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Placebo vs. Glucosamina e Condroitina para artrose de joelhos

A combinação glucosamina com condroitina mostra-se ineficaz em mais um estudo para artrose de joelhos.

Em mais um estudo randomizado duplo-cego a combinação GS/CH mostrou-se impotente para controlar sintomas e evolução da gonartrose. Esta já era nossa experiência clínica de muitos anos. O combo parece funcionar bem em artrose de mãos, pequenas articulações, não em grandes articulações. Abaixo o Abstract deste estudo feito na Espanha, em que ficou claramente demonstrada a superioridade do placebo.

ABSTRACT

Objective: To assess the efficacy and safety of chondroitin sulfate (CS) plus glucosamine sulfate (GS) compared to placebo in patients with symptomatic knee osteoarthritis (KOA).

Methods: A multicenter, randomized, double-blinded, placebo-controlled study was performed in 164 patients with Kellgren-Lawrence stages II-III KOA and moderate to severe pain (VAS: 62.1±11.3 mm). Patients were randomized to receive either CS (1200 mg) plus GS (1500 mg) or placebo in a single oral daily dose for 6 months. The mean change in VAS global pain was set as primary endpoint. Secondary outcomes included the mean change in the investigator global assessment, total WOMAC, pain and function subscales of WOMAC, OMERACT-OARSI 2004 responder rate, and rescue medication use. Adverse events were also recorded. A Data and Safety Monitoring Board was constituted to ensure patient safety and data accuracy.

Results: Intriguingly, CS+GS was inferior to placebo in reduction of joint pain for the modified intention-to-treat (mITT) population [11.8±2.4 mm (19%) vs 20.5±2.4 mm (33%); Δ= -8.7; -14.2%; p<0.03], but not for per-protocol completers. Placebo and CS+GS similarly improved total WOMAC, as well as pain and function WOMAC subscales in both mITT population and per-protocol completers. Neither the OMERACT-OARSI responder rate nor the use of rescue medication differed between both groups. Severe adverse events were uncommon and equally distributed.

Conclusion: CS+GS failed to demonstrate superiority over placebo in reducing pain and function impairment in patients with symptomatic KOA at 6 months. Further research may contribute to fully elucidate the suitability of CS+GS combination as therapy in OA. This article is protected by copyright. All rights reserved.

Roman-Blas, J. A., Castañeda, S., Sánchez-Pernaute, O., Largo, R., Herrero-Beaumont, G. and the CS/GS COMBINED THERAPY Study group (2016). Chondroitin sulfate plus glucosamine sulfate shows no superiority over placebo in a randomized, double-blind, placebo-controlled clinical trial in patients with knee osteoarthritis. Arthritis & Rheumatology. Accepted Author Manuscript. doi:10.1002/art.39819

Como dormir melhor num vôo de larga distância.

Público alvo: leigo.

A curiosidade é grande por parte de vários conhecidos: como viajo tão frequentemente ao exterior e chego inteiro ao destino?

O segredo é uma boa noite de sono, se é que isto é algo possível e realizável nos assentos dos jatos que cruzam os oceanos.

Como replicar o sono reparador de nossa cama em casa? Aqui minhas dicas, aprendidas a duras penas nos últimos 20 anos e com 1,5 milhão de milhas voadas:

  1. Barulho. Vento e ruido dos motores criam o oposto das melhores condições para dormir. A solução barata: plugs de ouvido, encontráveis em qualquer loja de utensílios nos aeroportos internacionais.A solução melhor: fones de ouvido com tecnologia de eliminação de ruidos. Há várias marcas no mercado, as melhores a partir de US 300,00. Uso um modelo BOSE há anos, basta trocar a pilha.
  2. Luz. Mesmo com as janelas fechadas, há sempre alguém com luzes ligadas ao lado, ou as telas no assento da frente jorrando luz toda a noite. A solução é uma só: tapa-olhos, tipo máscara do Zorro. A diferença é flagrante, mas mesmo assim por algum motivo vejo poucos passageiros utilizando.
  3. Turbulência. Esta não há como evitar, pois tudo depende do piloto e de São Pedro. A sugestão é pegar um assento sobre as asas, onde o balanço é bem menor que perto do bico ou da cauda do avião. Sente em uma gangorra e você entenderá rapidamente os motivos. Também você pode escolher aviões maiores, que jogam bem menos. E, é claro, sempre estar com o cinto de segurança afivelado.
  4. Ar seco. A sensação é conhecida, você acorda no meio da noite com a boca seca, sonhando que está comendo aveia liofilizada. E o nariz com muita coisa querendo sair. O motivo é a umidade relativa do ar de deserto nos vôos em grande altitude. Por que? Para a estrutura do avião sofrer menos, pense na oxidação de partes metálicas bem maior nos climas mais úmidos, por exemplo. Novos aviões como o Boeing Dreamliner 787 são feitos de materiais compostos, e voam com umidade do ar de 10 a 15%, muito melhor que os 7% das aeronaves tradicionais. Possíveis soluções: além de se manter bem hidratado, com uma garrafinha de água ao alcance da mão, use batom protetor de lábios.
  5. Álcool. Você fica um pouco anestesiado e parece que o sono vem mais fácil após um aperitivo, um Prosecco ou um bom vinho. Mas o rebote é certo no meio da noite, porque o álcool tende a desidratá-lo. Estudo recente da Universidade de Londres mostra que a primeira fase do sono é de mais qualidade com o uso de álcool, porém a segunda metade é disruptiva. Dica: sustente-se no primeiro copo, se isto é indispensável, ou não beba álcool. De novo, uma garrafa de água mineral à sua frente é garantia de matar a sede quando ela certamente vier.
  6. Roupa. O que você veste para dormir em casa? Roupas abotoadas, com zíper, na moda? Um pijama folgado, pelado? Pois no avião prefira roupas folgadas e em camadas, de fibras naturais. E sem esquecer algo para aquecer os pés, se viajar com sandálias ou calçado aberto.
  7. Estímulos. Um filme ou série de TV na tela à sua frente, com altas emoções e muita violência, é convite certo para atrasar seu sono. Prefira uma película água com açúcar, talvez você já durma em meio à mesmice do enredo. Ou então abra um bom livro ou revista.
  8. Assento. Há quem prefira o corredor para melhor acesso a curtas caminhadas e ao banheiro. Eu prefiro sempre uma janela para poder encostar a cabeça, faz toda a diferença. Até porque o sujeito ao lado não me pede licença para levantar.
  9. Remédios. Há quem dependa sempre de uma boleta medicamentosa para dormir. Como não uso, não tenho comentários próprios a fazer aqui. Como médico, não vejo problema em tomar um sedativo de curta ação, principalmente se você é o protótipo do passageiro medroso ou apavorado de estar dentro de uma lata de alumínio que voa.
  10. Circulação. Prevenir tromboses venosas é fundamental, dado o risco de embolia pulmonar no destino. Uma doença grave e que pode ser letal. A chance de uma flebite ocorrer em vôos de larga distância não é desprezível, amplificada pela desidratação comentada acima. As soluções: ingerir uma aspirina de baixa dosagem antes de entrar no avião, ou um clopidogrel (Plavix, etc). Usar meias elásticas. Fazer caminhadas curtas nos corredores da aeronave também é muito bom. Exercícios na poltrona para os mais obsessivos (várias revistas de bordo têm sugestões de contorcionismos enquanto sentado). Algumas pessoas com tromboses venosas prévias devem conversar com seu médico para fazer injeções de heparina de baixo peso molecular antes de cada vôo. Vale sua vida!
  11. Oxigênio. Após 6h de vôo a taxa de saturação de oxigênio no ar interno cai consideravelmente. Este é um dos grandes motivos para ocorrência de jet lag na chegada, com dores de cabeça, sensação de cansaço intenso e dores no corpo. Algumas empresas tentaram vender oxigênio enlatado sob pressão, para inalação com máscara durante o vôo. Não vejo paassageiros com a engenhoca. Vamos ter que esperar melhores soluções para este problema.
  12. Horário. Esta aprendi com um piloto de fórmula 1 que vive nos vôos intercontinentais: assim que sentar no avião, afivele o cinto e mude o horário de seu relógio para o fuso horário da chegada. Psicologicamente chega-se ao destino já no horário local. Parece simples demais, e assim o é. E muito efetivo, experimente.
  13. Outras possibilidades. Fragrâncias de lavanda no avião poderão fazê-lo dormir melhor. Dioscorides na Grécia antiga já usava lavanda por seus benefícios medicinais. Na Tailândia se demonstrou que o ritmo cardíaco diminuiu, também a pressão arterial, com a fragrância. Na Alemanha, chá de lavanda foi aprovado como tratamento de insônia.

E, em último caso, não durma! Coloque seu trabalho ou suas leituras em dia. Boa viagem!

Qual a prevalência das diferentes doenças reumáticas?

Público alvo: técnico e leigo.

Há alguns anos, trabalhando ainda no Hospital São Lucas da PUC em Porto Alegre, fizemos uma estatística durante 8 meses, período em que 951 pacientes foram atendidos.

Quais os achados mais importantes?

  • A grande maioria (78,4%) eram mulheres
  • A média de idade foi de 47,6 ± 19,3 anos
  • As doenças mais prevalentes foram:
    • artrite reumatóide (19,3% – 184)
    • osteoartrose de coluna, mãos ou joelhos (11,9% – 114), sendo 42 secundárias ou associadas a outras doenças
    • partes moles, englobando tendinites, síndromes miofasciais  e distúrbios posturais (10,9% – 104)
    • fibromialgia (9,5% – 91), 35 associadas a outras doenças reumatológicas
    • lúpus eritematoso sistêmico (9,2% – 88)
    • espondiloartropatias (7,1% – 68), sendo 31 indiferenciadas, 24 com espondilite anquilosante, 11 com síndrome de Reiter e 2 enteropáticas
    • síndrome de Sjögren primária (4,2% – 40), secundária em 16 pacientes
    • osteoporose (3,8% – 37), sendo 26 associadas a outras enfermidades
    • artropatias microcristalinas (3,2% – 31) – 23 com gota, 4 condrocalcinoses, demais indeterminadas
    • esclerose sistêmica (2,9% – 28), 14 forma difusa e 12 CREST
    • síndrome do anticorpo anti-fosfolípide (1,5% – 14), 3 na forma primária
    • artrite reumatóide juvenil (1,7% – 16)
    • 8 pacientes com Doença Mista do Tecido Conjuntivo
    • 4 pacientes com Doença Indiferenciada do Tecido Conjuntivo
    • 7 pacientes com síndromes de superposição (artrite reumatóide, lupus, polimiosite, Sjögren, etc)
    • 5 com dermatomiosite e 4 com polimiosite
    • vasculites (1,9% – 18), 5 com polimialgia reumática, 5 vasculites inespecíficas, 3 com arterite de Takayasu, 2 com crioglobulinemia e 1 com poliarterite nodosa.
  • Cento e vinte e nove pacientes (13,5%) não possuiam diagnóstico definitivo, a maioria com somente uma consulta, sendo tratados segundo uma hipótese diagnóstica.

Os vários diagnósticos mostram a grande variedade da prática reumatológica, com necessidade de constante atualização por parte do profissional médico.

Obesidade e artrose de joelhos

Público alvo: técnico e leigo.

É intuitivo imaginar-se que o excesso de peso traga sobrecarga nas articulações de quadris, joelhos e pés. O desgaste progressivo daí advindo é importante e se acentua ao longo do tempo, trazendo afinamento e erosões das cartilagens, com cistos ósseos e outros fenômenos diagnosticados pelas radiografias.

Mas qual a influência do sobrepeso nos sintomas de artrose de joelhos, da perda de peso nos sintomas e, principalmente, na necessidade futura de próteses de joelhos? Artigo desta semana na Arthritis & Rheumatology , dos EUA, acompanhou mais de 100.000 pacientes ao longo de 3 anos e chegou às seguintes conclusões:

  • pacientes com sobrepeso têm 40% mais chance de evoluirem para prótese que pessoas com peso normal
  • pacientes obesos têm 100% de chance de necessitarem próteses
  • as associações são mais importantes quanto mais jovens os pacientes
  • estratégias que trazem perda de peso reduzem em 31% as chances de cirurgia futura.

Para os profissionais que acompanham o blog, eis o abstract da publicação:

Obesity and the Relative Risk of Knee Replacement Surgery in Patients With Knee Osteoarthritis: A Prospective Cohort Study

Leyland, Judge, Javaid et al. Arthritis & Rheumatology 68:817-825, April 2016.

Objective

It is unclear what impact obesity has on the progression of knee osteoarthritis (OA) from diagnosis to knee replacement surgery. This study was undertaken to examine the relative risk of knee replacement surgery in overweight and obese patients who were newly diagnosed as having knee OA in a community setting.

Methods

Subjects were selected from the Information System for Development of Primary Care Research database, which compiles comprehensive clinical information collected by health care professionals for >5.5 million people in Catalonia, Spain (80% of the population). Patients newly diagnosed as having knee OA in primary care between 2006 and 2011 were included. Knee replacement was ascertained using International Classification of Diseases, Ninth Revision, Clinical Modification codes from linked hospital admissions data. Multivariable Cox regression models were fitted for knee replacement according to body mass index (BMI), and were adjusted for relevant confounders. Population proportional attributable risk was calculated.

Results

A total of 105,189 participants were followed up for a median of 2.6 years (interquartile range 1.3–4.2). Of these patients, 7,512 (7.1%) underwent knee replacement. Adjusted hazard ratios and 95% confidence intervals (95% CIs) for knee replacement for the World Health Organization BMI categories were 1.41 (95% CI 1.27–1.57) for overweight, 1.97 (95% CI 1.78–2.18) for obese I, 2.39 (95% CI 2.15–2.67) for obese II, and 2.67 (95% CI 2.34–3.04) for obese III compared to normal weight. The effect of BMI on risk of knee replacement was stronger among younger participants. The population attributable risk of obesity for knee OA–related knee replacement was 31.0%.

Conclusion

Overweight and obese patients are at >40% and 100% increased risk of knee replacement surgery, respectively, compared to patients with normal weight. This association is even stronger in younger patients. Weight reduction strategies could potentially reduce the need for knee replacement surgery by 31% among patients with knee OA.

Vacinação contra a gripe em pacientes reumáticos.

Público alvo: leigo.

Os Emails e mensagens não cessam neste outono, com o questionamento sobre o emprego da vacina contra a gripe por parte de quem é paciente reumático. Mais ainda por parte daqueles que utilizam medicação imunomoduladora ou imunossupressora.

Minha recomendação: sim, você deve fazer a vacina da gripe, cuja formulação apresenta virus inativados – não há risco de você pegar a doença, já que os microorganismos estão mortos. Utilize de preferência a vacina tetravalente, oferecida na rede particular. A forma tetravalente infelizmente não será oferecida pelo governo, que distribuirá a vacina trivalente. Mas as duas formas de vacina conferem proteção contra a gripe H1N1, o que é o mais importante no final da história.

Outro detalhe: pessoas imunossuprimidas devem fazer um reforço da vacina depois de 30 dias da primeira dose, já que a formação de anticorpos protetores não é a ideal após uma única dose. Tenho usado esta estratégia em meus pacientes nos últimos anos, com sucesso e sem aumento de para-efeitos da vacina.

Informe-se mais sobre a vacina da gripe clicando nos links:

Artrose: mais um suplemento que promete melhoras

Público alvo: técnico.

A lista de suplementos para o tratamento de osteoartrose vai se avolumando, além do conjunto tradicional glucosamina/condroitina, colágeno tipo II, Boswellia serrata e outros. Outros já saíram do mercado, como o Piascledine, caro e pouco eficaz na prática clínica. No post de hoje a L-carnitina é notícia, confira a seguir.

Do L-carnitine supplements have benefits in osteoarthritis?

Takeaway

  • In female patients with knee osteoarthritis (OA), researchers observed reduced inflammatory markers and pain with short-term supplementation of L-carnitine.
Study design

  • 72 women with mild to moderate knee osteoarthritis started the study and were divided into 2 groups to receive 750 mg/d L-carnitine (n=36) or placebo (n=36) for 8 w.
  • Measures of serum levels of Interleukine-1β (IL-1β), high-sensitivity C-reactive protein (hs-CRP), and matrix metalloproteinases (MMPs) -1 and -13.
  • Visual analog scale (VAS) for pain was assessed.
Key results

  • 69 patients (33 in the L-carnitine group and 36 in the placebo group) completed the study.
  • L-carnitine supplementation decreased serum IL-1β and MMP-1 levels (P=.001 and .021, respectively).
  • In patients taking placebo serum hs-CRP and MMP-13, levels did not change (P>.05); serum IL-1β levels increased significantly (P=.011); other studied biomarkers did not change.
  • In the L-carnitine and placebo groups mean VAS score decreased by 52.67% and 21.82%, respectively (P<.001).
  • After adjusting for baseline values and covariates, differences were only observed between L-carnitine and placebo groups in serum IL-1β (P<.001), MMP-1 (P=.006), and mean VAS score (P=.002).
Limitations

  • Study was limited to 8 w.
  • Inflammatory mediators and metalloproteinase enzymes were only measured in serum, not in the synovial fluids.

Why this matters

  • More studies should be done to explore the benefits of L-carnitine, with higher doses of L-carnitine, long-term supplementation, and measures of other inflammatory and anti-inflammatory mediators, including TNF-α, IL-6, IL-10, and MMP-3.

Ensinando o lupus para pacientes e familiares

Público alvo: leigos.

Uma grande e oportuna idéia da jornalista e professora Vivian Magalhães, de Porto Alegre, a publicação eletrônica do livro “Domando o Lobo”. Tive o prazer de poder auxiliá-la na revisão científica. Uma explanação honesta e corajosa sobre como uma mãe pode enfrentar os fantasmas desta doença. “Sim, é possível viver uma vida plena com Lupus Eritematoso Sistêmico”, nos dizeres da autora, que tem filha com a doença. Acesse gratuitamente pelo link:

http://conteudo.bookess.com/domando-o-lobo

Reumatismos esses desconhecidos II: entrevistas na TV.

Público alvo: leigo.

Continuando a série de entrevistas para a TV, esta foi gravada em janeiro/2016 dentro do programa Viva Mais do Canal 20 (NET Porto Alegre). Anote suas dúvidas e envie através do blog, estaremos respondendo e comentando nos próximos programas. Por favor clique no link para acessar.

Laboratório em autoimunidade: os Consensos Brasileiros de FAN

Público alvo: técnico

Laudos de FAN são de difícil leitura e execução. Técnicos ao microscópio devem ter anos de treinamento antes de ser capazes de interpretar corretamente padrões nucleares, nucleolares, do aparelho mitótico, citoplasmáticos e mistos. Entra na jogada o site do IV Consenso Brasileiro de FAN em Células HEp2: http://www.hep-2.com.br. Além de ensinar a nomenclatura brasileira para os padrões de FAN, contém árvores de decisão com relevância para a anatomia celular, bem como inúmeros exemplos em fotos. E o aplicativo para telefones celulares tem obtido a melhor repercussão, tudo preparado sob os auspícios da Universidade Católica de Goiás.

Artrites & Reumatismos: lupus na vitrine.

Público alvo: leigos

Por merecimento, um primeiro texto sobre o lupus, importante doença autoimune que une cientistas de todo o mundo na busca de sua cura. A publicação é o Prefácio do livro para pacientes “Domando o Lobo”, BookEss Editora 2015, da professora e jornalista Vivian Magalhães.

“Sir William Osler (1849 – 1919), canadense, um dos quatro professores médicos que fundaram a famosa Faculdade de Medicina Johns Hopkins em Baltimore (EUA), foi o primeiro educador a trazer os alunos de medicina do anfiteatro teórico para a beira do leito. Sua grande contribuição para a pedagogia foi a criação da residência médica, treinamento pós-graduado em que os jovens médicos aprendiam vendo e falando com pacientes, sob tutela de professores eméritos.

Dr. Osler gostava de afirmar que “- Aquele que estuda medicina sem livros navega por um mar incerto, mas aquele que estuda medicina sem pacientes nem chega ao mar”. Além disso, era enfático quanto à importância de conseguir uma minuciosa anmnese, a história do paciente: “- Escute seu paciente, ele lhe está dizendo o diagnóstico”.

Dentre as inúmeras contribuições pioneiras do famoso professor à caracterização das doenças está a identificação do lupus eritematoso sistêmico como quadro sistêmico potencialmente grave, e não apenas como uma doença da pele, como se pensava até então. O modificado conceito abriu portas para o grande desenvolvimento na compreensão do lupus, ocorrido no transcorrer do século XX, como doença autoimune que envolve inúmeros órgãos.

***

Sarita M. tinha seus 30 anos de idade quando consultou comigo a primeira vez. Queria uma segunda opinião sobre sua artrite e a necessidade de tantos remédios. Morena bonita, olhos espertos, sorriso fácil mas nervoso, gaúcha clássica de estirpe fronteiriça. Casada com bancário, o marido assustado a acompanhava na consulta – claramente a contragosto. As bochechas rellenas e róseas me diziam estar em uso de corticóide, mas foi nas pernas inchadas que minha preocupação maior se deteve. Acordava com o rosto também inchado já pela manhã? “Sim”. Não pestanejei, saíram do consultório direto para o hospital, o caso era clássico de acometimento renal e o colega que a vira antes tinha acertado o diagnóstico: água na pleura nas radiografias de pulmão, exames de laboratório mostrando autoimunidade e uma hemossedimentação muito elevada me diziam ser um caso de lupus.

Em 2 dias tínhamos a biópsia de rins nas mãos: os glomérulos não apenas estavam inflamados, mas uma maioria importante havia já deixado de funcionar, cicatrizados, mortos pela doença bem diagnosticada e mal conduzida. Foi inevitável fazermos diálise, chamarmos o cirurgião vascular para construir uma fístula que desse acesso às máquinas de rim artificial, a chamada hemodiálise, e que saíssemos à cata de um doador para transplante.

Claro, iniciamos pela família. Para grande surpresa e alívio, os primeiros testes no irmão de Sarita já se mostravam altamente promissores. Tudo parecia compatível e o rapaz não titubeou – foi para o bloco junto com a irmã na semana seguinte. Em paralelo, o marido saia pela porta do hospital para não mais voltar: a visão da doença avançando na esposa, a cor jambo da doente com insuficiência renal crônica, e agora uma operação melindrosa para tentar salvar sua vida, com enorme talho e cicatriz no flanco esquerdo, foram demais para um casamento que já balançava há tempos.

O hospital universitário contava com equipe médica altamente especializada e experiente, desnecessário dizer que o transplante renal foi um sucesso. O novo rim funcionou de imediato, a máquina de diálise seguiu seu trabalho com outros pacientes e Sarita entrou na rotina de uma vida normal, em acompanhamento estrito para não haver rejeição. Os remédios foram diminuindo ao longo dos anos, o lupus ficou comportado e ela casou-se uma segunda vez. Além dos afazeres da casa, exerce sua profissão de nutricionista e não há quem não elogie sua simpatia e seu sorriso fácil, impossível suspeitar que a medicina a trouxe de uma situação crítica, provocada por uma doença assaz caprichosa, para uma vida plena e feliz. Doses pediátricas de um comprimido contendo corticóide e um remédio imunossupressor suave são tudo que lhe fazem lembrar do lupus eritematoso.

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De 1.900 ao ano 2.000, de Osler a Sarita, tivemos um século de avanços fantásticos no diagnóstico, no tratamento e na compreensão do lupus eritematoso sistêmico como doença ainda não curável, mas perfeitamente tratável. Meu sonho é ser um dia um fazedor de vacinas imunogenéticas: uma picada a cada 6 meses e o lupus está curado, enjaulado, irremediavelmente fora da vida de meus pacientes. Até lá, vejo praticamente todos compenetrados em seu tratamento, corajosos, vencendo dia após o dia as sombras de uma doença hoje dominada, construindo suas famílias, tendo filhos, sendo felizes. Sarita teve uma lesão grave em um órgão vital, o que felizmente ocorre em apenas alguns pacientes com lupus. O diagnóstico precoce permite hoje que o médico especialista rapidamente institua tratamento e que a doença entre em ótimo controle. Com a rapidez do avanço de novos conhecimentos científicos, tenho convicção que o dia das vacinas anti-lupus em minhas mãos não está longe.”