Terapia com testosterona: não é brinquedo, nem “atalho” para melhorar o corpo

Por que não se deve procurar testosterona baixa em homens sem sintomas — e por que estudos recentes não liberam o uso indiscriminado do hormônio

Uma atualização importante

Este texto foi escrito por dois motivos.

Primeiro, o secretário de Defesa dos Estados Unidos anunciou que o Pentágono pretende avaliar anualmente os níveis de testosterona de todos os militares com 30 anos ou mais e oferecer reposição hormonal àqueles que apresentarem níveis baixos.

Entretanto, fazer esse tipo de rastreamento em homens sem sintomas não é apoiado pelas evidências científicas nem recomendado pelas principais sociedades médicas.

Segundo, a agência reguladora norte-americana, a FDA, retirou dos produtos de testosterona o alerta mais grave relacionado ao risco cardiovascular, baseando-se principalmente nos resultados do estudo TRAVERSE. Na avaliação do autor deste artigo, porém, esse estudo não oferece segurança suficiente para justificar tanta tranquilidade.

O crescimento da “moda da testosterona”

A terapia de reposição de testosterona, frequentemente chamada de TRT, vem sendo promovida como um caminho rápido para recuperar energia, disposição, força física e interesse sexual.

Antes restrita principalmente a clínicas especializadas, ela passou a fazer parte do cotidiano. É anunciada em podcasts, redes sociais, clínicas de bem-estar e plataformas de telemedicina. Muitos pacientes já chegam ao consultório usando testosterona.

O próprio autor, que é cardiologista e já teve câncer de próstata, relata que chegou a receber a sugestão de usar testosterona apenas por estar com dores musculares.

O problema é que, em muitos casos, os possíveis riscos podem superar os benefícios.

Há mais de 20 anos, clínicas de “bem-estar”, comunidades on-line, empresas farmacêuticas e até alguns médicos apresentam a testosterona como solução para sintomas muito vagos, como:

  • cansaço;
  • irritabilidade;
  • desânimo;
  • redução do interesse sexual;
  • perda de força;
  • dificuldades associadas ao envelhecimento.

A expressão inglesa “Low T”, ou “testosterona baixa”, transformou-se em um slogan de marketing e em uma explicação fácil para quase qualquer queixa do homem que está envelhecendo.

Isso confunde duas situações muito diferentes: o verdadeiro hipogonadismo, que é uma doença, e as mudanças naturais que podem ocorrer com a idade.

Quando a testosterona é um tratamento legítimo

A testosterona é um medicamento potente, que exige prescrição e acompanhamento médico. Ela possui indicações bem estabelecidas.

O tratamento pode ser apropriado para homens com hipogonadismo devidamente comprovado. Isso significa que o paciente precisa apresentar:

  1. sintomas compatíveis com deficiência de testosterona; e
  2. níveis de testosterona repetidamente baixos em exames realizados de maneira adequada.

Entre as causas clássicas de hipogonadismo estão:

  • doenças da hipófise, uma glândula localizada no cérebro;
  • lesões ou doenças dos testículos;
  • algumas síndromes genéticas;
  • determinados tratamentos médicos.

Nesses pacientes, a reposição pode melhorar a função sexual, aumentar a densidade dos ossos e proporcionar melhor qualidade de vida. Esses benefícios são reais e foram demonstrados por décadas de experiência clínica e por estudos controlados.

O problema é que grande parte da testosterona utilizada atualmente não está sendo prescrita dessa maneira.

Testosterona não é suplemento nem estratégia de “biohacking”

A testosterona vem sendo cada vez mais oferecida como se fosse um produto para melhorar o estilo de vida, combater o envelhecimento, aumentar músculos ou elevar o desempenho físico e sexual.

Ela também é promovida dentro do chamado “biohacking”, termo usado para experiências ou intervenções que prometem “otimizar” o organismo.

Mas a testosterona:

  • não é um suplemento;
  • não é uma vitamina;
  • não é um atalho inofensivo;
  • não é uma experiência sem consequências.

Ela é um hormônio poderoso.

A preocupação é ainda maior quando são utilizadas doses acima das concentrações naturais do organismo, como ocorre entre alguns frequentadores de academias que desejam ganhar músculos rapidamente ou entre pessoas que experimentam hormônios sem supervisão médica.

Esses homens ficam expostos aos riscos da terapia convencional e a perigos adicionais provocados por:

  • doses muito elevadas;
  • produtos sem procedência confiável;
  • combinações hormonais não aprovadas;
  • ausência de acompanhamento clínico e laboratorial.

Entre os possíveis problemas estão:

  • aumento do risco cardiovascular;
  • policitemia, que é o aumento excessivo dos glóbulos vermelhos e torna o sangue mais espesso;
  • formação de coágulos;
  • trombose venosa e embolia pulmonar;
  • infertilidade, devido à redução da produção de espermatozoides;
  • diminuição da produção natural de testosterona;
  • alterações de humor;
  • irritabilidade e agressividade;
  • dependência;
  • complicações psiquiátricas;
  • tumores no fígado.

Muitas alegações de que essas práticas seriam seguras baseiam-se em estudos pequenos, curtos ou de qualidade metodológica limitada.

Prescrição excessiva e diagnósticos inadequados

Apesar de existirem critérios rigorosos para diagnosticar deficiência de testosterona, o número de prescrições aumentou muito entre homens de meia-idade e idosos.

Esse crescimento foi impulsionado por campanhas comerciais e publicidade dirigida diretamente ao consumidor.

Muitos homens que recebem testosterona nunca tiveram hipogonadismo adequadamente comprovado.

Em um estudo com mais de 61 mil homens com 40 anos ou mais, mais de um quarto iniciou o tratamento sem sequer ter realizado uma dosagem de testosterona antes da prescrição.²

Isso está muito distante da boa prática médica baseada em evidências.

Um único exame baixo não confirma o diagnóstico

Também não é correto prescrever testosterona com base em uma única dosagem baixa.

A diretriz de 2024 da Associação Americana de Urologia afirma claramente que um resultado de testosterona total abaixo de 300 ng/dL, isoladamente, não define deficiência de testosterona.³

Quando o diagnóstico é feito sem sintomas ou sinais compatíveis, aumenta a possibilidade de um diagnóstico falso e diminui a chance de o paciente realmente se beneficiar do tratamento.

A Sociedade de Endocrinologia também recomenda que a testosterona seja utilizada apenas em homens com deficiência hormonal acompanhada de sintomas. Além disso, orienta que médicos não solicitem o exame rotineiramente para homens sem sintomas ou sinais relacionados à deficiência de testosterona.⁴

Cerca de 30% dos homens que apresentam um primeiro resultado dentro da faixa considerada baixa terão um resultado normal quando o exame for repetido.

Por esse motivo, a dosagem deve ser confirmada em pelo menos duas ocasiões, idealmente:

  • pela manhã, entre 7 e 10 horas;
  • em jejum;
  • depois de uma noite adequada de sono;
  • fora de períodos de doença aguda.

Falta de sono, alimentação recente, infecções e outros problemas de saúde podem reduzir temporariamente a testosterona.

Toda essa prescrição excessiva seria menos preocupante se a terapia fosse completamente segura. Mas ela não é.

Os possíveis riscos para o coração e a circulação

Em 2025, uma revisão publicada no New England Journal of Medicine sugeriu que a terapia com testosterona parecia segura do ponto de vista cardiovascular.⁵

Entretanto, dizer que a testosterona foi definitivamente “comprovada como segura” é uma conclusão exagerada, baseada principalmente na interpretação do estudo TRAVERSE.⁶

Antes de analisar esse estudo, é importante lembrar alguns princípios básicos da pesquisa médica.

Nenhum estudo deve ser interpretado isoladamente. Os resultados precisam ser avaliados junto com pesquisas anteriores e com aquilo que já sabemos sobre os efeitos biológicos do medicamento.

Além disso, todos os estudos possuem limitações. Participantes de pesquisas clínicas costumam ser cuidadosamente selecionados e monitorados com muito mais frequência do que os pacientes tratados no mundo real.

Isso pode dificultar a aplicação dos resultados à população geral.

O financiamento pela indústria farmacêutica também precisa ser considerado, pois estudos patrocinados por empresas tendem, com maior frequência, a apresentar resultados favoráveis aos produtos avaliados.

O que já se sabia antes do estudo TRAVERSE

Há muito tempo sabemos que a testosterona pode:

  • aumentar a produção de glóbulos vermelhos;
  • elevar o risco de coágulos nas veias;
  • reduzir o HDL, conhecido como “colesterol bom”.

Antes do estudo TRAVERSE, os resultados de pesquisas controladas eram variados, mas já despertavam preocupação.

Uma análise conjunta de 27 estudos randomizados, envolvendo quase 3 mil homens, identificou uma probabilidade 54% maior de eventos relacionados a doenças cardiovasculares entre aqueles que receberam testosterona, em comparação com placebo.⁷

Essa associação foi mais forte nos estudos que não haviam sido financiados pela indústria.

Os chamados Testosterone Trials foram estudos pequenos e acompanharam os participantes durante apenas um ano.⁸ Portanto, não é surpreendente que não tenham identificado aumento significativo de infartos, acidentes vasculares cerebrais ou outros eventos cardiovasculares graves.

Entretanto, em uma parte do estudo que utilizou tomografia para avaliar as artérias do coração, os pesquisadores observaram um aumento preocupante no volume das placas das artérias coronárias.⁹

Houve inclusive aumento das chamadas placas “moles”, consideradas mais instáveis e com maior possibilidade de se romper e provocar um infarto.

Nem todos os estudos mostraram alterações prejudiciais nos marcadores de risco cardiovascular. Ainda assim, o conjunto das evidências recomendava cautela.

Estudo TRAVERSE: limitações importantes

O TRAVERSE foi um grande estudo patrocinado pela indústria e planejado para avaliar a segurança cardiovascular da reposição de testosterona.⁶

Foram incluídos mais de 5.200 homens com hipogonadismo confirmado e maior risco de doenças cardiovasculares.

À primeira vista, os resultados pareceram tranquilizadores. Uma análise mais cuidadosa, porém, mostra que o estudo não resolveu definitivamente a questão da segurança.

1. Tempo de tratamento muito curto

O tempo médio de exposição à testosterona foi de apenas 21,7 meses.

Muitos homens utilizam testosterona durante vários anos ou até por décadas. Portanto, menos de dois anos de exposição média não são suficientes para avaliar adequadamente a segurança em longo prazo.

2. Muitos participantes abandonaram o tratamento

Mais de 60% dos participantes interromperam a terapia durante o estudo.

Isso significa que muitos homens não ficaram realmente expostos à testosterona por tempo suficiente para que fossem avaliados os efeitos de uso contínuo.

3. Monitoramento muito mais cuidadoso do que na vida real

Os participantes realizavam exames frequentes. As doses eram constantemente ajustadas para manter os níveis de testosterona rigidamente controlados, na faixa normal mais baixa.

Na prática cotidiana, o acompanhamento costuma ser menos frequente. Alguns pacientes usam doses maiores, não realizam os exames recomendados ou mantêm concentrações de testosterona muito acima das observadas no estudo.

Por isso, os resultados do TRAVERSE não podem ser automaticamente aplicados a todos os homens que usam testosterona no mundo real.

4. O estudo não foi desenhado para provar segurança absoluta

O TRAVERSE utilizou um modelo chamado estudo de “não inferioridade”.

De maneira simplificada, o objetivo era mostrar que a testosterona não seria muito pior do que o placebo dentro de uma margem previamente estabelecida.

Nesse tipo de estudo, mesmo um aumento que possa ser clinicamente importante em alguns eventos ainda pode permitir que o tratamento seja classificado como “não inferior”.

Isso é muito diferente de provar que o tratamento é totalmente seguro.

5. Alguns problemas foram mais frequentes com testosterona

Mesmo nessas condições cuidadosamente controladas, os homens que receberam testosterona apresentaram taxas maiores de:

  • fibrilação atrial, um tipo de arritmia cardíaca;
  • tromboembolismo venoso, que inclui trombose e embolia pulmonar;
  • lesão renal aguda.

Portanto, o estudo não pode ser interpretado como um certificado geral de segurança cardiovascular.

O que o estudo significa na prática

O estudo TRAVERSE não deve ser entendido como uma autorização para o uso rotineiro de testosterona.

Isso é especialmente importante para os homens encontrados diariamente nos consultórios: pacientes mais velhos, com excesso de peso, diabetes, hipertensão ou doenças cardiovasculares já estabelecidas.

Nesses grupos, os riscos podem ser relevantes.

Muitos casos de aparente “testosterona baixa” estão relacionados à obesidade. O excesso de gordura corporal pode reduzir os níveis do hormônio, mas essa causa pode ser tratada.

A perda de peso pode melhorar:

  • os níveis de testosterona;
  • o humor;
  • a disposição;
  • a função sexual;
  • a saúde cardiovascular;
  • o controle do diabetes.

E tudo isso com riscos muito menores do que os associados ao uso indiscriminado de hormônios.

Para muitos pacientes, cuidar primeiro do peso, da atividade física, do sono, da alimentação e das doenças associadas seria muito mais benéfico do que iniciar testosterona.

E o risco de câncer de próstata?

O autor do artigo é sobrevivente de câncer de próstata e manifesta preocupação com a possibilidade de a testosterona estimular um tumor ainda oculto.

A relação entre reposição de testosterona e câncer de próstata continua sendo debatida. A existência de incertezas, porém, é mais uma razão para evitar o uso sem indicação médica clara e sem acompanhamento adequado.

Conclusão

A testosterona é um tratamento legítimo para homens com hipogonadismo verdadeiro, ou seja, quando existem sintomas compatíveis e níveis hormonais repetidamente baixos, confirmados por exames realizados corretamente.

Porém, ela não deve ser tratada como:

  • medicamento de estilo de vida;
  • solução automática para o envelhecimento;
  • atalho para recuperar a juventude;
  • método rápido para ganhar músculos;
  • experiência de “biohacking”;
  • terapia inofensiva para qualquer homem cansado ou desanimado.

A testosterona não foi comprovada como segura quando utilizada fora de suas indicações médicas.

Os profissionais de saúde precisam resistir às pressões comerciais e culturais que transformam o envelhecimento natural em doença. As decisões devem continuar sendo baseadas em sintomas, exames adequados, avaliação individual dos riscos e evidências científicas.

Os pacientes, estejam no consultório, na academia ou ouvindo recomendações em podcasts, merecem receber uma informação clara:

A testosterona é uma terapia médica, não um brinquedo. É um hormônio com benefícios em situações específicas, mas também com riscos. Tratá-la como um simples “atalho” pode ser perigoso.

Fonte: material traduzido e adaptado de Substack do Dr. James H. Stein, MD — 15 de julho, 2026

Referências

  1. US Pharm 2025;50:18. https://www.uspharmacist.com/article/nationwide-patterns-in-testosterone-replacement-therapy#
  2. Baillargeon J, et al. Screening and Monitoring in Men Prescribed Testosterone Therapy in the U.S., 2001–2010. Public Health Rep 2015;130:142.
  3. Mulhall JP, et al. Evaluation and management of testosterone deficiency: AUA guideline (2024 update). At https://www.auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines/testosterone-deficiency-guideline. Update of original guideline published in J Urol 2018; 200:423.
  4. Bhasin S, et al. Testosterone Therapy in men with hypogonadism: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab 2018;103:1715-1744.
  5. Bhasin S, et al. Testosterone Treatment in Middle-Aged and Older Men with Hypogonadism. N Engl J Med 2025;393:581.
  6. Lincoff AM, et al for the TRAVERSE Investigators. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy. N Engl J Med 2023;389:107.
  7. Xu L, et al. Testosterone therapy and cardiovascular events among men: a systematic review and meta-analysis of placebo-controlled randomized trials BMC Med 2013;11:108.
  8. Snyder PJ, et al. Effects of Testosterone Treatment in Older Men. N Engl J Med 2016;374:611.
  9. Budoff MJ, et al. Testosterone Treatment and Coronary Artery Plaque Volume in Older Men With Low Testosterone. JAMA 2017;317:708.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre DOUTOR VON MÜHLEN

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo