de suicídio. De fato este é um dos diagnósticos mais importantes a ser feito, e não deve ser perdido pelos profissionais que se propõem a exercer sua profissão em elevado nível técnico.

O questionário PHQ-9 tem a vantagem de ser auto-aplicável, você senta e tem o diagnóstico inicial em apenas 3 etapas, a ser confirmado depois pelo médico ou psicólogo:

1. você gradua cada ítem com sua resposta (nunca tenho o sintoma, sinto isto em vários dias, sinto em mais da metade dos dias, ou tenho o sintoma quase todos os dias)

2. você soma os pontos, se o resultado for 10 ou mais você está com depressão, daquelas que necessita auxílio psicológico e médico (em termos técnicos, a maioria dos estudos científicos que utilizaram esta escala fixaram 10 pontos como cut-off para diagnóstico correto de depressão)

3. por último, você pode ainda graduar o problema de acordo com a escala abaixo

  • 0 a 4 pontos = não há depressão
  • 5 a 9 pontos = depressão leve
  • 10 a 14 pontos = depressão moderada
  • 15 a 19 pontos = depressão moderadamente severa
  • 20 a 27 pontos = depressão severa

Acesse o questionário em português aqui (em pdf):

https://www.challiance.org/Resource.ashx?sn=PHQ9BrazilPortuguese

Há muitas escalas tentando fazer o mesmo, esta me pareceu prática e, segundo a literatura, confiável. Sua origem é em Cambridge nos EUA, em Departamento de Psiquiatria associado à escola de Medicina de Harvard.

Se você está com sintomas depressivos, aproveite e responda ao questionário. Ou então encaminhe para quem pode ser útil, com certeza a pessoa e a família lhe agradecerão. Lembre-se que apenas o médico poderá lhe auxiliar e orientar o correto tratamento. Por último, e muito importante: depressão severa carrega consigo elevado risco de suicídio e se constitui numa urgência médica – não deixe para amanhã!

Referência

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2753532?guestAccessKey=3dad4211-2b6c-412e-a776-0f586eff3682&utm_source=silverchair&utm_medium=email&utm_campaign=article_alert-jama&utm_content=etoc&utm_term=120319

VOCÊ COLABORA COM O CHARLATANISMO MÉDICO?

Responda à lista abaixo e veja se você poderá ser a próxima vítima.

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Utilize a lista abaixo para saber se você é a próxima vítima potencial. É baseada em técnicas clássicas e exemplos do charlatanismo em vários países, que se repetem porque sempre há incautos com dinheiro e esperança.

O profissional chamou sua atenção ou falou a respeito de qualquer um dos seguintes tópicos?

Apenas uma resposta positiva já deve ser considerada um sinal vermelho! Não seja mais uma vítima!

  1. Uso de palavras e expressões apelativas como “espantoso”, “milagroso”, “melhora imediata”, “remédio natural”, “vigor físico”, “corpo perfeito”, “purificar o corpo”, “detoxificar o organismo”, “aumentar o nível de energia”, “incrementar seu sistema imune”.
  2. Testemunho de pessoa que endossa as afirmações, muitas vezes uma modelo, artista, desportista ou outro médico famoso. Os Conselhos de Medicina proibem o uso de pacientes e seus testemunhos como propaganda médica.
  3. O chamado à “teoria da conspiração”: outros profissionais, instituições ou empresas não querem que você saiba de “curas” ou acerca do tratamento proposto porque perderiam dinheiro.
  4. Venda de publicação ou livro próprio que propagandeia os tratamentos oferecidos, em substituição à literatura científica com evidências em dados de pesquisas sérias, conduzidas em centros médicos internacionais de excelência.
  5. Dietas originais, secretas, e spas que aliviam ou curam seus sintomas ou doença, com excesso de exames de laboratório, testes de imagem, além de tratamentos inflacionados por caros suplementos ou métodos alternativos.
  6. Afirmações de cura ou da possibilidade de você cessar seu   tratamento para reumatismos, doenças autoimunes ou câncer.
  7. Anúncio de produto único que irá resolver uma grande variedade de doenças: estes em geral não tratam nenhuma delas de forma eficaz, você deve pagar antecipado, pode-se comprar e levar um bônus ou outro produto grátis, ou então o produto tem estoque limitado.
  8. Consultas longas e minuciosas, com porções generosas de carinho e falsas expectativas para o tratamento, culminando com extensos, caros exames, e enormes receitas de suplementos e vitaminas.
  9. Uso de suplementos ou fórmulas secretas que devem ser ingeridos indefinidamente, com custo elevado e preparo “que só pode ser feito” em local indicado, caso contrário “não funciona”.
  10. Anúncios tipo “garantia de retorno de seu dinheiro”, algo inexistente na Medicina e considerado infração grave do Código de Ética da profissão.
  11. Ostentação e glamourização, com atendimento em clínicas e spas luxuosos frequentadas por famosos, passando imagem de alto sucesso nas midias sociais, TV e jornais.
  12. Ênfase na polarização entre “Medicina tradicional e retrógrada” e a “Medicina nova, moderna e inovadora”, muitas vezes com uso de máquinas luminosas de nomes pomposos e pseudo-científicos.

PRIMEIRA CONSULTA COM O MÉDICO

COMO PROCEDER PARA EXTRAIR O MELHOR DO MÉDICO E FAZER UMA CONSULTA COMO VOCÊ ESPERA

Você tem uma consulta marcada, está nervoso desde já e quer usar o melhor possível seu tempo com o profissional. Recomendo 2 passos:

  1. assista ao vídeo “Como falar com o médico” no canal do YouTube, clique no link https://www.youtube.com/watch?v=zEpl3bLytLE&list=PLNwtw649EU4-xVQZ2Vfbk-IvB8y76Sml4&index=5&t=0s. Enquanto estiver lá, assine o canal para receber atualizações e novos vídeos interessantes
  2. veja o questionário abaixo (clique no link para o pdf ao final). Você pode preenchê-lo, fazer uma cópia e entregar ao médico no início de sua consulta.

Este questionário contém o que os médicos chamam “História de Doenças Passadas” e “Revisão de Sistemas”, ou seja, todas as informações importantes sobre sua saúde, desde que nasceu até o momento da consulta.

São dados indispensáveis para o médico entender melhor o paciente. Além disso, muitas vezes o diagnóstico se encontra nos dados que você irá informar. Por exemplo, você anotou na seção de doenças de pele que tem psoríase há 5 anos e está consultando porque imagina estar com artrite. O médico imediatamente fará a ligação entre os 2 sintomas e irá ponderar a hipótese de artrite psoriásica como diagnóstico final.

Por último, estas duas seções muito importantes da consulta tomam tempo considerável para o médico perguntar, e você pode imaginar desde já que nem todas as informações importantes estarão expostas, portanto, durante a consulta. Você já levando todos os dados de “História de Doenças Passadas” e “Revisão de Sistemas” estará contribuindo sobremaneira com seu médico. E com você mesmo em última instância.

Clique no link abaixo para abrir o questionário e imprimi-lo:

Questionário para sua primeira consulta médica

 

Belimumabe (Benlysta): eficácia se mantém e segurança está garantida após 13 anos de uso no lúpus.

Belimumabe tem indicação para um perfil específico de pacientes lúpicos, como adjuvante após a falha terapêutica dos tratamentos com corticóide, imunossupressores e antimaláricos.

Muito importante o estudo publicado hoje sobre belimumabe para pacientes com lúpus eritematoso sistêmico e que estejam em uso do remédio. O trabalho envolveu vários centros, com 298 pacientes recebendo infusões sequenciais do belimumabe e 1/3 desses completando até 13 anos de acompanhamento.

Resultados

O porcentual de indivíduos que teve efeitos adversos permaneceu estável ou foi caindo com o tempo. O índice de infecções também não se modificou com o passar dos anos e anticorpos protetores (IgG) medidos no sangue não diminuiram. No ano 1 do estudo 33% dos lúpicos atingiram índices clínicos de boas e ótimas respostas, subindo para 76% no ano 12. A dose de corticóides diminuiu para aqueles que utilizavam mais de 7,5 mg de prednisona no início do acompanhamento.

Conclusões

Esta publicação relata o maior tempo já acompanhado de uso do remédio belimumabe em pacientes lúpicos. Houve boa tolerância, sem surgimento de novos ou inesperados efeitos colaterais, e com eficácia se mantendo por 13 anos. Os pacientes que respondem inicialmente bem ao belimumabe podem manter o medicamento a longo prazo, o tratamento continuará a ser efetivo, seguro e com bom controle da doença.

Meus comentários

Este é o primeiro remédio oficialmente aprovado para tratamento do lúpus eritematoso sistêmico em mais de 30 anos. O trabalho tranquiliza médicos e pacientes sobre o uso a longo prazo do belimumabe, embora o número de pacientes efetivamente mantendo o remédio tenha sido bem menor do que gostaríamos: 476 pessoas com lúpus no estudo inicial, dos quais 298 seguiram o acompanhamento a longo prazo, e dos quais apenas 96 permaneceram até o final. Sabemos que muitos lúpicos não respondem ao belimumabe, o efeito benéfico pode se perder ao longo do tempo, ou alguns efeitos secundários comandam sua cessação. Mas é sempre importante termos mais um medicamento no armamentário contra o lúpus, vários pacientes poderão se beneficiar.

Para médicos, um pouco de imunologia

Belimumabe é um anticorpo monoclonal IgG1 cujo alvo é Blys. Blys é uma proteina solúvel indutora de linfócitos B, também tida como fator de sobrevivência para células B. Belimumabe se liga a Blys em circulação e impede sua ligação ao receptor na superfície de linfócitos B, inibindo assim a sobrevivência de células B, incluindo as autoreativas. Com este mecanismo inibitório não há transformação de linfócitos B em plasmócitos e, consequentemente, não há produção de autoanticorpos. As indicações para uso de belimumabe no lúpus são debatíveis, converse com o reumatologista antes de usar em qualquer paciente.

Referências

Consulte a bula aqui: https://consultaremedios.com.br/belimumabe/bula

Artigo original: Daniel J WallaceEllen M GinzlerJoan T MerrillRichard A FurieWilliam StohlW. Winn ChathamArthur WeinsteinJames D McKayW Joseph McCuneMichelle PetriJames FettiplaceDavid A RothBeulah JiAmy Heath.First published: 16 February 2019 https://doi.org/10.1002/art.40861

OBS – esta postagem tem objetivo meramente educativo, não houve recebimento de honorários de qualquer natureza para sua publicação.

Sexo e qualidade de vida em pacientes com espondilite na era dos biológicos.

Mesmo com os remédios mais modernos a vida não é a mesma para quem tem espondilite.

Cientistas da Noruega acabam de publicar na revista canadense Journal of Rheumatology um interessante trabalho feito em homens e mulheres com diagnóstico de espondiloartrite axial. A este grupo de doenças pertence a espondilite anquilosante, a espondilite por psoríase ou por doenças inflamatórias intestinais e a sacroileite indiferenciada, todos reumatismos inflamatórios da coluna e bacia.

Objetivo do trabalho

O objetivo foi explorar as associações entre dados pessoais, variáveis atribuíveis à doença, tipo de tratamento e qualidade de vida sexual em homens e mulheres padecendo de espondiloartrite axial.

Quem foi estudado

Foram incluidos 360 pacientes, 240 homens e 120 mulheres, com idade média de 45,5 anos e espondilite com duração média de 13,9 anos. Desses, 78% eram casados ou residiam com cônjuge, 27% fumavam, 71% estavam empregados, 86% faziam mais de 1 hora de exercícios por semana e 88% tinham o marcador genético HLA-B27, típico de espondilite.

Resultados

Quase a metade (44%) usava anti-inflamatórios sem corticóides, 5% usavam remédios modificadores de doença como o metotrexate e 24% usavam remédios biológicos.

Após análise estatística rigorosa, os escores mais baixos de qualidade de vida sexual ocorreram em mulheres, naquelas com sobrepeso, nos indivíduos com medidas de atividade de doença alteradas (aumento de proteina C reativa ou de índices clínicos similares ao BASDAI – muito conhecido de quem tem a doença) e em uso de tratamento com remédios biológicos.

Conclusão

Pacientes noruegueses com espondilite e doença mal controlada, ainda em processo inflamatório, têm baixa qualidade de vida sexual, mesmo na vigência de tratamento biológico.

Minha mensagem

Sem dúvida outros fatores concorrem para a vida sexual saudável de pacientes com doenças inflamatórias da coluna, principalmente as espondilites, mas é indispensável batalhar pelo controle completo dos sintomas. Isto certamente é possível e parte de uma saudável relação médico-paciente, com confiança nos tratamentos, e na busca incessante pelo melhor remédio biológico para cada pessoa. Não funcionou o primeiro ou o segundo, siga a luta com outro novo recurso terapêutico. Novos biológicos com distintos mecanismos de ação estão lançados a cada momento e raríssimos são os causas sem resposta adequada ou com efeitos colaterais sérios a todos os remédios.

Deixar-se levar pela dor e pela depressão secundária à doença crônica leva à espiral da ansiedade, desvalia, pensamentos negativos e a um buraco sem fundo. Lembre-se que a primeira regra para quem está no buraco é parar de cavar!

Sua qualidade de vida, incluindo a esfera sexual, retornará à normalidade com o controle da espondilite. E transar faz muito bem!

Artigo original

Sexual quality of life in patients with axial spondyloarthritis in the biologic treatment era. Kari Hansen Berg, Gudrun Rohde, Anne Prøven, Esben Esther Pirelli Benestad, Monika Østensen and Glenn Haugeberg. The Journal of Rheumatology February 2019, jrheum.180413; DOI: https://doi.org/10.3899/jrheum.180413.