Artrites & Reumatismos: lupus na vitrine.

Público alvo: leigos

Por merecimento, um primeiro texto sobre o lupus, importante doença autoimune que une cientistas de todo o mundo na busca de sua cura. A publicação é o Prefácio do livro para pacientes “Domando o Lobo”, BookEss Editora 2015, da professora e jornalista Vivian Magalhães.

“Sir William Osler (1849 – 1919), canadense, um dos quatro professores médicos que fundaram a famosa Faculdade de Medicina Johns Hopkins em Baltimore (EUA), foi o primeiro educador a trazer os alunos de medicina do anfiteatro teórico para a beira do leito. Sua grande contribuição para a pedagogia foi a criação da residência médica, treinamento pós-graduado em que os jovens médicos aprendiam vendo e falando com pacientes, sob tutela de professores eméritos.

Dr. Osler gostava de afirmar que “- Aquele que estuda medicina sem livros navega por um mar incerto, mas aquele que estuda medicina sem pacientes nem chega ao mar”. Além disso, era enfático quanto à importância de conseguir uma minuciosa anmnese, a história do paciente: “- Escute seu paciente, ele lhe está dizendo o diagnóstico”.

Dentre as inúmeras contribuições pioneiras do famoso professor à caracterização das doenças está a identificação do lupus eritematoso sistêmico como quadro sistêmico potencialmente grave, e não apenas como uma doença da pele, como se pensava até então. O modificado conceito abriu portas para o grande desenvolvimento na compreensão do lupus, ocorrido no transcorrer do século XX, como doença autoimune que envolve inúmeros órgãos.

***

Sarita M. tinha seus 30 anos de idade quando consultou comigo a primeira vez. Queria uma segunda opinião sobre sua artrite e a necessidade de tantos remédios. Morena bonita, olhos espertos, sorriso fácil mas nervoso, gaúcha clássica de estirpe fronteiriça. Casada com bancário, o marido assustado a acompanhava na consulta – claramente a contragosto. As bochechas rellenas e róseas me diziam estar em uso de corticóide, mas foi nas pernas inchadas que minha preocupação maior se deteve. Acordava com o rosto também inchado já pela manhã? “Sim”. Não pestanejei, saíram do consultório direto para o hospital, o caso era clássico de acometimento renal e o colega que a vira antes tinha acertado o diagnóstico: água na pleura nas radiografias de pulmão, exames de laboratório mostrando autoimunidade e uma hemossedimentação muito elevada me diziam ser um caso de lupus.

Em 2 dias tínhamos a biópsia de rins nas mãos: os glomérulos não apenas estavam inflamados, mas uma maioria importante havia já deixado de funcionar, cicatrizados, mortos pela doença bem diagnosticada e mal conduzida. Foi inevitável fazermos diálise, chamarmos o cirurgião vascular para construir uma fístula que desse acesso às máquinas de rim artificial, a chamada hemodiálise, e que saíssemos à cata de um doador para transplante.

Claro, iniciamos pela família. Para grande surpresa e alívio, os primeiros testes no irmão de Sarita já se mostravam altamente promissores. Tudo parecia compatível e o rapaz não titubeou – foi para o bloco junto com a irmã na semana seguinte. Em paralelo, o marido saia pela porta do hospital para não mais voltar: a visão da doença avançando na esposa, a cor jambo da doente com insuficiência renal crônica, e agora uma operação melindrosa para tentar salvar sua vida, com enorme talho e cicatriz no flanco esquerdo, foram demais para um casamento que já balançava há tempos.

O hospital universitário contava com equipe médica altamente especializada e experiente, desnecessário dizer que o transplante renal foi um sucesso. O novo rim funcionou de imediato, a máquina de diálise seguiu seu trabalho com outros pacientes e Sarita entrou na rotina de uma vida normal, em acompanhamento estrito para não haver rejeição. Os remédios foram diminuindo ao longo dos anos, o lupus ficou comportado e ela casou-se uma segunda vez. Além dos afazeres da casa, exerce sua profissão de nutricionista e não há quem não elogie sua simpatia e seu sorriso fácil, impossível suspeitar que a medicina a trouxe de uma situação crítica, provocada por uma doença assaz caprichosa, para uma vida plena e feliz. Doses pediátricas de um comprimido contendo corticóide e um remédio imunossupressor suave são tudo que lhe fazem lembrar do lupus eritematoso.

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De 1.900 ao ano 2.000, de Osler a Sarita, tivemos um século de avanços fantásticos no diagnóstico, no tratamento e na compreensão do lupus eritematoso sistêmico como doença ainda não curável, mas perfeitamente tratável. Meu sonho é ser um dia um fazedor de vacinas imunogenéticas: uma picada a cada 6 meses e o lupus está curado, enjaulado, irremediavelmente fora da vida de meus pacientes. Até lá, vejo praticamente todos compenetrados em seu tratamento, corajosos, vencendo dia após o dia as sombras de uma doença hoje dominada, construindo suas famílias, tendo filhos, sendo felizes. Sarita teve uma lesão grave em um órgão vital, o que felizmente ocorre em apenas alguns pacientes com lupus. O diagnóstico precoce permite hoje que o médico especialista rapidamente institua tratamento e que a doença entre em ótimo controle. Com a rapidez do avanço de novos conhecimentos científicos, tenho convicção que o dia das vacinas anti-lupus em minhas mãos não está longe.”

 

 

 

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