Tag: Lupus Eritematoso Sistêmico

Lúpus: mais remédios para controle dos sintomas ou tratar a cuca antes de mais nada?

As proteinas alteradas no sangue do paciente com lúpus: o pico mais à direita está muito aumentado, refletindo a elevação dos anticorpos dirigidos contra a própria pessoa.

Distúrbios do sono e sintomas depressivos podem ser responsáveis por dor e perda de atenção, memória e concentração no lúpus. O tratamento é com Terapia Cognitivo-Comportamental antes de remédios!

Para saber o que exatamente está envolvido na dor e nas alterações ditas cognitivas (como atenção, memória, orientação) do lúpus eritematoso sistêmico (LES), 115 pacientes foram estudados em Baltimore, EUA.

Como foi feito o estudo?

Todos os pacientes preencheram questionário sobre dor, percepção de estresse, depressão, sono e alteração das funções mentais (chamada disfunção cognitiva). Os autores cuidaram para que as conclusões não fossem alteradas pela presença de fibromialgia, raça do paciente, uso de corticóides (remédios que modificam as funções mentais positiva ou negativamente, conforme o indivíduo), atividade da doença e nível de estresse percebido pelas pessoas.

Resultados

Análises estatísticas sofisticadas (neste caso denominadas análises de mediação) indicaram que os sintomas de dor e de funções mentais alteradas foram mediados por distúrbios do sono e por depressão, ou seja, não vinham diretamente do lúpus. Atividade do lúpus (doença sem bom controle) e nível de estresse também estiveram relacionados com variações das funções mentais.

Conclusões

Os autores concluiram que:

1) este estudo deve ser confirmado em maior grupo de lúpicos, observados ao longo do tempo (num chamado estudo prospectivo)

2) a presença de dor e alterações de funções mentais no lúpus pode ser explicada por distúrbios do sono e sintomas depressivos

3) os achados abrem a perspectiva de tratar alguns sintomas do lúpus através de higiene do sono e melhora da depressão, em intervenções que não necessariamente envolvem remédios imunossupressores

4) especificamente, pacientes com lúpus que apresentam dor e disfunções cognitivas (atenção, memória e orientação alterados) poderiam ser tratados com terapia cognitivo-comportamental, recurso comprovado para reduzir estresse e melhorar vários domínios psicológicos do indivíduo.

Referência

Arthritis Care & Research. 04 May 2018. https://doi.org/10.1002/acr.23593

Nova combinação de tratamentos no lúpus pode salvar vidas.

COMBINANDO MEDICAMENTOS BIOLÓGICOS NO LÚPUS

Publicação de 07 de abril de 2018 a partir de um grupo de reumatologistas de Leiden, na Holanda, confirma muito bons resultados em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico grave. O feito foi alcançado através da combinação de dois agentes biológicos.
De fato, combinando rituximabe (alvo são os línfócitos B) e belimumabe (alvo é molécula de comunicação e ativação de glóbulos brancos) de forma sequencial trouxe benefícios a pacientes com falha de vários outros tratamentos e acometimento grave de rins, pulmões e outros órgãos internos.
COMO FUNCIONA?
O mecanismo imunológico que traz racional para a combinação ficou comprovado ao se demonstrar diminuição da quantidade de anticorpos ligados ao lúpus (demonstrável pelo exame chamado FAN, Fator Anti-Nuclear, e também pela concentração de autoanticorpos do lúpus como anti-Sm, anti-SSA, e outros) e redução do nível de complexos imunes circulantes (conjuntos protéicos no sangue contendo antígenos, proteinas-alvo dos autoanticorpos, e anticorpos como anti-DNA; estes complexos podem se depositar em órgãos como os rins e causar perda de proteinas com insuficiência renal).
RESULTADOS
Este estudo foi desenhado para servir de conceito para estudos mais amplos, com maior número de pacientes. A combinação de rituximabe com belimumabe não trouxe efeitos colaterais mais sérios e houve respostas muito significativas: 10 dos 16 pacientes com lúpus grave tiveram melhora clínica, cicatrização progressiva de lesões renais em 11 casos e diminuição do uso de outros remédios imunossupressores em 14 pacientes.
Assim, os autores concluem que seu estudo provê nova maneira efetiva de tratamento de pacientes com lúpus grave, a partir da compreensão dos mecanismos básicos da doença e seu ataque através de remédios biológicos com alvos específicos.
COMENTÁRIOS
Para plena comprovação há, é claro, necessidade de expansão deste estudo para um maior número de casos, com desenho randomizado (sorteio aleatório dos casos para cada braço de tratamento) e duplo-cego (nem o médico nem o paciente sabem em qual braço do estudo o paciente foi alocado pelo sorteio).
Porém, como são remédios existentes no mercado brasileiro, com certeza alguns clínicos e reumatologistas já estão aptos a assumir a responsabilidade e prescrever esta combinação para seus pacientes, quando indicado.
Fonte: Kraaij T et al.  The NET-effect of combining rituximab with belimumab in severe systemic lupus erythematosus. J Autoimmun. 2018 Apr 7. pii: S0896-8411(18)30083-0. doi: 10.1016/j.jaut.2018.03.003. ClinicalTrials.gov NCT02284984.

 

Artrites & Reumatismos: lupus na vitrine.

Público alvo: leigos

Por merecimento, um primeiro texto sobre o lupus, importante doença autoimune que une cientistas de todo o mundo na busca de sua cura. A publicação é o Prefácio do livro para pacientes “Domando o Lobo”, BookEss Editora 2015, da professora e jornalista Vivian Magalhães.

“Sir William Osler (1849 – 1919), canadense, um dos quatro professores médicos que fundaram a famosa Faculdade de Medicina Johns Hopkins em Baltimore (EUA), foi o primeiro educador a trazer os alunos de medicina do anfiteatro teórico para a beira do leito. Sua grande contribuição para a pedagogia foi a criação da residência médica, treinamento pós-graduado em que os jovens médicos aprendiam vendo e falando com pacientes, sob tutela de professores eméritos.

Dr. Osler gostava de afirmar que “- Aquele que estuda medicina sem livros navega por um mar incerto, mas aquele que estuda medicina sem pacientes nem chega ao mar”. Além disso, era enfático quanto à importância de conseguir uma minuciosa anmnese, a história do paciente: “- Escute seu paciente, ele lhe está dizendo o diagnóstico”.

Dentre as inúmeras contribuições pioneiras do famoso professor à caracterização das doenças está a identificação do lupus eritematoso sistêmico como quadro sistêmico potencialmente grave, e não apenas como uma doença da pele, como se pensava até então. O modificado conceito abriu portas para o grande desenvolvimento na compreensão do lupus, ocorrido no transcorrer do século XX, como doença autoimune que envolve inúmeros órgãos.

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Sarita M. tinha seus 30 anos de idade quando consultou comigo a primeira vez. Queria uma segunda opinião sobre sua artrite e a necessidade de tantos remédios. Morena bonita, olhos espertos, sorriso fácil mas nervoso, gaúcha clássica de estirpe fronteiriça. Casada com bancário, o marido assustado a acompanhava na consulta – claramente a contragosto. As bochechas rellenas e róseas me diziam estar em uso de corticóide, mas foi nas pernas inchadas que minha preocupação maior se deteve. Acordava com o rosto também inchado já pela manhã? “Sim”. Não pestanejei, saíram do consultório direto para o hospital, o caso era clássico de acometimento renal e o colega que a vira antes tinha acertado o diagnóstico: água na pleura nas radiografias de pulmão, exames de laboratório mostrando autoimunidade e uma hemossedimentação muito elevada me diziam ser um caso de lupus.

Em 2 dias tínhamos a biópsia de rins nas mãos: os glomérulos não apenas estavam inflamados, mas uma maioria importante havia já deixado de funcionar, cicatrizados, mortos pela doença bem diagnosticada e mal conduzida. Foi inevitável fazermos diálise, chamarmos o cirurgião vascular para construir uma fístula que desse acesso às máquinas de rim artificial, a chamada hemodiálise, e que saíssemos à cata de um doador para transplante.

Claro, iniciamos pela família. Para grande surpresa e alívio, os primeiros testes no irmão de Sarita já se mostravam altamente promissores. Tudo parecia compatível e o rapaz não titubeou – foi para o bloco junto com a irmã na semana seguinte. Em paralelo, o marido saia pela porta do hospital para não mais voltar: a visão da doença avançando na esposa, a cor jambo da doente com insuficiência renal crônica, e agora uma operação melindrosa para tentar salvar sua vida, com enorme talho e cicatriz no flanco esquerdo, foram demais para um casamento que já balançava há tempos.

O hospital universitário contava com equipe médica altamente especializada e experiente, desnecessário dizer que o transplante renal foi um sucesso. O novo rim funcionou de imediato, a máquina de diálise seguiu seu trabalho com outros pacientes e Sarita entrou na rotina de uma vida normal, em acompanhamento estrito para não haver rejeição. Os remédios foram diminuindo ao longo dos anos, o lupus ficou comportado e ela casou-se uma segunda vez. Além dos afazeres da casa, exerce sua profissão de nutricionista e não há quem não elogie sua simpatia e seu sorriso fácil, impossível suspeitar que a medicina a trouxe de uma situação crítica, provocada por uma doença assaz caprichosa, para uma vida plena e feliz. Doses pediátricas de um comprimido contendo corticóide e um remédio imunossupressor suave são tudo que lhe fazem lembrar do lupus eritematoso.

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De 1.900 ao ano 2.000, de Osler a Sarita, tivemos um século de avanços fantásticos no diagnóstico, no tratamento e na compreensão do lupus eritematoso sistêmico como doença ainda não curável, mas perfeitamente tratável. Meu sonho é ser um dia um fazedor de vacinas imunogenéticas: uma picada a cada 6 meses e o lupus está curado, enjaulado, irremediavelmente fora da vida de meus pacientes. Até lá, vejo praticamente todos compenetrados em seu tratamento, corajosos, vencendo dia após o dia as sombras de uma doença hoje dominada, construindo suas famílias, tendo filhos, sendo felizes. Sarita teve uma lesão grave em um órgão vital, o que felizmente ocorre em apenas alguns pacientes com lupus. O diagnóstico precoce permite hoje que o médico especialista rapidamente institua tratamento e que a doença entre em ótimo controle. Com a rapidez do avanço de novos conhecimentos científicos, tenho convicção que o dia das vacinas anti-lupus em minhas mãos não está longe.”