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As fraudes na área da saúde: como se proteger do charlatanismo disfarçado de medicina alternativa, 2a. parte.

Usando o efeito placebo como prova dos tratamentos

Vejo um grande número de médicos e outros profissionais anunciando nas mídias sociais uma Medicina adjetivada, que passa longe dos princípios mais nobres da profissão. Medicina ortomolecular, Medicina integrativa, Medicina funcional, Medicina holística, Medicina complementar, “Anti-aging” (anti-envelhecimento) e tantos outros termos passam a se integrar a novas promessas de melhora e cura de males crônicos dentro da Odontologia funcional, Nutrição funcional… e adjetive a área do conhecimento que você quiser.

Por trás de uma pseudociência e palavrório difícil, consultas minuciosas com horas de duração, com listas enormes de testes laboratoriais complicados e produtos terapêuticos de nomes mais ainda – e, claro, que só podem ser comprados onde indicado (a maioria das vezes na própria clínica ou pela Internet), esconde-se o interesse pecuniário maior e a confiança de que o efeito placebo existe e funciona.

De fato, nas pesquisas científicas mais sérias comprova-se que em mais de 30% das pessoas há melhora ou desaparecimento de sintomas no grupo que recebeu pílulas de farinha (placebo inerte, sem qualquer função biológica). Por exemplo, quando foram testadas as pílulas de nitrato para angina, mais de 1/3 das pessoas no grupo com placebo tiveram redução da forte dor no peito. Justamente por isso é sempre necessário comparar-se o remédio novo em um grupo que apresenta a doença contra outro grupo com a mesma doença recebendo placebo. E note que os métodos revolucionários propalados pelo charlatanismo nunca sofreram o rigor de tais estudos, não estão publicados. A Medicina tradicional não os entende porque são muito novos e originais, ou a indústria farmacêutica e os médicos tradicionais os escondem porque perderiam seus ganhos – a tradicional e bem difundida teoria da conspiração, que visaria deixar você como sofredor crônico.

“A ciência é a base da medicina e a comprovação científica a base das práticas terapêuticas que devem ser utilizadas. A chamada medicina alternativa foge da ciência, não busca a comprovação experimental e coloca em risco a saúde dos que a utilizam”, Dr. Sergio Ibiapina, presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM). O CFM aprovou as resoluções 1.499 e 1.500 proibindo médicos de praticar a chamada medicina alternativa e ortomolecular, trazendo novos adjetivos ao mercado como nomes substitutos (Medicina funcional, Medicina integrativa, medicina holística e outras), burlando assim as resoluções.”

Assim, se você tem um frasco com água colorida vendido com toda a sua arte de persuasão como solução para o problema de várias doenças, estatisticamente você estará auxiliando 30% das pessoas que compram seu produto. Estes por sua vez irão lhe auxiliar a espalhar a boa nova de “cura milagrosa” e trazer uma clientela crescente. No dia em que os outros 70% se derem conta do seu esquema (a fraude), você já estará milionário em outras paragens, já terá inventado um novo placebo, ou já estará no céu.

No caso de doenças autoimunes com dores reumáticas os esquemas fraudulentos até parecem funcionar porque os sintomas costumam ir e vir aleatoriamente, muitas vezes ao sabor das emoções e convicções. Você acha que o novo tratamento está funcionando, quando em verdade é apenas o ir e vir natural dos sintomas da artrite. Na maioria de meus pacientes os sintomas melhoram de forma marcada quando em férias nos melhores hotéis, estações termais e navios de cruzeiro, longe das preocupações do dia-a-dia.

Veja este exemplo de depoimento recebido por Email há poucos dias, dando conta de terapia alternativa da moda no Brasil e típica de efeito placebo, a autohemoterapia, com meus comentários mais adiante.

“Minha história com a Esclerodermia começou em 2004 quando metade do meu corpo tornou-se uma espécie de lixa. Braços, tórax e pernas foram tomados. Manchas esbranquiçadas apareceram principalmente nos braços. Dores articulares nos dedos e punhos. A pedido do Dermatologista fiz biopsia de amostra da pele de um local mais afetado. O resultado foi Esclerodermia ainda localizada.  O médico me informou que não tinha cura e que teríamos que tratar com corticóides. O médico me pediu uns dias para pesquisar a melhor droga a ser utilizada. Neste ínterim recebi de presente um DVD de uma amiga: Conversa com Dr. Luiz Moura sobre Autohemoterapia. Neste DVD ele afirmava que curava pessoas que estavam com a doença somente com este tratamento. Para quem não sabe é a retirada de 10 ml de sangue da veia e a imediata aplicação no músculo uma vez por semana.  De imediato acreditei no assunto e no mesmo dia iniciei as aplicações. Após um mês, ou seja 4 aplicações, a diferença já era visível. A pela melhorou muito e as dores desapareceram. Voltei ao médico, que mesmo vendo o resultado do tratamento, disse que era um risco muito grande já que não havia nenhuma comprovação científica a respeito. Assumi inteira responsabilidade, continuei as aplicações e após mais 4 semanas a pele voltou ao normal. Ou seja, no meu caso, a Autohemoterapia curou a doença em 2 meses. Suspendi as aplicações por 3 meses e não voltou mais. Hoje, após 15 anos, continuo tomando regularmente porque percebi que muitos desconfortos desapareceram. É difícil gripar ou resfriar e quando acontece os sintomas desaparecem rapidamente. Minha pele melhorou, tanto que hoje, 2019, tenho 63 anos e todos afirmam que pareço estar com 50 anos. Claro que não posso afirmar que todos que resolverem se tratar com Autohemoterapia vão se curar, porque depende de outros fatores que não vem ao caso, mas afirmo: vale a pena tentar.”

E meus comentários ao cidadão:

“Prezado Sr., grato pela mensagem e por seu depoimento. Fico feliz que seu problema tenha sido resolvido logo no início. Há 4 dados que necessito lhe passar, importantes para estarmos sempre em benefício da verdade:

substitua “autohemoterapia” na sua mensagem por “garra do diabo”, “terapia detox”, “enemas de purificação” e o resultado positivo seria o mesmo – temos vários depoimentos exatamente como o seu, com cura descrita por esses outros métodos ditos alternativos

o efeito placebo ocorre em até 1/3 das pessoas que utilizam qualquer terapia, tradicional ou alternativa, um número bastante elevado; isto torna indispensável que para cada método de terapêutica se façam estudos científicos com vários pacientes diagnosticados exatamente com a mesma doença, um grupo recebendo a nova droga, remédio ou nova técnica, contra um grupo recebendo placebo

várias doenças autoimunes aparecem e desaparecem naturalmente, ou seja, seguem um curso autolimitado, independente do que a pessoa fizer de tratamento

– por último, e algo de grande importância para seu depoimento, há vários diagnósticos diferenciais de esclerodermia da pele, quando outros órgãos internos não são afetados. Ou seja, a biópsia de pele diagnostica “esclerodermia”, e o trabalho do médico deve ser ato contínuo descobrir qual o tipo exato, através de outros exames subsidiários. Além da forma autoimune, que seu médico diagnosticou e inclusive lhe prescreveu corticóide, há as seguintes formas de esclerodermia, todas podendo ser autolimitadas (ou seja, desaparecem espontaneamente em vários casos): escleredema, escleredema de Buschke, escleromixedema, mucinose papilar, gamopatia monoclonal benigna, amiloidose de cadeias leves, fasciite eosinofílica, mixedema por hipotireoidismo (doença de Hashimoto autolimitada), fibrose sistêmica nefrogênica (após exame de ressonância magnética com contraste), esclerodermia por drogas.

Acredito que seu médico se baseou apenas no exame de anátomo-patologia, a julgar pelo seu depoimento, e não foi adiante na investigação, preferindo lhe passar o curso mais fácil de tratamento – corticóides. Duas linhas de raciocínio no nosso ver equivocadas: diagnóstico incompleto e tratamento apressado.

A autohemoterapia foi inventada na década de 30 do século passado no Rio de Janeiro pelo Dr. Jessé Teixeira, e desde então aparece e desaparece ciclicamente do noticiário. O método é bem simples, como descreves, barato, e funciona em várias pessoas (de acordo com as premissas que escrevi acima). Assim, se de fato resolvesse os diversos casos de doenças crônicas para os quais é proposta, incluindo as doenças autoimunes, teríamos um sem número de pessoas curadas e os consultórios médicos quase vazios. Por exemplo os de reumatologistas. 

Posso lhe assegurar que não é o caso, a maioria dos pacientes que fazem autohemoterapia tiveram que continuar seu tratamento tradicional para esclerose sistêmica, lúpus, artrite reumatoide e tantas outras. Por não ser mais eficaz que o placebo, e por apresentar alguns riscos, o Conselho Federal de Medicina proibiu a técnica no Brasil.

Portanto, em benefício da verdade e de várias outras pessoas desesperadas por cura, no futuro quando der seu corajoso depoimento público, espero que contemple e descreva em sua mensagem os aspectos esclarecedores que tive o cuidado de lhe enumerar. Com cordiais saudações, pedindo excusas por ter lhe tirado de sua zona de conforto”.

As coisas são quase sempre mais complicadas do que o público leigo acredita. Se o primeiro médico não lhe traz confiança, logo lhe prescreve um corticóide sem explicar exatamente seu problema, ou incorre em práticas não ortodoxas como as explicadas aqui, procure de imediato outro profissional.

As fraudes na área da saúde: como se proteger do charlatanismo disfarçado de medicina alternativa, 1a. parte.

A farsa que aproveita a vulnerabilidade do paciente

O charlatanismo médico se refere a práticas de saúde ou remédios que não têm bases científicas para sua indicação. Está baseado em pretensas teorias que misturam conhecimentos de ciências básicas como imunologia, bioquímica, genética e fisiologia, de forma fragmentada, ininteligível e claramente manipulativa para bons conhecedores, porém que impressionam a potencial vítima.

“Charlatanismo. Ação, comportamento, dito ou prática de charlatão: charlatanice. Exploração da credulidade pública através da venda de produtos e/ou serviços incapazes de curar doenças”. http://www.dicio.com.br

Alguns fatos médicos mais recentes são aproveitados para criar teorias abrangentes que explicariam todos os males, com oferta de produtos pelo próprio profissional ou por seu grupo: extensas consultas, dietas da moda, suplementos infindáveis, cursos para leigos e para outros profissionais, livros e até spas de imersão por vários dias. E a preços muitas vezes exorbitantes, por incríveis séries de tratamento com promessa de curas ou de cessação de todos os remédios.

Assim já ocorreu historicamente com os radicais livres e as extensas fórmulas ortomoleculares, abrindo espaço para os ditos quelódromos – espaços compartilhados em clínicas de infusão endovenosa com múltiplas substâncias quelantes de toxinas e metais. Depois com as chamadas “intoxicações crônicas” vistas no cabelo e suas curas detox. A teoria do “foco infeccioso” na boca, com extrações dentárias múltiplas, retorna após várias décadas até via Netflix, com fortunas sendo gastas em uma assim chamada odontologia holística que exige extrações e implantes a peso de ouro. E, ultimamente, implicando o intestino como criminoso da vez, trazendo uma chamada “remissão das doenças autoimunes” (são mais de 200 distintas!) pelas medicina e  nutrição funcionais.

A trama se aproveita de um paciente que sofre, em estado vulnerável ou terminal. Pessoas desesperadas são aqui a melhor presa. E o princípio de Hipócrates primum non nocere (acima de tudo não lesar o paciente), jurado pelo médico no dia de sua formatura, é esquecido atrás de um livro no consultório.

Pior que a fortuna gasta pelos brasileiros em terapias alternativas e sem embasamento científico sólido é o dano à sua própria saúde, por serem conduzidos para longe de atendimento médico idôneo. Além dos efeitos secundários muitas vezes letais dos tratamentos alternativos. Uma médica gastroenterologista me comentou recentemente sobre o crescente número de casos graves de pancreatite aguda e de perfuração intestinal por altas doses de magnésio e outros produtos em “curas” de doenças autoimunes após megadoses de suplementos, também de vitamina D. Apenas um exemplo de vários que estão surgindo a todo momento.

“É hora de a comunidade científica parar de dar passe livre à medicina alternativa. Não pode haver dois tipos de medicina – a convencional e a alternativa. Há apenas a medicina que foi adequadamente testada, e não a que não o foi”. Marcia Angell & Jerome Kassirer, New England Journal of Medicine, 1998.

Médicos e cientistas dedicam suas vidas  para encontrar tratamentos, seja para cura ou para controle de doenças crônicas como as autoimunes e câncer, com causas ainda desconhecidas.

Ofertas de tratamentos miraculosos para solucionar estas doenças respaldadas em narrativas de que toda a comunidade científica está ‘desatualizada’ ou ‘de má-vontade’  e que só ‘aquele médico, clínica ou nutricionista’ SABE COMO TRATAR e CURAR uma doença reumática, por exemplo, seria negar completamente qualquer racionalidade à abordagem da questão e atirar-se a uma prática reeditada e já condenada ao longo da história.

Praticamente todos os médicos que fazem jus a este nome, empresas, entidades e órgãos envolvidos com diagnóstico e tratamento dessas doenças estão isentos de qualquer interesse em deixar de oferecer o melhor tratamento, ou a própria cura se houver. Nos meios médicos este não é um assunto que seja sequer ventilado entre colegas ou em congressos científicos de Medicina, qualquer que seja a especialidade.

Nesta breve série vamos desvendar de forma objetiva o charlatanismo na Medicina, desde suas bases históricas até mostrar maneiras de como você deve se proteger. As referências da literatura com links para os sites da Internet você encontrará ao final. Esperamos que você possa repassar para o maior número de pessoas.